terça-feira, 6 de janeiro de 2009

 

alunos da UCG entrevistam Shidoshi Jordan            


 

   

Vivendo uma importante e positiva fase profissional, Shidoshi Jordan rejeitou importante proposta de se mudar para o exterior e causou polêmica ao responder a uma entrevista que será publicada em um informativo de uma pequena escola de empresários nos EUA. O Shidoshi hoje goza de prestígio no exterior devido ao importante trabalho que vem sendo desempenhada na reorganização de pesquisas com conceitos de Koryu e cultura.

Para o próximo ano, um livro será publicado com os principais depoimentos de importantes nomes do meio marcial que admiram e aprendem com o Shidoshi, que recentemente foi citado em um vídeo-documentário sobre o Kaze no Ryu que está sendo produzido no Brasil como um dos maiores conhecedores da cultura Bugei, ressaltado pela perfeição técnica e pelo número de artigos e livros publicados.

Alunos da Universidade Católica de Goiás passaram alguns momentos ao lado do Shidoshi procurando saber mais a respeito, o que resultou em uma gostosa entrevista. Confira!
 

Alunos-UCG – De acordo com os rumores que escutamos, muitas reuniões estão decidindo o destino da SBB. Até onde podemos afirmar que em meio a tantas propostas, este é o momento de expandir profissionalmente para outros estados e países?


Considero tudo isto especulação. Os planos são outros e não é o momento de pensar nisto. Se considerarmos o atual momento, ele é apenas uma conseqüência de um trabalho já iniciado. Não tem nada a ver com o que se fala por aí. É um momento de uma reavaliação de tudo o que passou... Os ganhos, as perdas, e uma reestruturação para algo melhor. É complicado pensar da maneira que as pessoas querem. Mal sobem em um tijolo e já querem fazer discurso. O caminho não é esse! É um momento de aperfeiçoamento... De melhoramento... Crescimento pessoal. Não tem nada a ver com estas bobagens. O ser humano cada dia que passa está mais difícil, e uma boa técnica demora tempo para ser construída. O mundo todo se tornou um só comércio. O lado empresarial é importante, mas existem conceitos que não podem cair no ostracismo.

O mundo hoje se resume em um conceito: vaidade! E este não pode ser o ponto de partida. É exatamente o contrário! O bom caráter, a boa técnica, o bom professor ou mestre deve abster desta idéia. Entendo que as pessoas que ensino querem ver o Bugei florescer e crescer, mas ainda não é o momento. Existe muita coisa antes disso! O que penso para mim não envolve este tipo de política que me apresentaram. Prefiro me exercitar de outra forma.



Alunos-UCG – Mas até onde isto não seria importante para o Bugei?


O que o Bugei hoje precisa é o mesmo que qualquer outro caminho precisa, de verdade, objetivo e direcionamento. O mundo está cheio de pessoas cheias de energia, mas perdidas. Tal como Weber em sua teoria sociológica afirma, precisamos exercitar uma “Ciência da Realidade”, voltada para a compreensão da significação cultural atual dos fenômenos e para o entendimento de sua origem histórica.

Entendo que neste aspecto que você me citou, a realidade é entendida como algo infinito, que pode ser apreendido a partir de inúmeros ângulos, mas jamais na sua totalidade ou essência. O conhecimento seria sempre fruto de um recorte particular, da seleção de um conjunto específico de problemas e de fenômenos. Essa seleção ou recorte particular seria, necessariamente, feita a partir das referências pessoais dos sujeitos cognoscentes. Podemos como Weber, negar assim, a possibilidade de um conhecimento absoluto, livre de quaisquer pressupostos, capaz de definir de modo completamente neutro qual a verdade absoluta das coisas.

Penso que só seria importante para o Bugei se este conseguisse se projetar com seriedade em todos os lugares a que se propõe, e posso lhe dizer com propriedade que as coisas não são tão simples.
 

 

Alunos-UCG – O que complica este processo? Seria um fator externo?


Dizemos que são externos porque são fatos coletivos, como a religião ou o sistema econômico, por exemplo, independentes dos indivíduos, que já os encontram prontos quando nascem e que morrerão antes que esses deixem de existir. Ou seja, existem fora dos indivíduos e são internalizados através do processo de socialização.

Essas maneiras de agir e pensar são, além de externas, capazes, pelo seu poder coercitivo, de obrigar um indivíduo a adotar um comportamento qualquer. A coerção pode se manifestar direta ou indiretamente.

É direta, por exemplo, quando o professor estabelece seus critérios de avaliação, aos quais o aluno é coagido a se adaptar para se sair bem na prova. Mas é indireta quando um empresário passa a utilizar computadores para administrar os seus negócios, pois ele faz isso pressionado pela concorrência, embora não exista nenhuma lei que o obrigue explicitamente.

A coerção pode também ser formal ou informal. É formal, como o próprio nome já diz, quando a obrigação e a punição pela transgressão estão estabelecidas formalmente. O Código Penal, por exemplo, apresenta um grande número coerções formais para diversos atos predefinidos.

É informal quando é exercida espontaneamente pelas pessoas no seu dia a dia. Quando, por exemplo, uma pessoa chama a atenção de outra por tentar “furar” uma fila.

Finalmente, a coerção pode estar oculta. A pessoa que cumpre de bom grado e com satisfação as suas obrigações sociais não sente o peso da coerção sobre o seu comportamento. Uma pessoa que gosta de sua profissão, por exemplo, geralmente cumpre seus deveres com prazer, sem a necessidade de imposições. Mas a coerção nunca deixa de existir. Está sempre à espreita.

Não acredito que isto agora seja bom para o Bugei.



Alunos-UCG – Mas como funciona essa relação de coerção?


Os regimes do Bugei como forma tradicional de Koryu são rígidos, daí o fato de serem analogamente mencionados como militarismo. Porém não funciona o fato de você simplesmente expor uma idéia e não dar condições dela ser seguida, ou seja, exemplos, direcionamentos, ensinamentos, que só são apreciados com uma pessoa que tenha muito tempo de prática que conseguiu adquiri-la para si e que aplique no dia-a-dia.

Não acredito que representantes que não tenham no mínimo de dez anos de experiências ao lado de um bom mestre tenha condições de transmitir uma cultura sem a interferência de vaidades e imposições. De uma forma geral, no caso do Bugei, pois não tenho conhecimento para falar de outras artes, os alunos que têm contato com esse tipo de cultura através de terceiros são sempre engolidos por esse tipo de coerção, pois são obrigados a se adaptarem a um sistema sem um entendimento gradativo, que proporcione uma absorção sadia. Seria o mesmo que um estrangeiro tentar entender o carnaval por uma enciclopédia, ou com alguém que na verdade uca desfilou... Jamais ele entenderá o porquê que pessoas sacrificam um ano de trabalho em troca de minutos na avenida. Eu acredito que a técnica ela é como um bonsai de qualidade, deve ser regada, aparada, com observação constante para um bom crescimento.
 

 

Alunos-UCG – As pessoas comentam de muita rigidez no aspecto da seriedade da SBB, sendo famosa por convidar muitos alunos a se retirar da instituição. Nesse mundo capitalista e num âmbito empresarial, isso não seria uma contradição?


É importante estabelecer que tipo de trabalho se está desenvolvendo.

É uma coisa pequena? Grande? Digo isso porque se for grande, você estará lidando com uma quantidade relativa de pessoas. Estas por sua vez podem ser analisadas dentro de um aspecto de você estar lidando com uma multidão ou com o “povo” propriamente dito. Analise você no caso de um esporte. Bem vamos lá... Considero que o conceito de “multidão”, por contrapor àquele, mais familiar, de “povo”, seja uma ferramenta decisiva para toda reflexão sobre a esfera pública contemporânea. É preciso ter presente que a alternativa entre “povo” e “multidão” esteve no centro das controvérsias práticas (fundação do Estado centralizado moderno, guerras religiosas, etc.) e teórico-filosóficas do Século XVII. O que você espera de uma arte tradicional em seus ensinamentos ao se lidar com um grande número de pessoas que não nasceram naquela cultura? Ensinamentos parciais ou integrais? E se parciais, como controlar o caráter humano? O Brasil hoje é um exemplo deste tipo de problema. Então para se fazer um trabalho grande é importante refletir que neste caso dos conceitos que abordei, esses dois conceitos em luta, forjados no fogo de agudos contrastes, jogaram um papel de enorme importância na definição das categorias sócio-políticas da modernidade. Agora para se fazer um trabalho sério e direcionado você tem que se decidir entre ser professor ou amigo. Na relação senpai-Kohai no que tange à instrução uma mistura entre os dois pode não ser salutar para a manutenção de um caminho.
 

Alunos-UCG – Crescer sem expandir... Mesmo com obstáculos? Como se dá isto?


Todos os dias nós nos defrontamos com obstáculos pessoais e profissionais que dificultam nosso trabalho. Mas, olhando por outro ângulo, são esses mesmos empecilhos que enriquecem nossas vidas, porque nos obrigam a que nos tornemos melhores para poder superá-los. Se não fosse assim, qualquer um teria sucesso. Foi Moliére, o teatrólogo francês, quem disse: 'Quanto maior o obstáculo, maior a glória ao superá-lo'. Mas é necessário um sistema para aprender a enfrentar essas dificuldades e sobrepujá-las.

Vocês do curso de administração, falam muito em desenvolvimento, mas O que é desenvolvimento? Segundo o dicionário, desenvolvimento é "Ação e efeito de desenvolver; crescimento. ...". Fazer crescer; aumentar. ...Identificar as próprias habilidades e aprimorá-las é um dos caminhos para o sucesso.

Conheço vários profissionais e executivos de grandes corporações que superam qualquer dificuldade, solucionam todos os problemas e conseguem o que querem; que se sentem motivados pelos desafios, não amedrontados. E também identifico com freqüência, pessoas que, por medo de desafios, consideram-se incapazes de pensar em caminhos diferentes, criar alternativas, ter idéias que inovem e gerem resultados. Devido a esses bloqueios, elas perdem grandes oportunidades – ou, o que é pior, não conseguem nem sobreviver.

O problema dessas pessoas é que elas ainda não descobriram que possuem um maravilhoso potencial a ser desabrochado: sua própria criatividade. Então, o que eu faço é demonstrar-lhes que qualquer um pode aprender a utilizar plenamente seu potencial criativo. Está ao alcance de todos o aprendizado de técnicas, maneiras e dicas que farão no Bugei a diferença entre o sucesso e o fracasso, entre uma vida com muito brilho e sucesso ou insípida e medíocre.

Crescimento não se dá somente no aspecto exterior da questão. Palavra que não pode faltar no vocabulário é qualidade. Ser bem-sucedido é saber privilegiá-la, mostrar eficiência e comprometimento com os objetivos direcionados ao ensino. Hoje não é hora de expandir. Mas de formar pessoas capacitadas para uma boa perpetuação da cultura. O caminho para o sucesso profissional pede, sobretudo, que o profissional tenha objetivos e metas definidas. E por falar em metas... Sucesso é também sinônimo de persistência. Se não formos persistentes, não chegaremos a lugar nenhum. Quero te dizer uma coisa: Quando você for uma bigorna, fique parado! Transformando-se num martelo bata com firmeza!
 

 


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