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(por Jordan Augusto)
“Errar é humano. Botar a culpa nos outros também.” (Millôr Fernandes)
Há alguns anos atrás escrevi um artigo onde eu dizia que às vezes temos que assumir as nossas culpas. Nos dias de hoje, com esta idéia mais amadurecida, penso que é essencialmente importante que assumamos as nossas culpas; é uma singular e indivisível oportunidade do ser olhar para si e, por conseguinte, restaurar as suas “ranhuras”, fendas, irregularidades, que subtraem em sua história pessoal.
A culpa, muito ao contrário do que se imagina, representa um profundo observar sobre si mesmo, sobre as suas condições de se relacionar com seus semelhantes e consigo. É bem simples, existe apenas uma regra: não tenha medo! Somos nós, em nossa mecânica interna e externa, quem geramos as condições para se ver, observar, com maior profundidade e claridade diante da relação que exercemos entre o todo e o que nos divide – neste caso a culpa. Para os sábios, é um interessante exame de consciência que altera toda uma rota de equívocos e maus costumes; ou seja, é como se criássemos uma perspectiva única que pouco a pouco vai construindo um cenário onde os antagonistas são “o próprio mundo às avessas”; uma realidade que se constrói em linhas de armação contra si mesmo, com exércitos e manobras sempre desastrosas.
A aceitação da culpa e, em seguida, a sua dissolução, seja através da compreensão, ou mesmo perdão de alguém, estabelece distintos padrões dentro de uma essência extremista que acredita que a guerra, a desavença, é o único caminho. Quantas pessoas não se sentem aliviadas depois que se libertam das culpas, que se vêm livres da necessidade da justificativa? A vida representa uma constante ascensão e queda, onde os protagonistas podem se aprisionar com algemas feitas de imaginação, ou abrir a porta da agonia simplesmente por aprender a olhar para si mesmo e perceber que somos humanos, fragmentos de um todo que necessitam errar, acertar, para sair da estagnação.
O culpado que não assume está sempre assustado com o que pensarão dele; se a sua mentira será suficiente para sustentar a sua justificativa... E quando é percebido pelos demais, finge que não lhe importa; sacode os ombros... Revelando que a idéia de vencer esmagando o adversário nada mais é que uma “torpe” relação com a vida. Esta (a vida) deve ocorrer em padrões maiores e melhores. “Estou firmemente convencido que só se perde a liberdade por culpa da própria fraqueza.” – disse Mahatma Gandhi.
Todos estes anos convivendo com pessoas de todos os tipos e estirpes, demonstrou-me que caráter não é cosa de rico; muito ao contrário: percebe-se muito mais nas pessoas simples o uso das razões e virtudes. Quiçá, porque em decorrência do poder, do dinheiro, o “jeitinho” se torna mais acessível. Por muitos anos me perguntei “o que seria a culpa?”. Distinguimos à mercê de nossas idiossincrasias um tipo de verdade que apresenta em sua distinção outra realidade, mais profunda, e ainda mais presente; muito mais real que a outra em que tanto se insiste.
Mesmo assim, a culpa pode ser uma oportunidade se observada com critério e sensatez. Ela existe em todas as classes, religiões, sexo, cores, etnias... A sua observação é que se difere. Existe apenas um limite entre você e o aproveitamento, em forma de aprendizado, em relação à culpa: debilidade e hesitação! É em você que crescem as ervas boas e daninhas que produzem os efeitos reais e abstratos, enganadores, ilusórios, que arrastam nossos pensamentos para a falsa sensação de que, sendo o outro culpado, estaremos livres. “A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.” – disse Sêneca.
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