terça-feira, 6 de janeiro de 2009

 

SBB Entrevista Thiago Finotti             


 

O Shibu-Cho Thiago Finotti Moraes, de Uberlândia, que no último final de semana promoveu um Seminário de Kaze no Ryu Bugei na filial mineira da SBB, respondeu-nos por e-mail à seguinte entrevista.

 

Pergunta - Como foi promover esse seminário de Koryu em Uberlândia?

Thiago Moraes - Foi fantástico sob todos os aspectos. Dentro da análise técnica, todos os participantes ficaram encantados com a perfeição das aplicações do ShiDoShi. Puderam presenciar um BuGei de alto nível, e tiveram uma idéia melhor sobre o princípio de cada movimento e sua utilização em casos mais reais. Os alunos se sentiram honrados com a presença do ShiDoShi, que logo tornou o ambiente descontraído e agradável.

Penso que poder estar junto do ShiDoShi é uma benção. Mesmo em uma época difícil, os esforços do ShiDoShi por aqueles que estão com ele são sempre visíveis e nos servem de exemplos. Promover o seminário também foi importante no sentido de podermos estar junto da pessoa do ShiDoShi. A forma como ele lida com pequenas coisas do dia-a-dia, a maneira de pensar e de agir e a profundidade das explicações são essenciais na busca da essência da arte. E penso que ter acesso a isso é uma honra. Ademais, o carinho e o afeto também justificam as dificuldades.

 

P - Sabemos do seu bom relacionamento com Ishino Hirotoshi Shihan, mas, incrivelmente, você conseguiu se aproximar com facilidade do Shidoshi. Como se deu isto?

TM - Ishino Shihan é realmente um ser humano muito bonito. Sempre acordante com o sentimento de GiRi, não conseguimos esperar algo de ruim vindo da pessoa dele. Mesmo sendo uma referência e autoridade mundial em NiHonGo (Língua Japonesa), é humilde em nossas conversas.

Certamente um fator que ajudou em nossa aproximação do ShiDoShi foi o sentimento de verdade. Nenhum de nós gosta de mentiras tampouco de política. ShiDoShi sempre diz que política é coisa para fracos, pois se você não fosse fraco não precisaria de política. O ShiDoShi passou por fases difíceis e sua história é recheada de pessoas que tentaram derrubá-lo de diversas formas. Nós também viemos de lugares onde a política faz a diferença e sentimos o efeito de ser um GaiJin. Assim, a intenção sincera naturalmente torna o Caminho mais comprometedor.

 

P - Pelo que verificamos com alunos, o evento foi sem dúvida extremamente interessante dentro e fora do Dojô, haja vista a completa harmonia entre o palestrante e os participantes. Na sua opinião, por quê?

TM - Uma vez que os participantes estavam lá para vivenciar instantes com nosso ShiDoShi com mente aberta e considerando a incrível simpatia do ShiDoShi, logicamente as coisas não poderiam se dar de outra forma. Dentro do que tivemos a oportunidade de estudar, houve sinceridade na etiqueta e isso estreita o relacionamento.

Em verdade, o respeito não se dá pelo fato de estarmos no DoJo, mas pela pessoa do ShiDoShi e sua codificação acontece pela boa conduta segundo ReiGi to SaHo (Etiqueta e Boas Maneiras). O evento foi tranqüilo porque ninguém tinha intenção de contradizer ou desafiar ninguém e tudo foi bastante produtivo.

 

P - Como as técnicas de Koppo e Aikijujutsu foram expostas?

TM - Os movimentos de Koppo e AiKiJuJutsu foram ensinados em três níveis e todos eles com a proposta de se efetuar um laboratório, ou seja, é importante que realmente se entenda o que está sendo aplicado experimentando diversas formas, até que se chegue ao que foi proposto com naturalidade. Em cada nível, os detalhes e a complexidade técnica aumentava, e foram abordados pontos importantíssimos, tais como as angulações e respirações diferentes e suas respectivas reverberações no Uke. Ainda na área técnica, o ShiDoShi demonstrou princípios que muitas vezes se tornam difíceis de serem executados, como a análise do Ki segundo a Teoria dos Elementos e o princípio da reverberação do Ki em torno do eixo central.

Após o Seminário, foi aberto um espaço para discutirmos alguns outros pontos interessantes e solucionarmos algumas dúvidas. Somos gratos pela oportunidade, pois uma aula como essa no Japão, por exemplo, acontece muito raramente e, sem dúvida, custa caríssimo.

 

P - A que se dá esta paixão que as pessoas têm atribuído ao Bugei?

TM -   Penso que essa devoção pelo BuGei surge quando se vislumbra sua grandeza e profundidade. Freqüentemente se diz que no BuGei a quantidade de conhecimento que se adquire é proporcional à busca.

O tipo de vida que levamos hoje nos leva a envolvermos em situações nas quais vivenciamos uma falta de valores e, diante disso, perdemos parcialmente o referencial da conduta. Para piorar, as evoluções no âmbito tecnológico são de ordem exponencial e com isso as mudanças de cenário e contexto mudam drasticamente o nosso dia-a-dia. Sob esse ponto de vista, o BuGei é uma das poucas artes que se manteve arraigado à tradição e esse é um grande propósito do ShiDoShi.

Se tratarmos de especificamente de artes japonesas, o BuGei conseguiu manter seus valores e sua tradição mesmo após a revolução MeiJi, na qual houve uma proibição de práticas militares e o "Jutsu" se tornou "Do". Com essa mudança, a proposta da arte também foi alterada e conseqüentemente o antigo se perdeu. Ao percebermos a seriedade com que o BuGei lida com o comportamento, com a honra, com o senso de GiRi, com a filosofia e psicologia, encontramos aí um referencial.

 

P - E de agora para frente, como será seu caminho no Bugei?

TM -   Bem, talvez seja um pouco difícil responder como será o futuro, mesmo que o seu. Ainda há algum tempo, o ShiDoShi me alertava quanto à preocupação com o presente. Dedicar todo o presente ao futuro pode ser insensato. Quando o samurai vai para a guerra, não sabe se vai vencer ou morrer. Mas isso não é importante. Penso que isso é uma das facetas do antigo princípio nas artes marciais "Ichi Go Ichi E", cuja  tradução é inexata. "Ichi" significa "um"; "Go" se traduz por "período", "tempo" e "E" se traduz por "encontro". Entretanto, para os antigos, a vida na Terra era passageira e, seguindo essa linha de pensamento, "Ichi Go Ichi E" poderia ser traduzido aproximadamente por "uma vida, um encontro", ou seja, o entendimento de que num combate, por exemplo, toda a sua vida está no instante presente. Não existe outra chance. É agora ou já foi. Mas a única forma de se conseguir esse estado é se concentrar no presente e a melhor forma de se concentrar no presente é esquecer todo o resto, incluindo o futuro e o próprio presente.

Desta forma, penso em servir ao ShiDoShi e dedicar-me.

 

P - Sabemos que seu caminho nas artes marciais também se iniciou bem cedo como o do Shidoshi. Com esta experiência adquirida, como o Sr. enxerga as técnicas de Koryu aprendidas até hoje?

TM - Na verdade, acho que comecei tarde. Por um lado, talvez fosse melhor se tivesse começado mais cedo, como o ShiDoShi, mas por outro nos é ensinado que as coisas sempre são como têm que ser. Realmente, se tivesse começado mais cedo, talvez não tivesse encontrado o ShiDoShi. Mas de uma coisa tenho certeza: não tenho a honra de comparar a minha história com a do ShiDoShi, nem de longe.

Quanto às técnicas de KoRyu estudadas até hoje, vejo uma grande fidelidade ao fator histórico, isto é, reproduz-se com exatidão situações comuns de guerra de antigamente, que também era parte do treinamento. Mesmo que algo no KoRyu pareça errado considerando a proposta do "Jutsu", a forma de aplicação é mantida a mesma mesmo que seja apenas por conservação da tradição. Posteriormente podemos pensar em mudar a referência do KoRyu dentro do UnDo, ou seja, o exercício do movimento. O KoRyu parece ser a base para o aprendizado do resto, pois abre a mente para que se possa entender e raciocinar dentro da idéia de cada arte (por exemplo, no BuGei: AikiJuJutsu, BuJutsu, Kumi Uchi, JuJutsu, etc.). O empenho no aprendizado do KoRyu revela o quão inteligentemente ele foi desenvolvido.

 

 


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