|
(por Jordan Augusto)
Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade. (Friedrich Nietzsche)
Escuto Etta James e leio novamente “Assim falou Zaratrustra” – de Nietzsche; olho pela janela e uma grande tempestade se aproxima; o frio, o café, a meia-luz, tudo contribui para um interessante momento de reflexão. Relembro momentos importantes, releio em minha memória instantes que fomentaram toda esta história de agora.
Em uma das grandes considerações que admiro de Nietzsche, vejo repetir em minha boca a frase: “A consciência é a última e mais tardia evolução da vida orgânica e, por conseguinte, o que nela existe de menos acabado e de mais frágil.” Evoluir, difícil trajetória que retrata o que há de melhor e pior em nós. Desde que resolvi sair do Brasil, criatividades não faltaram tentando imaginar quais foram os motivos de minhas decisões; é incrível como conseguimos seduzir à distância as pessoas que dizem nos odiar, não é mesmo? Não é novidade para nenhum observador que o mundo é o campo da batalha entre o princípio da força e reflexão. A cada dia que passa adquirimos mais e mais admiradores e inimigos ocultos; atuamos por meio de uma consciência que visa e luta para que o bem seja sempre a moeda da vez. Contudo, não é fácil disciplinar os sentimentos que surgem dos conflitos entre o ser e o existir. Todos queremos ser alguma coisa, mas qual a razão de existirmos?
Recordo-me de um querido professor que afirmava a todos: “quereis ser alguém; aprendam a desviar dos demais!” Profunda colocação, metódica perspectiva só me leva a crer que todo este processo que chamamos “evolutivo” nada mais é que saber se desenvolver em direção reta e sem desvios. Mas como não desviar do perigo? Como não considerar que o que verdadeiramente necessitamos é de apenas um momento da partida em que tudo o que se deseja é chegar. O objetivo, ao ser considerado pelo sábio, assume a reflexão que todo trajeto já existe em nossa consciência, em nossa realidade menos usual. Como diz Ubaldi: “A vida, no entanto, é fenômeno extenso e equilibrado. Nela o futuro é eterno, produzem-se efeitos devidos a causas longínquas, preparam-se objetivos também longínquos.”
Evoluir... Em profundidade consiste precisamente em conquistar novas posições mais elevadas em relação à sua reflexão anterior. Na consideração, na melhor que podemos oferecer a nós mesmos, existe a que nos obriga a chegar cansados e ofegantes à praia de nossas conclusões. “O homem é definido como um ser que evolui, como o animal é imaturo por excelência.” - diz Nietzsche.
Vejamos na interessante história abaixo:
“O jovem disse ao abade do mosteiro:
- Bem que eu gostaria de ser um monge, mas nada aprendi de importante na vida. Tudo que meu pai me ensinou foi jogar xadrez, que não serve para iluminação. Além do mais, aprendi que qualquer jogo é um pecado.
- Pode ser um pecado, mas também pode ser uma diversão, e quem sabe este mosteiro não está precisando um pouco de ambos – foi a resposta.
O abade pediu um tabuleiro de xadrez, chamou um monge, e mandou-o jogar com o rapaz.
Mas antes da partida começar, acrescentou:
- Embora precisemos de diversão, não podemos permitir que todo mundo fique jogando xadrez. Então, teremos apenas o melhor dos jogadores aqui; se nosso monge perder, ele sairá do mosteiro, e abrirá uma vaga para você.
O abade falava sério. O rapaz sentiu que jogava por sua vida, e suou frio; o tabuleiro tornou-se o centro do mundo.
O monge começou a perder. O rapaz atacou, mas então viu o olhar de santidade do outro; a partir deste momento, começou a jogar errado de propósito.
Afinal de contas preferia perder, porque o monge podia ser mais útil ao mundo.
De repente, o abade jogou o tabuleiro no chão.
- Você aprendeu muito mais do que lhe ensinaram – disse. – Concentrou-se o suficiente para vencer, foi capaz de lutar pelo que desejava. Em seguida, teve compaixão, e disposição para sacrificar-se em nome de uma nobre causa. Seja bem-vindo ao mosteiro, porque sabe equilibrar a disciplina com a misericórdia.” (retirado do site de Paulo coelho)
|