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(por Jordan Augusto)
Todos que praticam Kyujutsu sabem que depois de disparar a flecha existe um espaço de tempo para a contemplação, até que a flecha se estebilize no alvo atingido. Após este momento, possuímos apenas dois caminhos: esvaziar ou se tornar um com o todo.
Esvaziar é o mesmo que esvairmos de todas as frustrações e sentimentos hostis. Tornar-se uno é sentir o universo vibrar do momento em que nos permitimos entrar em contato com ele. Tudo que surge após isso já não existe mais.
Há um tempo, era difícil para as pessoas compreenderem a relevância da reflexão para suas vidas modernas e diárias. Um mestre disse certa vez que o kyujutsu é uma arte para seres humanos. Confuso, demorei tempos para assimilar que a forma humana é algo a ser valorizado e não menosprezado. Na verdade, a prática é uma analogia para ilustrar o quão árduo, e ao mesmo tempo precioso, é ter-se iniciado em um caminho de entendimentos. Independentemente da escola ou da ênfase, o Kyujutsu deve ter uma dimensão humanista a fim de permanecer relevante em qualquer época. Fluir depois do momento em que a flecha acerta o alvo é compreender que, neste momento, nos encontramos através das necessidades do tempo presente, sem apenas seguir cegamente as tradições, sentir-se imediato...
Neste momnto econtraremos o ponto especial através de quatro votos ilimitados: bondade, compaixão, alegria e generosidade. Diz-se: "Antes de conquistarmos o Caminho do arco, devemos cultivar bons relacionamentos com os outros." Em nossa vida diária, deveríamos saber que um simples grão de arroz é o resultado de muitas causas e condições. Deveríamos valorizar cada uma das várias causas e condições. Disparar uma flecha é permitir que o acontecimento jamais retorne. É descobrir o senso da responsabilidade.
TENHA TEMPO - (autor desconhecido)
Hoje, ao atender o telefone que insistentemente exigia atenção, o meu mundo desabou. Entre soluços e lamentos, a voz do outro lado da linha me informava que o meu melhor amigo, meu companheiro de jornada, meu ombro camarada, havia sofrido um grave acidente, vindo a falecer quase que instantaneamente.
Lembro de ter desligado o telefone, e caminhado a passos lentos para meu quarto, meu refúgio particular. As imagens de minha juventude vieram quase que instantaneamente à mente. A faculdade, as bebedeiras, as conversas em volta da lareira até altas horas da noite, os amores não correspondidos, as confidências ao pé do ouvido, as colas, a cumplicidade, os sorrisos... AHHH... os sorrisos... ,como eram fáceis de surgir naquela época.
Lembrei da formatura, de um novo horizonte surgindo... das lágrimas e despedidas, e principalmente, das promessas de novos encontros. Lembro perfeitamente de cada feição do melhor amigo que já tive em toda a vida: em seus olhos a promessa de que eu nunca seria esquecido. E realmente, nunca fui. Perdi a conta das vezes em que ele carinhosamente me ligava quando eu estava no fundo do poço. Ou das mensagens - que nunca respondi - que ele constantemente me enviava, enchendo minha caixa postal eletrônica de esperanças e promessas de um futuro melhor. Lembro que foi o seu rosto preocupado que vi quando acordei de minha cirurgia. Lembro que foi em seu ombro que chorei a perda de meu amado pai. Foi em seu ouvido que derramei as lamentações do noivado desfeito.
Apesar do esforço para vasculhar minha mente, não consegui me lembrar de uma só vez em que tenha pego o telefone para ligar e dizer a ele o quanto era importante para mim contar com a sua amizade. Afinal, eu era um homem muito ocupado. Eu não tinha tempo. Não lembro de uma só vez em que me preocupei de procurar um texto edificante e enviar para ele, ou qualquer outro amigo, com o intuito de tornar o seu dia melhor. Eu não tinha tempo. Não lembro de ter feito qualquer tipo de surpresa, como aparecer de repente com um coração aberto disposto a ouvir. Eu não tinha tempo. Não lembro de qualquer dia em que eu estivesse disposto a ouvir os seus problemas. Eu não tinha tempo. Acho que eu nunca sequer imaginei que ele tinha problemas. Não me dignei a reparar que constantemente meu amigo passava da conta na bebida. Achava divertido o seu jeito bêbado de ser.
Afinal, bêbado ou não ele era uma ótima companhia para mim. Só agora vejo com clareza o meu egoísmo. Talvez, e este talvez vai me acompanhar eternamente, se eu tivesse saído de meu pedestal egocêntrico e prestado um pouco de atenção e despendido um pouquinho do meu sagrado tempo, meu grande amigo não teria bebido até não agüentar mais e não teria jogado sua vida fora ao perder o controle de um carro que com certeza, não tinha a mínima condição de dirigir.
Talvez, ele, que sempre inundou o meu mundo com sua iluminada presença, estivesse se sentindo sozinho. Até mesmo as mensagens engraçadas que ele constantemente deixava em minha secretária eletrônica, poderiam ser seu jeito de pedir ajuda. Aquelas mesmas mensagens que simplesmente apaguei da secretária eletrônica, jamais se apagarão da minha consciência.
Estas indagações que inundam agora o meu ser nunca mais terão resposta. A minha falta de tempo me impediu de respondê-las. Agora, lentamente escolho uma roupa preta , digna do meu estado de espírito, e pego o telefone. Aviso o meu chefe de que não irei trabalhar hoje, e quem sabe nem amanhã, nem depois .... , pois irei tirar o dia para homenagear com meu pranto a uma das pessoas que mais amei nesta vida.
Ao desligar o telefone, com surpresa eu vejo, entre lágrimas e remorsos, de que para isto, para acompanhar durante um dia inteiro o seu corpo sem vida, eu TIVE TEMPO!
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