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(Por Jordan Augusto)
Diferente do Tesen, leque de ferro utilizado pelo samurai durante a guerra, o Ōgi é o leque que comumente se carregava como uma ventarola para os dias de calor.
Os leques retrateis surgiram no Japão. Depois foram usados, durante o período Sengoku Jidai como utensílio de proteção por mulheres de samurais e samurais mais velhos. Eram dotados de pequenas lâminas em suas varetas, e quando aberto se tornava uma arma em potencial. Em geral eram feitos de bambu e papel, e suas pequenas lâminas eram organizadas de forma possuíssem um ângulo correto de corte.
Os portugueses trouxeram de lá essa novidade. Isso por volta do século XV ou XVI, época dos grandes descobrimentos. Os portugueses ficaram tão entusiasmados com a descoberta que trouxeram leques em grande quantidade e aos poucos a novidade foi tomando conta da Europa, a partir da Península Ibérica, Itália e finalmente a França. Rapidamente passou a fazer parte da indumentária elegante, tornando-se um apetrecho indispensável. Como tudo em moda, as formas foram se sucedendo. Primeiro foram ornamentados com reproduções de pinturas famosas e cenas da mitologia. Rapidamente ganhou a conotação de transportar uma mensagem, como letras de música e depois propaganda política. Na época da Revolução Francesa foi um importante veículo de textos revolucionários. Fico imaginando que isso devia ser feito muitas vezes de forma extremamente discreta e mesmo escondida, nos elegantes salões da corte francesa.
Para descrever a origem do leque na cultura ocidental, lembremos da lenda grega de Eros e Psiquê. Poros (Recurso) estava adormecido quando avistado por Pênia (Pobreza), que o vê tão belo e resolve ter um filho com ele. Nasce Eros (Cupido) que herda características do pai, da mãe e do dia em que nasceu (o mesmo dia de Afrodite, deusa da beleza e do amor). Eros tem a carência típica da pobreza, mas não lhe faltam recursos, é escravo da beleza, a mais importante de suas características na lenda mitológica Eros é um caso único, não é mortal, nem deus, nem semi-deus. Ele nasce, cresce e morre, nasce, cresce e morre e assim sucessivamente. A lenda reza que quem é flechado por Eros herda todas as suas características: a carência (do ser apaixonado), as intensidades (quando apaixonado, um dia pode ser o mais feliz do mundo e em horas entrar em profunda depressão), recursos (nos nossos sonhos moldamos o ser apaixonante), escravo da beleza (quem ama o feio, bonito lhe parece), e a última característica: nem mortal, nem imortal, assim como a paixão que nasce, cresce e morre até que encontra um outro ser para se apaixonar.

A mitologia é construída a partir da história oral, por isso encontramos diferenças entre alguns mitos e lendas. É o que acontece nessa lenda, que apresenta também outra versão. Afrodite (Vênus) soube que seu templo estava sendo abandonado, pois na Terra havia uma mortal de beleza inigualável, Psiquê (Alma). Afrodite pede ao seu filho Eros que se vingue da mortal. Ao vê-la, Eros perde-se em tamanha beleza, fere-se em uma de suas flechas e apaixona-se. Eros põe sobre ela um encantamento e ninguém mais ouve falar de Psiquê. Ela não se casa. Os pais, preocupados, consultam o oráculo, e obtém a resposta de que a filha deveria ser posta sozinha no alto de uma montanha vestida de noiva. Após algum tempo sozinha, o vento Zéfiro a leva até o alto da montanha, ela entra numa caverna e ouve uma voz que lhe diz: eu sou seu noivo, vamos viver nesta caverna felizes, mas não posso lhe revelar meu rosto. Em uma conversa com as irmãs, Psiquê se convence de que deveria ver a face do noivo. A noite, ela acende uma lamparina e leva um susto, pois nunca tinha visto alguém tão lindo, deixa cair óleo no ombro de Eros e o acorda. Ele rompe com a amada, pois ela quebrou um pacto de confiança. Eros volta a morar com a mãe. Psiquê, em busca de reconquistá-lo, aceita algumas tarefas propostas por Afrodite. A última das tarefas era entrar no reino dos mortos e captar em uma caixinha um pouco da beleza da rainha das mortes, Percífane. Na volta, Psiquê sente-se atraída por uma pitada desta beleza e, ao abrir a caixa, é tomada pela beleza do sono da morte. Eros a encontra, prende a beleza da morte de volta dentro da caixa, a leva até Zeus, que a transforma em imortal dando-lhe ambrosia para comer e néctar para beber. Desde esse dia, a alma se tornou imortal, eles se casaram e viveram felizes para todo o sempre (característica serena do amor e não mais da paixão).

Como já disse nas primeiras linhas, as lendas se encarregam de nos explicar a origem de o que nos cerca. A lenda conta que o primeiro leque foi uma asa de Zéfiro, arrancada de suas costas por Eros para abanar sua amada Psiquê, adormecida num leito de rosas. Mas, deixando de lado o mundo fantasioso, passamos agora a ver o leque com os olhos do século XIX, época em que as damas os usavam para se refrescar, enquanto eram cortejadas por cavalheiros com punhos e golas de renda entre pitadas de rapé.
O leque não exercia a função única de refrescar as damas, ele era também fonte de linguagem. Uma dama deveria saber como se portar com um leque. Alguns exemplos da linguagem dos leques:
Eu te amo: Esconder os olhos com o leque aberto.
Aproxime-se: Andar com o leque, conduzindo-o aberto na mão esquerda.
Amo outro: Girar o leque na frente do rosto com a mão esquerda.
Quando nos veremos?: Leque aberto no colo.
Não me esqueça: Tocar o cabelo com o leque fechado.
Adeus: Abrir e fechar o leque.
Sim: Apoiar o leque no lado direito da face.
Não: Apoiar o leque no lado esquerdo da face.
Você é cruel: Abrir e fechar o leque várias vezes.
Não sairei hoje: Andar na sala (ao entrar) abrindo e fechando o leque.
Preciso falar com você: Tocar o leque aberto com as pontas dos dedos.
Desculpe: Manter o leque aberto na altura dos olhos.
Datados dos séculos XVIII, XIX e XX, os 109 leques expostos acompanham um glossário imprescindível:
Abano ou ventarola: Objeto em forma de leque, que se usa para atiçar o fogo ou para produzir correntes de ar.
Abébé: Leque, no idioma lorubá, produzido em diferentes metais e usado no Candomblé, como atributo de Oxum.
Alegoria: Cena com figuras representando personagens identificáveis pelos seus atributos, que procuram produzir idéias abstratas.
Baralho: Leque somente de varetas sem guarnição de papel, tecido ou plumas.
Cena campestre: Representação de cena com personagens desfrutando de entretenimento ao ar livre.
Cena de gênero: Representação de cenas da vida cotidiana.
Cena galante: Representação de cenas que incluem galanteios e folguedos em ambientes idílicos.
Chorão: Verniz de laca usado na China e no Japão.
Fitomorfos: Ornato que tem forma vegetal.
Filigranado: Ornato que tem forma imitando renda.
Folha ou pano: Parte plissada do leque, que recebe a decoração.
Mandarim: Leque colorido, modelo chinês, para exportação. Em folha de papel pintado dupla face, mostra cenas da corte com as diversas figuras humanas com os rostos de marfim e os trajes de seda. Conhecidos como "cem faces" ou "mil faces".
Monogramas: Entrelaçamento gráfico de duas ou mais letras iniciais ou das principais letras de um nome.
Ornato: Motivo decorativo que se aplica a qualquer obra de arte.
Vareta: Cada uma das hastes que compõem a armação de um leque.
Vareta mestra: Varetas extremas dos leques, sendo que a mais destacada, da frente, é a principal.
Zoomorfos: Termo usado para descrever motivos estilizados e ornamentações baseados em formas animais.

Referências:
BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia: a idade da fábula. História de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 1965.
GORRESIO, Z. M. P. A ética da individuação: um estudo sobre a ética do ponto de vista da psicologia junguiana. Hypnos, v. 2, n. 2, p. 112 – 118, 1997.
JUNG, C, G. O eu e o inconsciente. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 1985.
______. Aion. Estudos sobre o simbolismo do si – mesmo. 2 ed. Petrópolis
Cursos específicos sobre Eros e Psquê – Prof. Luiz Amaral, Livros de Mitologia Grega,
Conversas com Araki Sensei, Michie Hosokawa, Paulo Hideyoshi, Masa, sadao, Luiz yamada, Hidetaka Sensei. Textos: Galileu - Revista, Livros de Sociologia; Análises sobre a Psicologia Moderna e estudos sobre Freud, Jung, Melanie Klein;Grof; Kapra;
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