quinta-feira, 9 de setembro de 2010

 

Notícias            


Gestor do Estado de Goiás entrevista Shidoshi Jordan!...

Carlos Milhomem, gestor do Estado de Goiás e assessor do Secretário de Cultura, é considerado por todos um das mentes brilhantes de Goiânia. Leitor assíduo do site da SBB e profundo estudiosos de “n” assuntos, é um praticante do conhecimento devido à cultura fazer parte de seu cotidiano. Carlos pediu licença às formalidades e engajou em uma entrevista objetiva, direta e sem rodeios. O entrevistado – ninguém menos do que Shidoshi Jordan.





CM – Tenho visto que muita coisa aconteceu em muito pouco tempo. Muitos artigos, livros, reconhecimentos... Mas uma coisa é certa: onde fica o lado pessoal em tudo isso?

É aí que está o grande barato! Em tudo e com tudo você aprende. Se você se habitua a prestar atenção nas coisas e em si mesmo, a vida se torna uma grande escola. Entendo que no processo natural de nossa evolução, principalmente quando somos obrigados a assumir personagens públicos, descobrimos em nós uma série de faces antes desconhecidas. Entender que você não precisa disso, que o Jordan não precisa ser diferente do Shidoshi, e que não precisa ser diferente do marido ou amigo, pode ser um grande princípio. Também é fato que as coisas não acontecem da mesma forma estando em áreas diferentes e posicionamentos diferentes. Supostamente, se você mistura o pessoal com o profissional você terá as mais diversas reações nas mais inusitadas situações. Aprender que o posicionamento significa ações recorrentes em cada personagem interpretado pode ser um grande perigo. Inevitavelmente encontraremos com as mesmas pessoas, tanto no lado pessoal quanto profissional. Saber diferenciar as ações sem perder a essência conduz o homem à sua magnitude. O mundo atual está em constante transição, por isso falo em magnitude – exercitar o não fazer quando as coisas estão tempestuosas e tudo implica no caos é uma prática de altruísmo consigo mesmo. Observar é uma virtude, escutar é um ato de sabedoria, agora aplicar tudo isso no seu cotidiano é genial.

É o que tento expressar nos meus artigos... Que quando as pessoas perguntam de onde vêm tantos assuntos, digo: “De todos os lugares... Você acabou de me oferecer um.” Apenas expresso a minha forma de pensamento sobre aquele determinado ponto.



CM – Todos comentam de muitas mudanças no Bugei de 2005... E até alguns esclarecimentos já foram feitos quanto a isso. Mas na prática, o que isso, ou até que ponto, isso mudou para o senhor?

É aí que tá... Não vejo mudança no Bugei. Sempre procuro trabalhar a minha mudança pessoal. Acreditar que podemos melhorar e fazer de tudo para melhorar tem que ser uma meta inatingível. Acredito que a satisfação está no esforço para alcançar um objetivo e não em tê-lo alcançado. À medida em que amadurecemos você sempre percebe que tem algo que pode ser melhorado, e é isso que faz da experiência, o caminho andado, um livro para o sucesso. É você estar pronto e aberto para mudanças. Ter a autocrítica de olhar para si e a coragem de dizer: “Minha nossa! Eu sou horrível!!!”

Temos o péssimo hábito de achar que tudo é bom ou ruim – e não penso dessa forma. Podemos ter momentos bons e momentos ruins, podemos estar bons ou maus. Vejo que são até fragmentos da sociedade que nos atinge a todo instante. Imagine você: quantas mortes a criança assiste na televisão até os seus dez anos de idade? Com o passar do tempo isso se torna normal e a sensibilidade quanto à necessidade do outro vai deixando de existir. Buscamos respostas apenas em coisas que nos agradam e esquecemos de buscá-las nas que nos agridem, maltratam e que de uma forma ou de outra geram mudanças. É desse projeto que falo: mudar.



CM – Então para o senhor as mudanças no Bugei de 2005 são frutos de mudanças interiores?

Obviamente que cada transformação apresenta sua forma e razão de ser, mas a revolução interior, que é o que impulsiona novos pensamentos, idéias e re-avaliações, logicamente devem vir de dentro para fora.

O próprio Raul Seixas, cito ele porque antes de dar essa entrevista estava assistindo o Baú do Raul (risos), me fez refletir sobre o aspecto de colocações e óticas que não conhecia. Um exemplo disso, que não aparece no DVD, é a música Metamorfose Ambulante. Sabedoria é exatamente isso – não criar posturas, mas fluir dentro delas. Porque o ser humano é isso, a moda é isso... Hoje amamos e amanhã odiamos. Vejo que é uma questão relativa de como se enxerga o acontecimento, e a que segmento de compreensão está relacionado.

O que eu acho foda é a pessoa gostar de uma coisa e criticar porque não consegue possuir aquilo. Talvez na pessoa que você considere como inimigo estejam as maiores inspirações de aprendizados. Daí um ditado indiano que diz: “quem me lisonjeia é meu inimigo, quem me critica é meu mestre”. O mundo está cheio disso, pessoas fantásticas que são apedrejadas por não serem devidamente compreendidas ou vistas com esmero e carinho. Sempre digo que para tudo você tem que ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. Nem digo sensibilidade porque todos possuímos, mas nem todos querem utilizá-la. Se aprendemos até com o silêncio, imagine com ações de pessoas.



CM – Nesta semana conheci um aluno que me disse que esteve afastado e que a alegria e o alívio dele foi poder abraçá-lo...

É bom isso, não? Ver uma pessoa feliz? Penso quanta bobagem e quanto tempo desperdiçado. Poderia ter voltado antes. As pessoas criam uma imagem que na verdade não existe. Penso que em muitos casos, quando se é um líder, atitudes devem ser tomadas, alunos corrigidos, mas nada que envolva lado pessoal. Tenho carinho por todos os meus ex-alunos e pode ter certeza, não me interessa o que fizeram ou deixaram de fazer, mas se isso vai ser bom.

Quando esse aluno que retornou e disse: “... Shidoshi, não sei como explicar...” ele ouviu eu dizer que não queira ele aqui pelas explicações, mas por ser um amigo que teve experiências boas e más, e que isso proporcionou uma decisão quanto a um retorno. As pessoas pensam que precisam chegar até mim e se justificar. Não precisa disso. Basta se sentirem felizes. O importante é ver que as mudanças ocorreram no interior de cada um. O livre-arbítrio é de cada um.

O ser humano em um momento de desespero coloca uma série de coisas para fora, cria uma série de metáforas que justifiquem tal atitude e assim segue adiante. Talvez a função de um shidoshi seja exatamente compreender isso. No meu entendimento, em qualquer situação na vida, só existem três formas de resolvermos: ou você deixa como está, ou você ganha, ou você perde. Em todos esses casos você deve estar pronto para lidar com as conseqüências. De uma forma geral, só estamos dispostos a enfrentar aquilo que vai ser bom para nós ou que nos coloque em uma posição privilegiada. Contrariamente a isso, acho que o grande barato de tudo é o aprendizado, é o que você tirou de bom, é o que você observou naquele momento que nasce e morre a cada instante. Às vezes a gente imagina uma série de coisas e aquela pessoa nem lembra do que aconteceu, e você está aí, há todo esse tempo, sofrendo por bobagens. Pense você: o brasileiro vive em média 80 anos de vida. Você não acha que sofrer com tão pouco tempo de vida é um desperdício? O mesmo é o que digo – que sofrermos no final da vida é uma grande sacanagem. Pense você: quando completamos cerca de 60 anos e estamos aí cheios de experiência e começando a entender o que é viver dentro dos seus erros e acertos, morremos... Não é uma grande sacanagem?



CM – E o que te faz sofrer na vida?

Primeiro é importante entendermos o que é sofrimento. É um limiar pessoal e varia para cada um. Sofro muito por amigos, isso posso te dizer. Sinto falta das pessoas. Não aprendi a viver sozinho. Quando um amigo se afasta ou quando há uma situação de mal entendimento, isso me faz sofrer. Gosto de tudo preto no branco. Se errei, estou pronto para pedir perdão e quero uma oportunidade de me redimir.

Deixe-me contar uma história:

Conta-se que, certa vez, dois irmãos que moravam em fazendas vizinhas, separadas apenas por um riacho, entraram em conflito. Foi a primeira grande desavença em toda uma vida trabalhando lado a lado, repartindo as ferramentas e cuidando um do outro. Durante anos eles percorreram uma estrada estreita e muito comprida que seguia ao longo do rio para, ao final de cada dia, poderem atravessá-lo e desfrutar um da companhia do outro.

Apesar do cansaço, faziam a caminhada com prazer, pois se amavam. Mas agora tudo havia mudado. O que começara com um pequeno mal entendido finalmente explodiu numa troca de palavras ríspidas, seguidas por semanas de total silêncio.

Numa manhã, o irmão mais velho ouviu baterem na sua porta. Ao abri-la notou um homem com uma caixa de ferramentas de carpinteiro na mão. Estou procurando trabalho - disse ele. Talvez você tenha um pequeno serviço que eu possa executar.

- Sim! - disse o fazendeiro - Claro que tenho trabalho para você. Veja aquela fazenda além do riacho. É do meu vizinho. Na realidade, meu irmão mais novo.

- Nós brigamos e não posso mais suportá-lo. Vê aquela pilha de madeira perto do celeiro? Quero que você construa uma cerca bem alta ao longo do rio para que eu não precise mais vê-lo.

- Acho que entendo a situação - disse o carpinteiro - Mostre-me onde estão a pá e os pregos que certamente farei um trabalho que lhe deixará satisfeito.

Como precisava ir à cidade, o irmão mais velho ajudou o carpinteiro a encontrar o material e partiu.

O homem trabalhou arduamente durante todo aquele dia: medindo, cortando e pregando. Já anoitecia quando terminou sua obra. O fazendeiro chegou da sua viagem e seus olhos não podiam acreditar no que viam. Não havia qualquer cerca! Em vez da cerca havia uma ponte que ligava as duas margens do riacho. Era realmente um belo trabalho, mas o fazendeiro ficou enfurecido e falou:

- Você foi muito atrevido construindo essa ponte após tudo que lhe contei.

No entanto, as surpresas não haviam terminado. Ao olhar novamente para a ponte, viu seu irmão aproximando-se da outra margem, correndo com os braços abertos. Por um instante permaneceu imóvel de seu lado do rio. Mas, de repente, num só impulso, correu na direção do outro e abraçaram-se chorando no meio da ponte. O carpinteiro estava partindo com sua caixa de ferramentas quando o irmão que o contratou pediu-lhe emocionado:

- Espere! Fique conosco mais alguns dias.

E o carpinteiro respondeu:

- Eu adoraria ficar, mas, infelizmente, tenho muitas outras pontes para construir.



CM – Sou testemunha do sucesso que os ensinamentos do Bugei proporcionam hoje a pessoas das diversas classes sociais. É essa a função do site, dos artigos?

Sucesso para mim não é atribuído à fama ou ao reconhecimento, e sim quando objetivos são alcançados e isso lhe proporciona um bem-estar. Fama, reconhecimento... Isso se desfaz. Tudo no mundo hoje é muito flutuante. A mídia pode te mostrar isso. Pelé é o Rei do Futebol, mas não se fala dele no meio marcial. O que quero dizer é que pessoas vivem referenciais diferentes, então é difícil, e acho que até impossível, estabelecermos um raciocínio homogêneo dentro deste aspecto. Por mais que eu admire Pelé e tenha vontade de conhecê-lo, não gosto de futebol, o que não significa que não torça pelo Brasil na Copa do Mundo. Pense você: um cientista passa grande parte de sua vida profissional dedicado em novos experimentos e descobertas, e na maioria dos casos, não ficamos sabendo se este alcançou seus objetivos. Então é uma coisa pessoal, e o reconhecimento deve ser do indivíduo para com ele mesmo. É claro que ficamos felizes quando nosso trabalho é reconhecido. Como Van Gogh não ficaria feliz se que seu reconhecimento tivesse vindo antes de sua morte? Maquiavel só teve sua obra reconhecida muito tempo depois de sua morte, e ainda sim não viu em vida a unificação da Itália, seu grande sonho...

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