terça-feira, 6 de janeiro de 2009

 

SBB Entrevista Juliana Galende            


 

 

Kokeisha Juliana Galende, esposa do Shidoshi Jordan Augusto, em recente entrevista a um periódico que circulará na Espanha no próximo mês, aproveitou o embalo e cedeu uma entrevista ao site da SBB.

Juliana Galende é sem dúvida hoje uma das mais estudiosas e dedicadas pesquisadoras sobre kaze no Ryu Bugei e artes de Koryu. Ela, que há muito se dedica ao aperfeiçoamento de seu caminho marcial e espiritual, nos explica sobre esta nova fase que se encontra e os planos para 2005.

 

Giovanni Nunes - Quanta coisa aconteceu de três anos para cá. (risos) Qual sua avaliação sobre esses um mil e noventa e cinco dias que se passaram?

JG - Pois é... No Bugei a gente nunca pode dizer que as coisas são paradas... Sempre ocorre uma grande mudança ou surpresa. Vi as coisas mudarem em 180º muitas vezes. Eu e uma amiga antiga costumávamos brincar dizendo que viver no Bugei é uma aventura. Não sei nem por onde começar a te responder. Muitas pessoas chegaram e outras se foram, e deixaram suas marcas e recordações. Acredito numa frase célebre utilizada muito na biologia e ecologia onde se afirma que uma borboleta bate as asas no Brasil e provoca um furacão no Japão. Trata-se da lei das ações e reações, onde muitas linhas do destino vão sendo traçadas de acordo com as nossas escolhas e atitudes. Hoje é o resultado de muitas delas tomadas nesses últimos três anos, num emaranhado de ligações entre cada pessoa consigo mesma e para com os outros.

 

Giovanni Nunes – Hoje seu nome se tornou referência no Brasil. A que se dá tudo isso? É a dedicação? Esforço?

É um conjunto de coisas... Não somente dedicação e esforço, mas giri, ninjo, força de vontade, é seguir em frente não importa o que aconteça, sem se perder com bobagens. Quando o aluno compreende as palavras do mestre e se rende a elas como ensinamento, as coisas ficam mais fáceis. Em geral as pessoas esperam que o Koryu se adapte a elas, e assim não funciona. É uma coisa pronta há séculos. Se quiser aprender Koryu, se renda primeiro à sua vontade, e depois ao caminho que escolheu.Gandhi dizia que acreditar em algo e não o viver é desonesto. Eu penso que uma das coisas mais tristes que existe é ver uma pessoa desperdiçar um dom natural, e o dom vem de uma paixão que deve merecer confiança, apoio e incentivo. Ser referência não é importante para mim, talvez alguém possa me dizer que é até conseqüência do que faço, mas não é o meu objetivo. Não tenho vaidade quanto a isso, pois nunca foi o meu sonho. Meu sonho está no Bugei, no meu caminho interno e religioso. A prática marcial é parte do que eu faço, não o objetivo final.

Giovanni Nunes – Sua pessoa é tida por muitos como uma personalidade dura e rígida. É verdade?

JG - É? (risos) Eu acho justamente o contrário! Talvez eu seja um pouco exigente quanto à execução das coisas, mas não me vejo dessa forma. Sou do tipo que faz o possível e o impossível pelas pessoas que gosto. Tiro a roupa do corpo para dar para uma amiga que esteja precisando, sem pensar duas vezes. É uma pena que elas agora não estejam perto... Se não essa pergunta teria que ser feita para elas. Mas o senhor me conhece... E então?

Giovanni Nunes – Então o quê? (risos)

JG – O que o senhor diz? De mim? Minha personalidade?


Giovanni Nunes – Eu sou só o entrevistador aqui... Mas alguns falam...

JG - Agora com alunos a conversa é outra. Uma vez o shidoshi me perguntou, quando eu tinha acabado de entrar no Bugei, se eu estava atrás de um mestre ou de um amigo. Eu respondi um mestre, e isso definiu o meu caminho, pois para aprender nem sempre as coisas são do jeito que a gente projeta, idealiza... Mas me acho muito bem-humorada com eles, e nunca tive problemas com nenhum. Não acredito que uma carranca mal-humorada traga ensinamentos a mais do que a cortesia e a alegria. Mas veja bem... Estar bem-humorada não significa ser menos exigente, e nisso sou ao extremo.
 


 

Giovanni Nunes – Você constantemente é procurada por ex-alunos que a vêem como ponte para um retorno... Qual sua opinião sobre isso?

JG – Meu sonho é que todos voltem e que possam estar conosco aqui, numa grande família. Sinto muitas saudades de pessoas com quem convivi... Pessoas de Salvador que foram um dia meus superiores, pessoas de Goiânia que foram meus amigos... Como o Bugei é fechado, a gente acaba se apegando às pessoas do meio, e quando elas se afastam fazem muita falta no nosso cotidiano, porque praticamente vivemos as mesmas coisas e compartilhamos aprendizados. A convivência no Bugei é tão saudável que a companhia um do outro se dá quase em tempo integral, não apenas no dojō, mas nos horários de intervalos, em jantares, nos finais de semana... É uma irmandade que se mantém unida em todos os momentos. Multiplicamos as alegrias e dividimos as lágrimas inevitáveis da vida, e isso se torna muito forte. Leva tempo para se adaptar a uma ausência. Por isso sempre procuro deixar as pessoas à vontade para que entrem em contato comigo, porque tenho certeza que posso e poderei sempre ajudar aqueles que ainda enxergam no Bugei um caminho de vida.

 

 


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