quinta-feira, 9 de setembro de 2010

 

Notícias            


Mestre-aluno... Desfaça-se dos medos!...

(por Jordan Augusto)


Todos os grandes observadores sabem que é muito mais fácil construir uma nova história do que tentar consertar o passado. Foi o tema central de minha conversa com uma antiga amiga que luta para reconquistar seu mestre indiano de Yoga. Tudo depene de como as duas partes enxergam uma mesma linha que divide a relação. Por outro lado, os princípios que regem as relações não são diferentes dos que regem o universo; as vias de comunhão e separação são sentimentos estreitamente correlatos. Todos eles se podem reduzir a um só, do qual todos estes derivam - o amor.

Em qualquer questão onde o desafeto parece ser a moeda da vez, nada pode ser melhor que uma boa conversa; a estreita relação entre o ego e a compreensão só atua de maneira positiva quando dissolvemos o que nos aprisiona. Disse Lao Tse: “Se não podes avançar uma polegada, retrocede um pé.”

Quiçá esteja aí um problema que se prolonga através do orgulho. Mudar a posição do eixo que coordena nossos pensamentos pode ser uma oportunidade. Para o mestre que não perdoa, este mesmo princípio da consciência é o que fundamente a sua própria prisão. Para o aluno, aquele que busca, tudo é confiado à responsabilidade do indivíduo que se estabelece diante de sua própria busca. Isso significa que cada uma das partes deve buscar copreender o mundo pelos olhos do outro; o medo, em geral, surge através da ilusão, imaginação, continuamente presente naquele que sonha. Verificar a própria consciência é o primeiro passo para se desfazer do medo; refletir, reavaliar, questionar-se em busca de respostas palpáveis e não flutuantes. Atuar pela via da razão fortalece os objetivos e esclarece as posições.

A condição que dispomos para qualquer que seja a resolução reside no aperfeiçoamento que geramos através de nossas próprias medidas. Querer nem sempre é poder; mas, querer com uma condição de racionalidade abre as portas para o diálogo e, por conseguinte, um ajuste de histórias.

Contudo, o melhor sempre é recomeçar do zero sem questionamentos; sem dores, rancores, meias histórias... Do contrário, a mente sempre é aprisionada pelo vazio do “se”, dos tantos possíveis “porquês” que estão, realmente, além das limitações conceituais de cada um, haja vista que cada cabeça uma sentença. Todavia, sem a reflexão, quem inicia o caminho de reajuste não tem esta consciência e acha difícil a experiência do reconhecimento, caminha através do medo, do receio; por isso é muito importante não deixar-se distrair pelos pensamentos ilusórios.

“Tudo o que é difícil deve tentar-se enquanto é fácil.” (Lao-Tse)


Vejamos:

Na antiga China, no alto da montanha Ping, morava um iluminado de nome Hwan. De seus muitos discípulos, conhecemos um, Lao-li estudou e meditou sob orientação do grande mestre Hwan. Apesar de ser o mais inteligente e o mais determinado entre todos os discípulos, Lao-li ainda tinha de alcançar a iluminação.

A sabedoria da vida não era sua. Tal meta lhe tomou dias, noites, meses, mesmo anos, até que, numa manhã, observou uma flor de cerejeira. "Não posso mais lutar contra o meu destino", ele pensou. "Como a flor da cerejeira, devo resignar-me". Naquele momento, Lao-li decidiu descer a montanha, deixando para trás seu sonho de alcançar a iluminação. Lao-li procurou Hwan para lhe comunicar a decisão.

O mestre se sentou diante de uma parede branca, em profunda meditação. Depois falou: "Amanhã estarei com você na descida da montanha". Nada mais foi dito. Na manhã seguinte antes de começar a descida, o mestre olhou em torno da paisagem que circundava a montanha e perguntou: "Diga-me Lao-li, o que você vê?" Lao-li respondeu: "Mestre, vejo o sol começando a levantar-se no horizonte, montanhas que se estendem pôr quilômetros a fio, o vale, o lago e uma velha vila".

O mestre sorriu, e eles iniciaram a descida. Hora após hora, enquanto o sol cruzava o céu, eles andaram. Só pararam no pé da montanha. De novo, Hwan pediu a Lao-li que dissesse o que via. "Grande sábio, vejo ao longe galos correndo pelo poleiro, vacas dormindo no prado, velhos tomando o sol da tarde e crianças brincando no riacho". O mestre, em silêncio, continuou a caminhar até chegar ao portão da vila. Então, eles se sentaram sob uma velha árvore.

"O que você aprendeu hoje, Lao-li?", perguntou o mestre. A resposta de Lao-li foi o silêncio. Depois de muito tempo, o mestre continuou: "A estrada para a iluminação é como a jornada montanha abaixo. A Graça só ocorre àqueles que se dão conta de que o que se vê lá em cima não é igual ao que se vê aqui embaixo. Sem esse conhecimento, fechamos nossas mentes a tudo aquilo que não podemos ver de onde estamos. Limitamos então nossa capacidade de crescer e aprimorar-nos. Mas, com esse conhecimento, Lao-li, há um despertar. Reconhecemos que sozinha uma pessoa vê muito - o que, na verdade, é bem pouco. Essa é a sabedoria que abre nossas mentes para o aperfeiçoamento, que derruba preconceitos e nos ensina a respeitar o que a princípio não podemos ver. Nunca se esqueça dessa última lição, Lao-li: o que você não pode ver pode ser visto de outra parte da montanha ".

Quando o mestre parou de falar, Lao-li pôs-se a olhar o horizonte. Enquanto o sol se punha diante de seus olhos, uma luz nascia dentro do seu coração. Lao-li se voltou para o mestre, mas ele já não estava mais ali. E assim termina esta história. Dizem que Lao-li subiu novamente a montanha e se tornou um grande iluminado.









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