terça-feira, 6 de janeiro de 2009

 

SBB Entrevista Sérgio Moraes             


O engenheiro Sérgio Moraes revela, na seguinte entrevista, seus caminhos no Bugei.

 

1. Recentemente, temos visto muito o Sr. em treinamento intensivo, chegando à 6 horas por dia durante a semana e 9 horas nos finais de semana. O que o leva a fazer isso?

A grade curricular do Bugei é muito extensa. Além disso estou tendo o privilégio de estar recebendo aulas diretamente do Shidoshi Jordan Augusto, detentor de um conhecimento técnico e filosófico inigualáveis.

É sabido que, devido às suas muitas outras atividades profissionais, ele já não ministra mais aulas no tatame, apenas para um grupo reduzido de alunos. Creio assim ser uma forma de, no mínimo, agradecê-lo e honrá-lo, procurando ser o melhor eu que eu possa ser, treinando com afinco e seriedade, como todos os outros.

Para isso o treino intensivo é extremamente importante, de forma que os conceitos, estratégias e a tradição do Bugei Ogawa, lindamente representado pelo Shidoshi Jordan Augusto, façam parte de mim.

 

2. De onde tirou esta paixão pelo Bugei?

Desde os 10 anos pratico alguma forma de arte marcial: comecei com Judô, em São Paulo, em seguida Karatê em Uberlândia. Interrompi por 3 anos para terminar minha graduação em engenharia e retornei ao tatame para aprender Aikidô e Tai Chi Chuan. Sempre buscando um ideal de arte marcial eficiente no plano físico e que polisse as minhas muitas arestas espirituais.

Quando conheci o Bugei do Shidoshi Jordan Augusto, me encantei. Creio ser esse o termo correto. Em termos de arte marcial foi a mais completa que já tive o prazer de conhecer.

Além do que a espada japonesa sempre me fascinou. Não só pela esgrima em si, mas também pelo caminho que ela pode proporcionar. Não bastasse isso, as disciplinas mentais são extremamente interessantes, válidas, eficientes e muito úteis nesse mundo louco em que vivemos. É muito mais que uma escola de artes marciais, é uma escola de vida.

 

3. Sabemos que o Sr. foi um excelente aluno e professor de Aikidô. Para as pessoas do Bugei, o Aikidô é uma arte fantástica, recheada de pessoas interessantes. O que o trouxe para cá?

Quando vim para Goiânia, não conhecia nada de Bugei. Havia ouvido uma vez, há alguns anos, uma história de um "mestre goiano" que dominava as artes dos antigos samurais e era um dos melhores do mundo, não só nessa como em outras áreas.

Evidente que não poderia acreditar nisso: onde já se viu "um mestre goiano" dominar a arte dos antigos samurais? Vim devido às minhas atividades profissionais. Procurei um espaço para continuar ministrando minhas aulas de Aikidô e, graças a Deus, não encontrei. Se tivesse encontrado, provavelmente, não teria conhecido a SBB nem o Shidoshi.

O Aikidô era o que mais se aproximava do que eu queria de arte marcial, que oferecia um caminho e não apenas técnicas de luta.

Nesse contexto, não é de se estranhar que, ao conhecer o Bugei, tenha me encantado dessa forma, pois, sem desmerecer nenhuma outra arte, é muito mais completa que qualquer outra, tanto em termos marciais como mentais.

 

4. Dentro do paradigma convencional, o que o Sr. enxerga de diferente no cotidiano do Bugei?

Uma disciplina rígida que faz florescer amizade e respeito muito fortes, uma constante busca de aprimoramento em todos os níveis: não basta parecer eficiente tem que ser eficiente. Para isso, no tatame por exemplo,  existe um estudo minucioso de todos os aspectos da aplicação dos golpes.

Desde o estudo dos meridianos do fluxo do Ki, dos ângulos, das articulações, das possíveis reações do adversário, da estratégia a ser empregada para atraí-lo a uma determinada posição, etc.

Encontrei muitas respostas sobre as outras artes que pratiquei aqui. O mestre Jordan sempre nos diz que um instante nasce e morre a cada momento. Dentro do Bugei estou começando a entender a verdade e a beleza disso.

 

5. O que o Sr. acha da forma de pensamento exercida pela Sociedade Brasileira de Bugei?

É uma excelente escola de vida. Poder-se-ia dizer: o que uma escola de artes tão antigas tem a ver com os dias de hoje? Digo que tem tudo à ver. Tudo que o ser humano foi perdendo de bom no caminho da globalização, da modernização, do consumismo exagerado, pode ser resgatado pelo Bugei. Todos os conceitos de decência, dever e direito, giri, respeito ao próximo, honra, lealdade, compaixão, valores tão caros ao ser humano que se perderam no caminho, estão vivamente presentes no dia-a-dia da SBB.

 

6. O Sr. está fazendo parte de uma turma que está sendo exaustivamente preparada. Qual o motivo disto?

Estamos sendo preparados pelo Shidoshi Jordan Augusto por dois motivos: manter a tradição do Bugei da família Ogawa como ela é e auxiliar, de forma correta, firme e competente, a divulgar essa cultura milenar.

Pretendemos iniciar escolas e centros de treinamento por todo o Brasil, de forma a que mais e mais pessoas entrem em contato com esse mundo maravilhoso do Bugei.

 

7. Qual a extensão de sua amizade com os líderes da SBB?

Fui muitíssimo bem recebido quando, por acaso, fui a um evento da SBB. De lá para cá se cimentou uma amizade em todos os níveis. Até hoje me pergunto como me aceitaram, como tiveram tanta paciência comigo. E agradeço muito por tudo. No meu entender, durante a vida, encontramos muitos conhecidos e fazemos alguns poucos amigos. Com certeza, dentre esses poucos, estão meus amigos da SBB.

 

8. Geralmente, recebemos vários e-mails por dia elogiando e criticando o excesso de seriedade adicionado ao cotidiano interno da escola. O que o Sr. nos diz a respeito?

Acho que não se deve confundir seriedade com sisudez. Existe um grande respeito a todos e a todas as atividades, quer sejam as do tatame, as mentais e filosóficas ou no próprio trato com todos. Lembre-se que o Bugei lida com artes que, em outros tempos, era o diferencial entre a vida e a morte. Se você não as treinasse com a devida seriedade poderia morrer no próximo combate. Como, na SBB, mantemos a tradição no seu mais alto grau, devemos nos portar como se naqueles tempos vivêssemos. Apesar de que, nos momentos dedicados à confraternização, nunca vi gente mais alegre e divertida.

 

9. Como se dá a relação da SBB em receber pessoas de outras áreas?

Nesse aspecto, a instituição é muito fechada. Nos cursos abertos ao público todos são muito bem recebidos, podem treinar à vontade. Mas para se tornar um aluno interno é um pouco mais difícil. Shidoshi Jordan, como já disse antes, não tem mais tempo para isso. Imagine uma pessoa como ele nos doando todos os finais de semana, de manhã até a noite, para tentar ensinar alguma coisa para nós, que, na maioria das vezes, não estamos à altura de tais conhecimentos. Aí ele tem que voltar lá atrás, pegar na nossa mão e ensinar as primeiras letras...

 

10. O Bugei é uma arte que pode completar as pessoas?

Total e completamente. Como já disse, é uma escola para a vida. Podemos nos tornar seres humanos muito melhores, não só no aspecto físico mas, principalmente, no mental e social. Aprendemos muito sobre deveres e direitos, respeito ao próximo, amizade, honra, dedicação, controle emocional,... Conhecimentos que fazem tanta falta ao ser humano moderno.

 

11. Como o Sr. enxerga a relação "do" e "jutsu"?

Eu vim do Aikidô, o "Do" por excelência. Foram seis anos, de modo que já estava impregnado em mim. Mas, devo confessar, em alguns aspectos o "do" não me atendia. Até por uma questão de universalização do conhecimento marcial, o "do" é necessário. Todos os fundamentos que eram muito agressivos, que poderiam causar danos físicos, foram retirados. Com toda razão, para os objetivos a que se propunham pessoas como Jigoro Kano e Morihei Ueshiba. Mas penso que isso é parecido com o acontece com quem estuda música: depois de muito estudo, a pessoa procura algo mais, que os arranjos melódicos já não atendem mais. Partem então para as músicas atonais. Depois de um certo tempo no "do" ocorre algo parecido. Procura-se então algo que seja eficiente e funcional mesmo quando o Uke não harmoniza. Lembre-se que o Bugei Ogawa deve funcionar sempre, em qualquer situação.

 

12. Como o Sr. vê a posição isolada do Shidoshi Jordan?

Como já disse, estou em contato com o meio marcial já há 35 anos. E, por estranho que pareça, já que o objetivo principal de quem pratica uma arte dessas é evoluir como ser humano reduzindo o ego à sua pouca importância (não no sentido da psicanálise, mas no espiritual), existe um exacerbado culto ao ego nesse meio. Já vi muitas pessoas com nível técnico muito bom, infinitamente melhor que o meu, que não poderiam ser chamados de mestres porque o ego inflado os tornava medíocres. Ou então a ganância argentária. Com isso cansamos de debates ridículos nas revistas especializadas, com ataques os mais degradantes possíveis para ambos os lados. O Shidoshi, não só técnica como teórica e filosoficamente, está muito além dessas mediocridades. Com toda certeza suscita invejas e rancores só pelo simples fato de ter obtido, a muito duras penas, essa maestria. Por isso, acho que ele está correto em se resguardar de todos esses contatos que só tristezas tem trazido para ele.

 

13. Esta manhã, conversamos com Ishino Shihan, que elogiou o trabalho realizado pela SBB onde, me parece, é um dos responsáveis. Nos alegou também que o Brasil é um país cheio de política e que admirava a posição do Shidoshi. O que o Sr. pensa a respeito?

É o complemento do que disse acima. Mantendo-se afastado de toda essa politicagem e mediocridade, o Shidoshi pode desenvolver seu trabalho em paz, elevando cada vez mais o nível do Bugei no Brasil. E não só pelo que já disse acima, mas também por outra faceta do comportamento humano, sejam brasileiros ou japoneses: tentar usar a abusar da imagem do Shidoshi em proveito próprio.

 

 


  Topo da Página Voltar Home 

 

As informações contidas neste web site são de uso exclusivo da Sociedade Brasileira de Bugei Ltda. O uso indiscriminado de textos, ensaios, artigos ou imagens com a marca d'água sem prévia autorização dos autores é proibido, sob pena previstas pelas leis de copyright.

2009 © Sociedade Brasileira de Bugei - Todos os direitos reservados - All rights reserved
bugei@bugei.com.br  [Contato - Contact Us]

SOBRE A SBB

 
Quem somos
Currículos
Atuação e Projetos
Corpo Jurídico e Executivo
CNKB
Escolas
Contato
Galeria

SOBRE O BUGEI

 

Origens e Definição

Kaze no Ryu Bugei

Bugei no Brasil

Ogawa Ryu ou Kaze no Ryu?

Disciplinas Físicas

Disciplinas Mentais

Grandes Nomes do Koryu

Japonês 

Textos do Shidoshi Jordan Augusto 

Shodo - caligafia japonesa de Shidoshi Jordan

artigos disponíveis






 

 

Artigos Específicos sobre Koryu

Clique Aqui

 

MAIS...

Cursos e Seminários Courses and Seminary

Textos, Contos e Crônicas

Cultura e Tradição Japonesas

Documentos Tradicionais

Makimono - Confira Aqui!

Livros, Vídeos e Outros Produtos

SUMIE GALLERY

NEW PROJECT 2008 Representative person

Hall of Fame 2007 e 2008

CD Jordan Augusto y Pedro Lucena

Bugei na Revista Budo International