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Marcos
Teles Amaral é uchi-deshi 4ª fase da
linhagem Kaze no Ryu Bugei. Amigo fiel e
honrado de todos, é considerado uma das
personalidades mais querida de toda
Instituição.
1 - De todas as pessoas que hoje
se encontram na Instituição, você é
a que mais tem prestígio com os altos
cargos do Bugei. Como se dá isso?
Em princípio, posso dizer que no
Bugei tanto quanto na vida, o prestígio
e a confiança são coisas que são
conquistadas e que levam tempo, mas que
para perdê-los basta apenas um ato.
Desde que ingressei no Bugei sempre fui,
e ainda sou, uma pessoa que se dedica e
se esforça sem o mínimo interesse de
mostrar a outros alunos e cargos do
Bugei o meu trabalho. Além disso, ter o
discernimento para saber separar nossas
personalidades, o local e a hora de usá-los,
o que é muito importante dentro do
“Reigi to Saho” — etiqueta
estudada dentro do Bugei. Outra coisa...
Os valores éticos cultivados por cada
um, como a verdade, honestidade e
humildade que são muito prestigiados
pela cultura japonesa, e que fazem parte
da minha personalidade. Mas, posso
afirmar que teorias como “On Ko Chi
Shin” fizeram partes do meu raciocínio.
Esta teoria, que tem como tradução
“Conhecendo o passado entenderá o
presente”, acredito que o homem,
dentro de seus conceitos e tradições,
ainda que estas sejam duras e rígidas
como no bugei, grandes homens não criam
posturas, fluem dentro dela.
"Nos campos da observação,
o acaso favorece apenas as mentes
preparadas.” —Louis Pasteur
"Quanto menos os homens
pensam, mais eles falam” —
Montesquieu
2 - Hoje você dedica seu tempo integral à Instituição e,
pelo que ficamos sabendo, dedicando-se a
um aprendizado mais profundo. Como
assim?
Bem, a partir do momento que se
vive dentro de uma escola de Bugei,
sempre surgem situações onde se
aprende muito, mesmo que seja uma
conversa ou tarefa designada a ser
feita. Além do fato de ser uma das
pessoas mais graduadas desta escola, o
que me dá acesso a outras matérias
mais reservadas dentro do estudo do
Bugei e do O-Chikara, todos almejamos
ter acesso aos chamados “Kuden”.
“O conhecimento não ocupa
espaço nem pode ser tirado de você”.
Portanto, esta dedicação é
recompensada através de estudos mais
aprofundados da arte em si. “Iwa no Ue
ni mo San Nen” retrata muito bem o que
quero dizer, mas no meu modo de pensar,
eternamente, para aquele que busca se
aprofundar em qualquer que seja o
caminho, sempre é necessário passar três
anos em cima da rocha.
“Tente mover o mundo — o
primeiro passo será mover a si
mesmo.” — Platão
3 - Sua pessoa foi outorgada como
o atual homem de confiança do Shidoshi
Jordan, sendo você uma pessoa que ele
muito estima. O que nos diz disso?
Infelizmente vivemos em um mundo
onde, atualmente, utilizar esta palavra
confiança pode ser um fardo muito difícil
de se carregar. Ao longo desse tempo vi
pessoas jurarem fidelidade,
outorgando-se seres de profunda confiança,
e em verdade não existia confiança nem
em si próprio. É complicado
estabelecer este tipo de relação nos
dias de hoje. Mais do que antigamente, a
competição por um lugar ao sol tem
transformado a índole e o caráter das
pessoas. Por mais bela que seja a
doutrina e por mais rígido que seja o
sistema, a essência de cada um é de
cada um.
Uma coisa posso afirmar: nestes
anos em que estou no caminho do Bugei
pude perceber que o efeito capitalismo
deixou tudo alterado. Tudo é vivido com
muita intensidade e frieza. Este cargo
é de muita responsabilidade e que com
certeza não foi alcançado do dia para
a noite. Fiquei muito feliz por ter
alcançado esta posição. “Naqueles
exércitos nos quais não há uma afeição
por aquilo que combatem, nunca poderá
existir tanta virtude a ponto de fazê-los
resistir a um inimigo um pouco mais
virtuoso.” — Nicolau Maquiavel
4 - Com certeza podemos afirmar
que você é testemunha viva da
seriedade do trabalho da SBB. O Sr.
poderia explicar mais sobre isso?
Em todo meio que se preza, o
reflexo será visto pela própria consciência.
Não temos como enganar o tempo, nem as
pessoas... Ou você faz um trabalho sério
ou seu caminho será curto. Acredito ser
um processo natural da vida. Se formos
analisar bem, todo principio do
pensamento é maravilhoso, porém se
desvirtuam com facilidade ao longo de
sua trajetória de execução.
"Quem mais demora a fazer uma
promessa é quem a cumpre mais
rigorosamente” — Rousseau
Desde que presenciei as idéias e
conceitos vivenciados no Bugei, pensei
comigo: “isso não funciona nos
dias de hoje”. O tempo foi
passando e percebi que não são pessoas
que fazem o caminho e sim a união
destas com ele. Entendi que não devemos
mudar o caminho de nossas vidas, mas,
sim, a maneira de caminhar.
“Iu wa Yasu ku Okonau wa
Gatashi” — falar é fácil, fazer é
que é o difícil.
Assim sendo admiro aqueles que
incansavelmente seguem adiante
contribuindo com a expectativa de muitos
que no passado acreditaram em alguma
forma de caminho. No início presenciei
o quanto nos deixamos influenciar pela
maldade existente no caminho de cada
profissão, e com o tempo aprendi que não
devo temer meu inimigo, mas sim a minha
própria distração, pois é esta que
me ilude.
Conheci a maldade interna e
externa de cada caminho que passei e de
uma coisa tenho certeza: Maquiavel está
mais presente do que nunca. Na SBB pude
perceber que as resposta não estão em
nenhum lugar a não ser dentro de mim
mesmo. Desta seriedade é que me
orgulho. “Você pode descobrir mais
sobre uma pessoa em uma hora de
brincadeira do que em um ano de
conversa.” — Platão
5 - Segundo a Uchi Deshi e
Kokeisha Juliana Galende você é uma
enciclopédia viva dos acontecimentos
dentro de toda uma trajetória de
conquista. Fale mais a respeito.
Quando eu era Kohai presenciava o
quanto a vaidade e a presunção das
pessoas incomodava os mais velhos, que
sempre de forma cortês diziam: —
“Ten Shiru Chi Shiru” - Saber no céu
é saber na terra. Muitos não entendiam
as profundidades com que as formas eram
mostradas e assim confundiam
simplicidade com humildade. O humilde
nem sempre é simples e vice e versa.
Hoje cheguei até mais distante
do que pessoas que acreditavam ser
alguma coisa. Shidoshi sempre dizia a
famosa frase de Sócrates: “Sábio
é aquele que conhece os limites da própria
ignorância.” No fundo, ele estava
dizendo que podemos colocar flores ou
pedras em nosso caminho. A semeadura é
livre mas, a colheita é obrigatória.
Sinto apenas por não ter como ajudar os
que foram convidados a se retirar, haja
vista que isso é praxe nas escolas sérias
que escolhem bem quem seguirá adiante.
“Encontra-se oportunidade para
fazer o mal cem vezes por dia, e para
fazer o bem uma vez por ano” —
Voltaire
6 - Para finalizar, como você vê
essa crescente procura de outras artes
pelo Bugei?
Partindo do ponto de vista que a
vida do ser humano é feita de ciclos,
fica fácil entender essa busca. Hoje
somos preparados para o amanhã e assim
por diante. O ser humano está cada dia
mais buscando respostas, e respostas
devem ser encontradas. O bugei oferece
um trabalho sério e honrado com a
presença de importantes mestres que são
mantenedores de uma tradição que
perpetua. É comum pessoas quererem
participar de tudo isso. Mas, não é só
o Bugei que tem sido procurado, acredito
que tudo faz parte de uma história e
cada um carrega a sua.
Quando às vezes me magoava com a
falta de informação, Shidoshi dizia
que era apenas uma questão de tempo e
que, pela lei natural das coisas, logo o
Yin se tornaria Yang.
“Uma
vida não questionada não merece ser
vivida”, já dizia Platão.
Acredito que "Na juventude deve-se
acumular o saber. Na velhice fazer uso
dele." Também assim é a busca de
cada continuidade de um caminho
tradicional. Hoje, quando converso com
pessoas mais velhas e vejo no que a
escola que faço parte se tornou,
compreendo que o caminho é igual para
todos, mas só escurece até a maia
noite. “Posso não concordar com
nenhuma das palavras que você disser,
mas defenderei até a morte o direito de
você dizê-las.”
— Voltaire
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