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(por Jordan Augusto)
"Quem perdeu a confiança não tem mais que perder." (Publílio Siro)
Uma grande maioria acredita que já não existem alunos ou mestres como antigamente. Será? Ou estamos apenas justificando as tantas alterações naturais que sofrem as profissões em decorrência da renovação e, por conseguinte, evolução do pensamento? Quiçá, melhor seria dizermos que as regras por nós ditadas, reordenadas em função de uma nova adaptação, nada tem a ver com ser melhor ou pior; gostaríamos de ver um mestre à moda antiga, severo, malvado, duro, impiedoso – como contam orgulhosamente alguns -, sobreviverem nos dia atuais sem nenhuma alteração em sua forma de ver a vida.
Posso dizer com propriedade que enfrentamos o eterno paradoxo: em primeiro, a visão promovida pelo carinho que gera admiração, intimidade, e logo - o que é comum – promove pela via da intimidade invasões de privacidades de ambos os lados; invitavelmente isso promove o mal-estar; por certo: dá asco! Daí a frase: “intimidade dá asco!” Em segundo, a dureza que gera a dor, o sofrimento, a sensação de humilhação... Logo, competição, vinganza.
Toda relação se inicia por bases concretas da vida; estabelece-se a partir de seus alicerces no mundo da matéria, da troca, da busca por algo de maior amplitude. Se observarmos pelos seus aspectos mais realistas, a relação - enquanto troca - estabelece como único mecanismo de cumplicidade a busca por algo que não se possui até o momento: no caso do aluno é o conhecimento; e do mestre, o dinheiro do cliente. Parece um pouco pesado para o momento a palavra “cliente”, mas é esta a visão mais forte que impera na Europa. Mesmo possuindo a minha forma diferente de pensar, pergunto: se existem escolas de idiomas, bailes, esportes, e etc., o que impede uma pessoa de viver dignamente de seu trabalho como professor? O que faz o hipócrita pensar que quando o assunto se refere às artes marciais deve imperar a filosofia da pobreza? O que fariam os médicos, advogados, profissionais, se deixassem de cobrar pelos seus trabalhos? Por que o outro deve ser o exemplo? "A confiança constante na maioria das vezes ganha a confiança recíproca." – disse Tito Lívio.
Pela visão mais social da coisa, podemos dizer que todos nós estamos no caminho da sobrevivência, o que significa tentar sobreviver dignamente. Se assim o é, veremo-nos localizados entre a frieza da realidade do cliente e a convivência através da relação “Senpai-Kohai”. O primeiro oferece dinamismo rude e decomposto; os segundo, sabedoria, produto de longas experiências. Michael O´Brien disse que "A confiança é contagiante. A falta dela também."
Vejamos:
Conta-se que havia um grande sábio que vivia em Gorgán. Tinha em sua casa uma gata que o queria muito. Estava sempre junto a ele, e se não, se acocorava no tapete de oração. Ia livremente à cozinha, pois sabiam que nunca tocava em nada, contentando-se com o que lhe davam.
Pois bem, um dia ao entardecer, foi à cozinha e roubou um pedaço de carne da panela. O servo do sábio se deu conta do ocorrido e lhe bateu. A gata, magoada, colocou-se em um canto demonstrando seu descontentamento. O sábio perguntou pela gata a seu servo, que contou-lhe o que aconteceu. Então, chamou a gata e disse-lhe: "Por que fizeste isso?"
A gata foi-se e retornou por três vezes, trazendo seus gatinhos recém nascidos. Colocou-os aos pés do sábio, e triste refugiou-se em uma árvore, abrindo os olhos bem grandes e guardando silêncio. O sábio dirigiu-se aos que o rodeavam, dizendo-lhes:
"O delito desta gata é perdoável, pois não cometeu-o pensando em si mesma. Sua conduta não tem nada de surpreendente, pois o amor materno é algo prodigioso. Enquanto não se tem filhos, não se pode compreender essa solicitude. Este pobre animal, privado da palavra, certamente sofreu muito. Peça-lhe perdão, e sua ira desaparecerá".
Coisa que o servo fez, mas sem êxito. O sábio, por sua vez, falou-lhe, rogando-lhe que descesse da árvore. Em seguida, a gata desceu e acocorou-se a seus pés. Todos os assistentes deram razão ao pobre animal e aderiram a gratidão daquele doce ser.
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