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(por Jordan Augusto)
"A gratidão tem memória curta." (Benjamim Constant)
Muitos afirmam que o grande homem de caráter demonstra suas virtudes não da maneira que chega na vida de alguém, mas da maneira que ele sai. Verdade - pelo menos para mim - absoluta, faz-me observar cada um que chega e sai; cada gesto, olhar, pensamento, palavra... Logo, permito que tudo isso se desfaça no ir e vir de cada instante. Quiçá, muitos mestres fizeram destes momentos a ponte que liga os instantes anteriores à última palavra na hora da despedida; exteriorização dos sentimentos, ou um simples protocolo que fala em nome do agradecimento, cada um vem e vai da maneira que lhe parece melhor.
Chegamos ao final de mais um curso na Espanha. Sentimentos, dúvidas, releituras da vida, dos momentos, aprendizados, morte de alguma verdade à deriva, vida para outras... Somos as conseuquências de uma série de reverberações que chegam até nós através do demais, não é mesmo? Mas quem estaria pronto a entender o confuso? O ser em sua essência? Ou mesmo a essência exteriorizada em uma má comunicação? Diriam os sábios que o mundo que é dirigido pela bondade e pelo amor estaria pronto para acolhê-los em atmosferas de felicidade. Será? É simples assim? Saliento, então, algo mais profundo: quem é verdadeiramente grato?
William Shakespeare disse que "a gratidão é o único tesouro dos humildes." Mas quem consegue ser, sem disfarce algum, humilde? Passam os anos e nos tornamos – entre aspas – “PHD” em conhecer as reações primárias dos humanos. Por mais que observemos em vias de proporção pessoal ou coletiva existente entre os extremos, em meio a estas duas polaridades – observador e pessoa observada -, existe um intervalo que representa uma espécie de vida; esta vida também necessita de bondade e ordem: nada resiste somente por via da comprensão – uma vez que o questionamento antecede o uso da sabedoria.
No passado aprendi que o verdadeiro mestre é aquele que lhe coloca contra a parede e faz observar a si você mesmo. Ou seja, poeticamente provoca mortes; obriga-o a se reorganizar. Nos ensinamentos orientais verdadeiros, a morte é o símbolo mais presente; a morte dos momentos, dos instantes, dos ciclos... Através da morte de uma etapa adquirimos a oportunidade de recomeçar inteligentemente. Ou somente a condição imposta pela sabedoria universal que nos faz encarar o fato inescapável da nossa impermanência nos momentos e na vidas dos demais. Talvez esteja aí a resposta mais exata para a compreensão do ir e vir. "É rara a verdadeira gratidão, porque são raros os genuínos benfeitores." - disse Marquês de Maricá.
Se assim o é, melhor agredece aquele que sente verdadeiramente esta gratidão. Em toda relação os desequilíbrios custam caro. Mas, dir-se-á, o sábio, ou mesmo o mestre, o que esperamos de uma relação? Torna-se necessário a todos, então, sentir o terror de vir a perdê-la, que é o tormento dos confusos; e mais que certo que aquele que observa, mas não compreende, sofre com as respectivas ânsias e preocupações. Isso faz parte do movimento que nos direciona. Logo, o mestre jamais deve esperar desta gratidão o ponto máximo da relação.
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