terça-feira, 6 de janeiro de 2009

 

SBB Entrevista Marcos Teles             


 

Marcos Teles Amaral é uchi-deshi 4ª fase da linhagem Kaze no Ryu Bugei. Amigo fiel e honrado de todos, é considerado uma das personalidades mais querida de toda Instituição.

 

 

1 - De todas as pessoas que hoje se encontram na Instituição, você é a que mais tem prestígio com os altos cargos do Bugei. Como se dá isso?

Em princípio, posso dizer que no Bugei tanto quanto na vida, o prestígio e a confiança são coisas que são conquistadas e que levam tempo, mas que para perdê-los basta apenas um ato. Desde que ingressei no Bugei sempre fui, e ainda sou, uma pessoa que se dedica e se esforça sem o mínimo interesse de mostrar a outros alunos e cargos do Bugei o meu trabalho. Além disso, ter o discernimento para saber separar nossas personalidades, o local e a hora de usá-los, o que é muito importante dentro do “Reigi to Saho” — etiqueta estudada dentro do Bugei. Outra coisa... Os valores éticos cultivados por cada um, como a verdade, honestidade e humildade que são muito prestigiados pela cultura japonesa, e que fazem parte da minha personalidade. Mas, posso afirmar que teorias como “On Ko Chi Shin” fizeram partes do meu raciocínio.

Esta teoria, que tem como tradução “Conhecendo o passado entenderá o presente”, acredito que o homem, dentro de seus conceitos e tradições, ainda que estas sejam duras e rígidas como no bugei, grandes homens não criam posturas, fluem dentro dela.

"Nos campos da observação, o acaso favorece apenas as mentes preparadas.” —Louis Pasteur

"Quanto menos os homens pensam, mais eles falam” — Montesquieu

 

 2 - Hoje você dedica seu tempo integral à Instituição e, pelo que ficamos sabendo, dedicando-se a um aprendizado mais profundo. Como assim?

Bem, a partir do momento que se vive dentro de uma escola de Bugei, sempre surgem situações onde se aprende muito, mesmo que seja uma conversa ou tarefa designada a ser feita. Além do fato de ser uma das pessoas mais graduadas desta escola, o que me dá acesso a outras matérias mais reservadas dentro do estudo do Bugei e do O-Chikara, todos almejamos ter acesso aos chamados “Kuden”.

O conhecimento não ocupa espaço nem pode ser tirado de você”. Portanto, esta dedicação é recompensada através de estudos mais aprofundados da arte em si. “Iwa no Ue ni mo San Nen” retrata muito bem o que quero dizer, mas no meu modo de pensar, eternamente, para aquele que busca se aprofundar em qualquer que seja o caminho, sempre é necessário passar três anos em cima da rocha.

“Tente mover o mundo — o primeiro passo será mover a si mesmo.” — Platão

 

3 - Sua pessoa foi outorgada como o atual homem de confiança do Shidoshi Jordan, sendo você uma pessoa que ele muito estima. O que nos diz disso?

Infelizmente vivemos em um mundo onde, atualmente, utilizar esta palavra confiança pode ser um fardo muito difícil de se carregar. Ao longo desse tempo vi pessoas jurarem fidelidade, outorgando-se seres de profunda confiança, e em verdade não existia confiança nem em si próprio. É complicado estabelecer este tipo de relação nos dias de hoje. Mais do que antigamente, a competição por um lugar ao sol tem transformado a índole e o caráter das pessoas. Por mais bela que seja a doutrina e por mais rígido que seja o sistema, a essência de cada um é de cada um.

Uma coisa posso afirmar: nestes anos em que estou no caminho do Bugei pude perceber que o efeito capitalismo deixou tudo alterado. Tudo é vivido com muita intensidade e frieza. Este cargo é de muita responsabilidade e que com certeza não foi alcançado do dia para a noite. Fiquei muito feliz por ter alcançado esta posição. “Naqueles exércitos nos quais não há uma afeição por aquilo que combatem, nunca poderá existir tanta virtude a ponto de fazê-los resistir a um inimigo um pouco mais virtuoso.” — Nicolau Maquiavel

 

4 - Com certeza podemos afirmar que você é testemunha viva da seriedade do trabalho da SBB. O Sr. poderia explicar mais sobre isso?

Em todo meio que se preza, o reflexo será visto pela própria consciência. Não temos como enganar o tempo, nem as pessoas... Ou você faz um trabalho sério ou seu caminho será curto. Acredito ser um processo natural da vida. Se formos analisar bem, todo principio do pensamento é maravilhoso, porém se desvirtuam com facilidade ao longo de sua trajetória de execução. "Quem mais demora a fazer uma promessa é quem a cumpre mais rigorosamente” — Rousseau

Desde que presenciei as idéias e conceitos vivenciados no Bugei, pensei comigo: “isso não funciona nos dias de hoje”. O tempo foi passando e percebi que não são pessoas que fazem o caminho e sim a união destas com ele. Entendi que não devemos mudar o caminho de nossas vidas, mas, sim, a maneira de caminhar.

“Iu wa Yasu ku Okonau wa Gatashi” — falar é fácil, fazer é que é o difícil.

Assim sendo admiro aqueles que incansavelmente seguem adiante contribuindo com a expectativa de muitos que no passado acreditaram em alguma forma de caminho. No início presenciei o quanto nos deixamos influenciar pela maldade existente no caminho de cada profissão, e com o tempo aprendi que não devo temer meu inimigo, mas sim a minha própria distração, pois é esta que me ilude.  Conheci a maldade interna e externa de cada caminho que passei e de uma coisa tenho certeza: Maquiavel está mais presente do que nunca. Na SBB pude perceber que as resposta não estão em nenhum lugar a não ser dentro de mim mesmo. Desta seriedade é que me orgulho. “Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa.” — Platão

 

5 - Segundo a Uchi Deshi e Kokeisha Juliana Galende você é uma enciclopédia viva dos acontecimentos dentro de toda uma trajetória de conquista. Fale mais a respeito.

Quando eu era Kohai presenciava o quanto a vaidade e a presunção das pessoas incomodava os mais velhos, que sempre de forma cortês diziam: — “Ten Shiru Chi Shiru” - Saber no céu é saber na terra. Muitos não entendiam as profundidades com que as formas eram mostradas e assim confundiam simplicidade com humildade. O humilde nem sempre é simples e vice e versa.

Hoje cheguei até mais distante do que pessoas que acreditavam ser alguma coisa. Shidoshi sempre dizia a famosa frase de Sócrates: “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.” No fundo, ele estava dizendo que podemos colocar flores ou pedras em nosso caminho. A semeadura é livre mas, a colheita é obrigatória. Sinto apenas por não ter como ajudar os que foram convidados a se retirar, haja vista que isso é praxe nas escolas sérias que escolhem bem quem seguirá adiante.

“Encontra-se oportunidade para fazer o mal cem vezes por dia, e para fazer o bem uma vez por ano” — Voltaire

 

6 - Para finalizar, como você vê essa crescente procura de outras artes pelo Bugei?

Partindo do ponto de vista que a vida do ser humano é feita de ciclos, fica fácil entender essa busca. Hoje somos preparados para o amanhã e assim por diante. O ser humano está cada dia mais buscando respostas, e respostas devem ser encontradas. O bugei oferece um trabalho sério e honrado com a presença de importantes mestres que são mantenedores de uma tradição que perpetua. É comum pessoas quererem participar de tudo isso. Mas, não é só o Bugei que tem sido procurado, acredito que tudo faz parte de uma história e cada um carrega a sua.

Quando às vezes me magoava com a falta de informação, Shidoshi dizia que era apenas uma questão de tempo e que, pela lei natural das coisas, logo o Yin se tornaria Yang.

“Uma vida não questionada não merece ser vivida”, já dizia Platão. Acredito que "Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele." Também assim é a busca de cada continuidade de um caminho tradicional. Hoje, quando converso com pessoas mais velhas e vejo no que a escola que faço parte se tornou, compreendo que o caminho é igual para todos, mas só escurece até a maia noite. “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.”  — Voltaire

 

 


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