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O engenheiro Sérgio Moraes
revela, na seguinte entrevista, seus caminhos no Bugei.
1. Recentemente, temos visto
muito o Sr. em treinamento intensivo, chegando à 6 horas por dia durante a
semana e 9 horas nos finais de semana. O que o leva a fazer isso?
A grade curricular do Bugei é
muito extensa. Além disso estou tendo o privilégio de estar recebendo aulas
diretamente do Shidoshi Jordan Augusto, detentor de um conhecimento técnico e
filosófico inigualáveis.
É sabido que, devido às suas
muitas outras atividades profissionais, ele já não ministra mais aulas no
tatame, apenas para um grupo reduzido de alunos. Creio assim ser uma forma de,
no mínimo, agradecê-lo e honrá-lo, procurando ser o melhor eu que eu possa
ser, treinando com afinco e seriedade, como todos os outros.
Para isso o treino intensivo é
extremamente importante, de forma que os conceitos, estratégias e a tradição
do Bugei Ogawa, lindamente representado pelo Shidoshi Jordan Augusto, façam
parte de mim.
2. De onde tirou esta paixão
pelo Bugei?
Desde os 10 anos pratico alguma
forma de arte marcial: comecei com Judô, em São Paulo, em seguida Karatê em
Uberlândia. Interrompi por 3 anos para terminar minha graduação em engenharia
e retornei ao tatame para aprender Aikidô e Tai Chi Chuan. Sempre buscando um
ideal de arte marcial eficiente no plano físico e que polisse as minhas muitas
arestas espirituais.
Quando conheci o Bugei do
Shidoshi Jordan Augusto, me encantei. Creio ser esse o termo correto. Em termos
de arte marcial foi a mais completa que já tive o prazer de conhecer.
Além do que a espada japonesa
sempre me fascinou. Não só pela esgrima em si, mas também pelo caminho que
ela pode proporcionar. Não bastasse isso, as disciplinas mentais são
extremamente interessantes, válidas, eficientes e muito úteis nesse mundo
louco em que vivemos. É muito mais que uma escola de artes marciais, é uma
escola de vida.
3. Sabemos que o Sr. foi um
excelente aluno e professor de Aikidô. Para as pessoas do Bugei, o Aikidô é
uma arte fantástica, recheada de pessoas interessantes. O que o trouxe para cá?
Quando vim para Goiânia, não
conhecia nada de Bugei. Havia ouvido uma vez, há alguns anos, uma história de
um "mestre goiano" que dominava as artes dos antigos samurais e era um
dos melhores do mundo, não só nessa como em outras áreas.
Evidente que não poderia
acreditar nisso: onde já se viu "um mestre goiano" dominar a arte dos
antigos samurais? Vim devido às minhas atividades profissionais. Procurei um
espaço para continuar ministrando minhas aulas de Aikidô e, graças a Deus, não
encontrei. Se tivesse encontrado, provavelmente, não teria conhecido a SBB nem
o Shidoshi.
O Aikidô era o que mais se
aproximava do que eu queria de arte marcial, que oferecia um caminho e não
apenas técnicas de luta.
Nesse contexto, não é de se
estranhar que, ao conhecer o Bugei, tenha me encantado dessa forma, pois, sem
desmerecer nenhuma outra arte, é muito mais completa que qualquer outra, tanto
em termos marciais como mentais.
4. Dentro do paradigma
convencional, o que o Sr. enxerga de diferente no cotidiano do Bugei?
Uma disciplina rígida que faz
florescer amizade e respeito muito fortes, uma constante busca de aprimoramento
em todos os níveis: não basta parecer eficiente tem que ser eficiente. Para
isso, no tatame por exemplo, existe
um estudo minucioso de todos os aspectos da aplicação dos golpes.
Desde o estudo dos meridianos do
fluxo do Ki, dos ângulos, das articulações, das possíveis reações do
adversário, da estratégia a ser empregada para atraí-lo a uma determinada
posição, etc.
Encontrei muitas respostas sobre
as outras artes que pratiquei aqui. O mestre Jordan sempre nos diz que um
instante nasce e morre a cada momento. Dentro do Bugei estou começando a
entender a verdade e a beleza disso.
5. O que o Sr. acha da forma de
pensamento exercida pela Sociedade Brasileira de Bugei?
É uma excelente escola de vida.
Poder-se-ia dizer: o que uma escola de artes tão antigas tem a ver com os dias
de hoje? Digo que tem tudo à ver. Tudo que o ser humano foi perdendo de bom no
caminho da globalização, da modernização, do consumismo exagerado, pode ser
resgatado pelo Bugei. Todos os conceitos de decência, dever e direito, giri,
respeito ao próximo, honra, lealdade, compaixão, valores tão caros ao ser
humano que se perderam no caminho, estão vivamente presentes no dia-a-dia da
SBB.
6. O Sr. está fazendo parte de
uma turma que está sendo exaustivamente preparada. Qual o motivo disto?
Estamos sendo preparados pelo
Shidoshi Jordan Augusto por dois motivos: manter a tradição do Bugei da família
Ogawa como ela é e auxiliar, de forma correta, firme e competente, a divulgar
essa cultura milenar.
Pretendemos iniciar escolas e
centros de treinamento por todo o Brasil, de forma a que mais e mais pessoas
entrem em contato com esse mundo maravilhoso do Bugei.
7. Qual a extensão de sua
amizade com os líderes da SBB?
Fui muitíssimo bem recebido
quando, por acaso, fui a um evento da SBB. De lá para cá se cimentou uma
amizade em todos os níveis. Até hoje me pergunto como me aceitaram, como
tiveram tanta paciência comigo. E agradeço muito por tudo. No meu entender,
durante a vida, encontramos muitos conhecidos e fazemos alguns poucos amigos.
Com certeza, dentre esses poucos, estão meus amigos da SBB.
8. Geralmente, recebemos vários
e-mails por dia elogiando e criticando o excesso de seriedade adicionado ao
cotidiano interno da escola. O que o Sr. nos diz a respeito?
Acho que não se deve confundir
seriedade com sisudez. Existe um grande respeito a todos e a todas as
atividades, quer sejam as do tatame, as mentais e filosóficas ou no próprio
trato com todos. Lembre-se que o Bugei lida com artes que, em outros tempos, era
o diferencial entre a vida e a morte. Se você não as treinasse com a devida
seriedade poderia morrer no próximo combate. Como, na SBB, mantemos a tradição
no seu mais alto grau, devemos nos portar como se naqueles tempos vivêssemos.
Apesar de que, nos momentos dedicados à confraternização, nunca vi gente mais
alegre e divertida.
9. Como se dá a relação da SBB
em receber pessoas de outras áreas?
Nesse aspecto, a instituição é
muito fechada. Nos cursos abertos ao público todos são muito bem recebidos,
podem treinar à vontade. Mas para se tornar um aluno interno é um pouco mais
difícil. Shidoshi Jordan, como já disse antes, não tem mais tempo para isso.
Imagine uma pessoa como ele nos doando todos os finais de semana, de manhã até
a noite, para tentar ensinar alguma coisa para nós, que, na maioria das vezes,
não estamos à altura de tais conhecimentos. Aí ele tem que voltar lá atrás,
pegar na nossa mão e ensinar as primeiras letras...
10. O Bugei é uma arte que pode
completar as pessoas?
Total e completamente. Como já
disse, é uma escola para a vida. Podemos nos tornar seres humanos muito
melhores, não só no aspecto físico mas, principalmente, no mental e social.
Aprendemos muito sobre deveres e direitos, respeito ao próximo, amizade, honra,
dedicação, controle emocional,... Conhecimentos que fazem tanta falta ao ser
humano moderno.
11. Como o Sr. enxerga a relação
"do" e "jutsu"?
Eu vim do Aikidô, o
"Do" por excelência. Foram seis anos, de modo que já estava
impregnado em mim. Mas, devo confessar, em alguns aspectos o "do" não
me atendia. Até por uma questão de universalização do conhecimento marcial,
o "do" é necessário. Todos os fundamentos que eram muito agressivos,
que poderiam causar danos físicos, foram retirados. Com toda razão, para os
objetivos a que se propunham pessoas como Jigoro Kano e Morihei Ueshiba. Mas
penso que isso é parecido com o acontece com quem estuda música: depois de
muito estudo, a pessoa procura algo mais, que os arranjos melódicos já não
atendem mais. Partem então para as músicas atonais. Depois de um certo tempo
no "do" ocorre algo parecido. Procura-se então algo que seja
eficiente e funcional mesmo quando o Uke não harmoniza. Lembre-se que o Bugei
Ogawa deve funcionar sempre, em qualquer situação.
12. Como o Sr. vê a posição
isolada do Shidoshi Jordan?
Como já disse, estou em contato
com o meio marcial já há 35 anos. E, por estranho que pareça, já que o
objetivo principal de quem pratica uma arte dessas é evoluir como ser humano
reduzindo o ego à sua pouca importância (não no sentido da psicanálise, mas
no espiritual), existe um exacerbado culto ao ego nesse meio. Já vi muitas
pessoas com nível técnico muito bom, infinitamente melhor que o meu, que não
poderiam ser chamados de mestres porque o ego inflado os tornava medíocres. Ou
então a ganância argentária. Com isso cansamos de debates ridículos nas
revistas especializadas, com ataques os mais degradantes possíveis para ambos
os lados. O Shidoshi, não só técnica como teórica e filosoficamente, está
muito além dessas mediocridades. Com toda certeza suscita invejas e rancores só
pelo simples fato de ter obtido, a muito duras penas, essa maestria. Por isso,
acho que ele está correto em se resguardar de todos esses contatos que só
tristezas tem trazido para ele.
13. Esta manhã, conversamos com
Ishino Shihan, que elogiou o trabalho realizado pela SBB onde, me parece, é um
dos responsáveis. Nos alegou também que o Brasil é um país cheio de política
e que admirava a posição do Shidoshi. O que o Sr. pensa a respeito?
É o complemento do que disse
acima. Mantendo-se afastado de toda essa politicagem e mediocridade, o Shidoshi
pode desenvolver seu trabalho em paz, elevando cada vez mais o nível do Bugei
no Brasil. E não só pelo que já disse acima, mas também por outra faceta do
comportamento humano, sejam brasileiros ou japoneses: tentar usar a abusar da
imagem do Shidoshi em proveito próprio.
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