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O Shibu-Cho Thiago Finotti
Moraes, de Uberlândia, que no último final de semana promoveu um Seminário de
Kaze no Ryu Bugei na filial mineira da SBB, respondeu-nos por e-mail à seguinte
entrevista.
Pergunta - Como foi promover esse
seminário de Koryu em Uberlândia?
Thiago Moraes - Foi fantástico
sob todos os aspectos. Dentro da análise técnica, todos os participantes
ficaram encantados com a perfeição das aplicações do ShiDoShi. Puderam
presenciar um BuGei de alto nível, e tiveram uma idéia melhor sobre o princípio
de cada movimento e sua utilização em casos mais reais. Os alunos se sentiram
honrados com a presença do ShiDoShi, que logo tornou o ambiente descontraído e
agradável.
Penso que poder estar junto do
ShiDoShi é uma benção. Mesmo em uma época difícil, os esforços do ShiDoShi
por aqueles que estão com ele são sempre visíveis e nos servem de exemplos.
Promover o seminário também foi importante no sentido de podermos estar junto
da pessoa do ShiDoShi. A forma como ele lida com pequenas coisas do dia-a-dia, a
maneira de pensar e de agir e a profundidade das explicações são essenciais
na busca da essência da arte. E penso que ter acesso a isso é uma honra.
Ademais, o carinho e o afeto também justificam as dificuldades.
P - Sabemos do seu bom
relacionamento com Ishino Hirotoshi Shihan, mas, incrivelmente, você conseguiu
se aproximar com facilidade do Shidoshi. Como se deu isto?
TM - Ishino Shihan é realmente
um ser humano muito bonito. Sempre acordante com o sentimento de GiRi, não
conseguimos esperar algo de ruim vindo da pessoa dele. Mesmo sendo uma referência
e autoridade mundial em NiHonGo (Língua Japonesa), é humilde em nossas
conversas.
Certamente um fator que ajudou em
nossa aproximação do ShiDoShi foi o sentimento de verdade. Nenhum de nós
gosta de mentiras tampouco de política. ShiDoShi sempre diz que política é
coisa para fracos, pois se você não fosse fraco não precisaria de política.
O ShiDoShi passou por fases difíceis e sua história é recheada de pessoas que
tentaram derrubá-lo de diversas formas. Nós também viemos de lugares onde a
política faz a diferença e sentimos o efeito de ser um GaiJin. Assim, a intenção
sincera naturalmente torna o Caminho mais comprometedor.
P - Pelo que verificamos com
alunos, o evento foi sem dúvida extremamente interessante dentro e fora do Dojô,
haja vista a completa harmonia entre o palestrante e os participantes. Na sua
opinião, por quê?
TM - Uma vez que os participantes
estavam lá para vivenciar instantes com nosso ShiDoShi com mente aberta e
considerando a incrível simpatia do ShiDoShi, logicamente as coisas não
poderiam se dar de outra forma. Dentro do que tivemos a oportunidade de estudar,
houve sinceridade na etiqueta e isso estreita o relacionamento.
Em verdade, o respeito não se dá
pelo fato de estarmos no DoJo, mas pela pessoa do ShiDoShi e sua codificação
acontece pela boa conduta segundo ReiGi to SaHo (Etiqueta e Boas Maneiras). O
evento foi tranqüilo porque ninguém tinha intenção de contradizer ou
desafiar ninguém e tudo foi bastante produtivo.
P - Como as técnicas de Koppo e
Aikijujutsu foram expostas?
TM - Os movimentos de Koppo e
AiKiJuJutsu foram ensinados em três níveis e todos eles com a proposta de se
efetuar um laboratório, ou seja, é importante que realmente se entenda o que
está sendo aplicado experimentando diversas formas, até que se chegue ao que
foi proposto com naturalidade. Em cada nível, os detalhes e a complexidade técnica
aumentava, e foram abordados pontos importantíssimos, tais como as angulações
e respirações diferentes e suas respectivas reverberações no Uke. Ainda na
área técnica, o ShiDoShi demonstrou princípios que muitas vezes se tornam difíceis
de serem executados, como a análise do Ki segundo a Teoria dos Elementos e o
princípio da reverberação do Ki em torno do eixo central.
Após o Seminário, foi aberto um
espaço para discutirmos alguns outros pontos interessantes e solucionarmos
algumas dúvidas. Somos gratos pela oportunidade, pois uma aula como essa no Japão,
por exemplo, acontece muito raramente e, sem dúvida, custa caríssimo.
P - A que se dá esta paixão que
as pessoas têm atribuído ao Bugei?
TM - Penso que essa devoção pelo BuGei surge quando se
vislumbra sua grandeza e profundidade. Freqüentemente se diz que no BuGei a
quantidade de conhecimento que se adquire é proporcional à busca.
O tipo de vida que levamos hoje
nos leva a envolvermos em situações nas quais vivenciamos uma falta de valores
e, diante disso, perdemos parcialmente o referencial da conduta. Para piorar, as
evoluções no âmbito tecnológico são de ordem exponencial e com isso as
mudanças de cenário e contexto mudam drasticamente o nosso dia-a-dia. Sob esse
ponto de vista, o BuGei é uma das poucas artes que se manteve arraigado à
tradição e esse é um grande propósito do ShiDoShi.
Se tratarmos de especificamente
de artes japonesas, o BuGei conseguiu manter seus valores e sua tradição mesmo
após a revolução MeiJi, na qual houve uma proibição de práticas militares
e o "Jutsu" se tornou "Do". Com essa mudança, a proposta da
arte também foi alterada e conseqüentemente o antigo se perdeu. Ao percebermos
a seriedade com que o BuGei lida com o comportamento, com a honra, com o senso
de GiRi, com a filosofia e psicologia, encontramos aí um referencial.
P - E de agora para frente, como
será seu caminho no Bugei?
TM - Bem, talvez seja um pouco difícil responder como será o
futuro, mesmo que o seu. Ainda há algum tempo, o ShiDoShi me alertava quanto à
preocupação com o presente. Dedicar todo o presente ao futuro pode ser
insensato. Quando o samurai vai para a guerra, não sabe se vai vencer ou
morrer. Mas isso não é importante. Penso que isso é uma das facetas do antigo
princípio nas artes marciais "Ichi Go Ichi E", cuja
tradução é inexata. "Ichi" significa "um";
"Go" se traduz por "período", "tempo" e
"E" se traduz por "encontro". Entretanto, para os antigos, a
vida na Terra era passageira e, seguindo essa linha de pensamento, "Ichi Go
Ichi E" poderia ser traduzido aproximadamente por "uma vida, um
encontro", ou seja, o entendimento de que num combate, por exemplo, toda a
sua vida está no instante presente. Não existe outra chance. É agora ou já
foi. Mas a única forma de se conseguir esse estado é se concentrar no presente
e a melhor forma de se concentrar no presente é esquecer todo o resto,
incluindo o futuro e o próprio presente.
Desta forma, penso em servir ao
ShiDoShi e dedicar-me.
P - Sabemos que seu caminho nas
artes marciais também se iniciou bem cedo como o do Shidoshi. Com esta experiência
adquirida, como o Sr. enxerga as técnicas de Koryu aprendidas até hoje?
TM - Na verdade, acho que comecei
tarde. Por um lado, talvez fosse melhor se tivesse começado mais cedo, como o
ShiDoShi, mas por outro nos é ensinado que as coisas sempre são como têm que
ser. Realmente, se tivesse começado mais cedo, talvez não tivesse encontrado o
ShiDoShi. Mas de uma coisa tenho certeza: não tenho a honra de comparar a minha
história com a do ShiDoShi, nem de longe.
Quanto
às técnicas de KoRyu estudadas até hoje, vejo uma grande fidelidade ao fator
histórico, isto é, reproduz-se com exatidão situações comuns de guerra de
antigamente, que também era parte do treinamento. Mesmo que algo no KoRyu pareça
errado considerando a proposta do "Jutsu", a forma de aplicação é
mantida a mesma mesmo que seja apenas por conservação da tradição.
Posteriormente podemos pensar em mudar a referência do KoRyu dentro do UnDo, ou
seja, o exercício do movimento. O KoRyu parece ser a base para o aprendizado do
resto, pois abre a mente para que se possa entender e raciocinar dentro da idéia
de cada arte (por exemplo, no BuGei: AikiJuJutsu, BuJutsu, Kumi Uchi, JuJutsu,
etc.). O empenho no aprendizado do KoRyu revela o quão inteligentemente ele foi
desenvolvido.
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