quinta-feira, 9 de setembro de 2010

 

Notícias            


Shidoshi em uma conversa franca com alunos da UCG...

Depois do grande sucesso da II mostra de Koryu realizada no tribunal do Júri da universidade Católica de Goiás, a Sociedade Brasileira de Bugei recebeu neste fim de semana alunos dos cursos de Relações internacionais e Direito que entrevistaram o Shidoshi Jordan Augusto em uma conversa franca e objetiva, viajando pela sociologia, psicologia, educação e uma série de assuntos que permeiam o dia-a-dia do presidente da SBB.





UCG – Ficamos encantados com a destreza e objetividade da escola nesta apresentação. O que faz o Bugei diferente das demais artes marciais e como se dá este aspecto sócio-pedagógico no interior das escolas?

Bem... Nada faz o Bugei diferente das demais artes... Nem tão pouco de qualquer outra prática qualquer. Procuramos de uma forma séria e direta objetivarmos as características clássicas do Koryu como uma manutenção da não descaracterização destas formas. Entendo bem o que você está dizendo. É difícil ensinar conceitos que hoje já se encontram obsoletos, mas é simples quando você cria uma atmosfera de entendimento dentro destas proporções. O termo “educação”, ou seja, a palavra que usamos para fazer referência ao “ato educativo”, nada mais designa do que a prática social que identificamos como uma situação temporal e espacial determinada na qual ocorre a relação ensino-aprendizagem, formal ou informal. A relação ensino-aprendizagem é guiada, sempre, por alguma teoria, mas nem sempre tal teoria pode ser explicitada em todo o seu conjunto e detalhes pelos que participam de tal relação – o professor e o estudante, o educador e o educando – da mesma forma que poderia fazer um terceiro elemento, o observador, então munido de uma ou mais teorias a respeito das teorias educacionais. A educação, uma vez que é a prática social da relação ensino-aprendizagem no tempo e no espaço, acaba em um ato e nunca mais se repete. Nem mesmo os mesmos participantes podem repeti-la. Nem podem gravá-la. Nem na memória nem por meio de máquinas. É um fenômeno intersubjetivo de comunicação que se encerra em seu desdobrar. No caso, se falamos de um encontro entre o professor e o estudante, falamos de um fenômeno educacional – que é único. Quando ocorrer outro encontro do mesmo tipo, ele nunca será o mesmo e, enfim, só superficialmente será similar ao anterior.

Obviamente que para nós que acreditamos em uma educação através do Koryu e seus conceitos, é interpretada e aplicada como meio de aperfeiçoamento do comportamento humano, nos domínios físico e cognitivo, de forma a potenciar a sua capacidade de assimilação do conhecimento. Inscrita num modelo educacional racional-instrumental, esta educação serve fundamentalmente para melhorar os processos de aprendizagem cultural e socializar os indivíduos e grupos que vivem nas instituições escolares.

Como conjunto de técnicas e métodos de ação e intervenção sobre o comportamento humano, revela-se, cada vez mais, uma disciplina com um objeto científico e um objeto de observação autônoma e específica. Esta evolução leva a que os educadores e especialistas afins transformem a pedagogia num objeto de compra e venda, com conceitos e metodologias próprias. Embora mantenha laços de indissolubilidade com o ser humano e a sociedade, tende a funcionar como um mero instrumento de adaptação racional dos seres humanos aos desígnios das instituições de educação.


UCG – Fomos informados que muitas modificações ocorreram na instituição de três anos para cá. Hoje podemos observar uma SBB mais edificada e direcionada em determinados aspectos que correspondem aos interesses do Bugei em nosso país. Epistemologicamente, qual a correspondências desta forma de direcionamento professor-aluno com outros caminhos marciais no Brasil?

Como você disse, de acordo com um raciocínio epistemológico, estamos, sem dúvida, em presença de um fenômeno complexo, cujos contornos científicos e metodológicos, por vezes, é difícil determinar. Em primeiro lugar, porque temos dificuldade em discernir com exatidão as fronteiras e autonomia específica do objeto científico e do objeto de observação desta forma de educação. Em segundo lugar, porque enquanto conjunto de técnicas e métodos aplicados ao comportamento humano, é difícil circunscrever a sua função exclusivamente no indivíduo, prescindindo de a relacionar com toda a envolvência cultural, política, social e econômica. Desse modo, não podemos restringir a análise à unidade focal professor-aluno, sem analisarmos a instituição escolar no seu todo. Mas, ao fazê-lo, somos constrangidos a perceber a instituição escolar como um sistema aberto e, logicamente, como uma realidade interdependente e em interação com a sociedade global. Em terceiro lugar, essas relações entre a instituição escolar e a sociedade global obrigam-nos a pensar e analisar a racionalidade que está subjacente a esta educação antiga do Koryu vigente. Digo, pois, obviamente que a educação do Koryu, tal como o aprendizado de suas técnicas, é progressiva e reservada. Assim, tendo presente os conteúdos e as formas da assunção estruturante que releva do instituinte e do instituído. Finalmente, contemporaneamente, persiste uma grande dificuldade em descortinar o sentido e a lógica de uma arte tradicional que se ideologiza como espontânea, criativa e livre, quando, na maioria dos casos, diante de uma sociedade atual, ela não é mais do que um fenômeno de castração do ser humano ao serviço da racionalidade instrumental do conhecimento antigo da polidez e honradez.


UCG – Alguns professores e doutores da UCG que tiveram a chance de conviver com o Sr. nas aulas de filosofia e estratégia abordam uma visão rica e concomitante com a racionalidade adjacente das universidades recheada de uma didática arrojada. Qual seria o grande segredo para a SBB hoje obter tamanho sucesso que, pelo que pudemos verificar, tudo indica que a National Geografic realizará um projeto de um documentário a respeito do Bugei no Brasil e a SBB é uma das consultadas. O que o Sr. nos diz a respeito.

O termo “didática” designa um saber especial. Muitos dizem que é um saber técnico, porque vem de uma área onde se acumulam os saberes que nos dizem como devemos usar da chamada “razão instrumental” para melhor contribuirmos com a relação ensino-aprendizagem. A razão técnica ou instrumental é aquela que faz a melhor adequação entre os meios e os fins escolhidos. A didática é uma expressão pedagógica da razão instrumental. Sua utilidade é imensa, pois sem ela nossos meios escolhidos poderiam, simplesmente, não serem os melhores disponíveis para o que se ensina e se aprende e, então, estaríamos fazendo da educação não a melhor educação possível.

Veja bem... A filosofia da educação não está vinculada somente à razão instrumental ou à razão comunicativa liberal, mas tem como sua produtora a razão enquanto elemento que escolhe fins e, portanto, que valora. Ela pode falar em "valor de verdade" e "valor moral", pode separá-los em campos que se excluem ou não, mas, sempre, vai falar em valor e fins. A razão, aqui, é a razão que diz quais são os objetivos da educação e, então, que explicita se as normas da pedagogia podem ser mantidas ou não, e que normas são essas. Tais normais devem parecer legitimas, caso contrário, pelo menos em princípio, elas não terão seguidores. O que as torna legítimas? Um discurso – o discurso filosófico, a filosofia da educação ou fundacionista ou justificadora. Se a legitimação da pedagogia se dá através de uma metafísica que encontra um fundamento último para que a educação se processe de uma maneira e não de outra, dizemos que a filosofia da educação fundamenta a pedagogia e, conseqüentemente, a educação. Se a legitimação da pedagogia se dá através de um conjunto de argumentos que tentam justificá-la, sem requisitar um ponto arquimediano metafísico, então dizemos que a filosofia da educação justifica a pedagogia e, conseqüentemente, a educação.

Quanto à National Geografic, acredito que possa ser uma boa oportunidade. Mas, não muda em nada nosso cotidiano. Até porque é uma oportunidade que foi gerada por meio de amizades... Não foi uma coisa descoberta... Um Bum!!! Acredito ser apenas uma oportunidade de fazermos algo diferente.


UCG – O site de vocês hoje é muito visitado, o que tem despertado em muitos profissionais de ponta, um apoio a idéias e compreensões a respeito da cultura japonesa. Nós particularmente observamos em vossos artigos uma variedade de assuntos que é muito bem embasada. Gostaríamos de saber qual a visão do Sr. a respeito das práticas de Koryu ensinadas em nosso país? Como isso se reflete em um paralelo sociológico?

Antes de me dedicar somente a escola, trabalhei em outras áreas que me deram uma formação diferente da forma como vejo o mundo hoje. Vejo que nosso país é abençoado e que precisa de todos os professores sérios que puderem contribuir, não importando a área. Veja você, em nosso Brasil, temos professores maravilhosos de Aikido, kendo, Judô, Karate, capoeira, Iaido e etc. Que estão aí... Realizando seus trabalhos, contribuindo para os sonhos de pessoas, educando, e é isso o que importa. É difícil em um mundo tão carente pensar que somente uma pessoa ou grupo é especial. Que bobagem! Converso diariamente com o Japão e hoje posso dizer que até os japoneses estão mudando. O mundo está mudando. Me considero uma pessoa tradicional, mas os conhecimentos não podem ficar apenas em livros ou em palavras que se perdem ao vento. Executá-los é uma maneira diferente de se fazer Koryu...

Atualmente a sociedade mundial enfrenta o problema do capitalismo consumista. Desta forma, é natural que as competições se tornem desleais e absurdas. Mas, os mestres que acreditam em uma educação verdadeira, em um caminho reto e sem atalhos, tenho certeza que não se enquadram nesta forma de pensamento. Existe um abismo entre um pensamento e outro. Corresponde ao profissional que leva o pão para casa depois de um dia de trabalho e a geração coca-cola – emoção pra valer!

Mas, quanto ao aspecto sociológico que você me perguntou, acredito que a mesma água que necessito beber pode não ser a que você precise. Assim, veja bem, segundo estudos da ONU, os homens de maior expressão econômica e que controlam cerca de 50 % da renda mundial podem sentar juntos em uma conferência, eles não passam de quinhentos. Os outros 50% da renda mundial estão sustentado economias subdesenvolvidas, atrasadas e exploradas. A experiência humana, confrontada com a eternidade em que se movimentará a consciência, é simples sonho ou pesadelo de alguns minutos. Os que espalham pedras em derredor dos pés alheios serão surpreendidos, mais tarde, pelo endurecimento e paralisia do próprio coração. Guardas, porventura, suficiente noção da responsabilidade que assumes? Como te disse, temos escolas maravilhosas e professores que acredito estarem entre os topes de linha em nível de mundo. O que precisamos talvez, seja um incentivo maior à ética dos que estão chegando agora e acreditam que a intriga seja o melhor caminho. Os atos de cada homem e de cada mulher arquitetam-lhes os destinos. Somos responsáveis por todas as deliberações que perfilharmos ante os programas do Eterno e não poderíamos interferir em teu livre arbítrio,... O livre arbítrio, na esfera da consciência, permanece vivo e intocado, porquanto, em quaisquer posições, o ser humano, seja ele aluno ou professor, é independente para escolher os próprios rumos. Por isso, acredito que o mestre deva deixar sempre a porta da gaiola aberta... Se um aluno conhece outra instituição e se apaixona, significa que é daquilo que ele precisa. Se retornar significa que aqui é o seu lugar. Não temos como impedir o ciclo natural das coisas.


UCG – Dirigir uma escola hoje tão grande e bem sucedia requer habilidade e competência. Qual a receita para dar certo diante de um mundo cheio de adversidades e mentiras?

Primeiramente acredito que as mentiras só se tornam verdade do momento em que você acredita nelas! Quanto receita, é simples: Leve uma rosa de um jardim e ela murchará... Leve uma pétala da rosa deste jardim e ela durará por toda eternidade.

Explicarei melhor:

Enquanto o Ser está na inconsciência, enquanto está mergulhado na ilusão da multiplicidade, ele não consegue ver a verdade da afirmativa: Não existe livre-arbítrio. Livre-arbítrio é a condição na qual o Ser tem o poder de escolha, o poder da decisão, de qual atitude tomar e de como agir em todas as situações. Com a visão espiritual limitada pela cegueira da ignorância, o Ser acredita que é ele que decide, que faz, que age.

Acredito que não tenho alunos e sim companheiros em uma mesma batalha.

A vida é movida em ciclos, e estes, correspondem exatamente à sua vivencia naquele momento. Então você não precisa se preocupar se alguém está lhe querendo mal ou bem... Se alguém está falando mal de você... Logo as coisas se encaixam e se esclarecem! É uma questão de maturidade. E esta, como disse em outros artigos, é a capacidade de suportar e superar as incertezas.

O fato de ter chegado em mim uma informação sobre este ou aquele professor, não muda em nada, pois sabemos o mundo em que vivemos e até que ponto chega a criatividade destas pessoas.

Acredito que nosso caminho seja sensibilizar e capacitar os participantes para que atuem como verdadeiros líderes, desenvolvendo percepções sobre as diferenças entre poder hierárquico e poder pessoal e conduzindo seus liderados através de estilos de liderança apropriados na busca de objetivos comuns, com comprometimento e qualidade de vida.

Segundo as leis da física, toda massa possui armazenada em si uma enorme quantidade de energia. Tal como na natureza, as organizações possuem em si uma grande quantidade de energia armazenada, energia empresarial, que está apenas à espera de ser despertada. A energia empresarial é despertada quando as pessoas envolvidas na organização agem segundo valores éticos, correm riscos e vão ao encontro de desafios, dá-lhes vitalidade e vontade de vencer, faz com que trabalhem com as mãos, a cabeça e o coração. Surge da energia que cada membro da organização tem em si. Neste processo de geração de energia, toda a gente, a todos os níveis, tem que estar envolvida. É verdade que é mais fácil que a energia seja gerada se o ímpeto inicial vier do topo da organização, no entanto nada impede que se gere no meio da organização e depois se origine uma reação em cadeia.

No mercado rápido de hoje em dia, as organizações precisam cada vez mais de alguém com capacidade para impulsionar os outros, com capacidade de liderança: de um líder. A capacidade de liderança não é algo místico, é um conjunto de capacidades que pode e deve ser aprendido.

Um líder liberta a energia empresarial, transmite-a à sua equipe e faz sobressair a energia desta. Conhece-se no dia a dia e confirma as suas potencialidades sobre pressão. Quando atua debaixo de fogo, um verdadeiro líder continua a guiar-se pelos valores em que acredita e que o ajudaram (e ajudam) a libertar a energia na sua organização.

“Há muito poucos homens grandes que tenham vindo de um ambiente fácil.” (Herman Keyserling)



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