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Kokeisha
Juliana Galende, esposa do Shidoshi
Jordan Augusto, em recente entrevista a
um periódico que circulará na Espanha no
próximo mês, aproveitou o embalo e cedeu
uma entrevista ao site da SBB.
Juliana Galende é sem dúvida hoje uma
das mais estudiosas e dedicadas
pesquisadoras sobre kaze no Ryu Bugei e
artes de Koryu. Ela, que há muito se
dedica ao aperfeiçoamento de seu caminho
marcial e espiritual, nos explica sobre
esta nova fase que se encontra e os
planos para 2005.

Giovanni Nunes - Quanta coisa aconteceu
de três anos para cá. (risos) Qual sua
avaliação sobre esses um mil e noventa e
cinco dias que se passaram?
JG - Pois é... No Bugei a gente nunca
pode dizer que as coisas são paradas...
Sempre ocorre uma grande mudança ou
surpresa. Vi as coisas mudarem em 180º
muitas vezes. Eu e uma amiga antiga
costumávamos brincar dizendo que viver
no Bugei é uma aventura. Não sei nem por
onde começar a te responder. Muitas
pessoas chegaram e outras se foram, e
deixaram suas marcas e recordações.
Acredito numa frase célebre utilizada
muito na biologia e ecologia onde se
afirma que uma borboleta bate as asas no
Brasil e provoca um furacão no Japão.
Trata-se da lei das ações e reações,
onde muitas linhas do destino vão sendo
traçadas de acordo com as nossas
escolhas e atitudes. Hoje é o resultado
de muitas delas tomadas nesses últimos
três anos, num emaranhado de ligações
entre cada pessoa consigo mesma e para
com os outros.

Giovanni Nunes – Hoje seu nome se tornou
referência no Brasil. A que se dá tudo
isso? É a dedicação? Esforço?
É um conjunto de coisas... Não somente
dedicação e esforço, mas giri, ninjo,
força de vontade, é seguir em frente não
importa o que aconteça, sem se perder
com bobagens. Quando o aluno compreende
as palavras do mestre e se rende a elas
como ensinamento, as coisas ficam mais
fáceis. Em geral as pessoas esperam que
o Koryu se adapte a elas, e assim não
funciona. É uma coisa pronta há séculos.
Se quiser aprender Koryu, se renda
primeiro à sua vontade, e depois ao
caminho que escolheu.Gandhi dizia que
acreditar em algo e não o viver é
desonesto. Eu penso que uma das coisas
mais tristes que existe é ver uma pessoa
desperdiçar um dom natural, e o dom vem
de uma paixão que deve merecer
confiança, apoio e incentivo. Ser
referência não é importante para mim,
talvez alguém possa me dizer que é até
conseqüência do que faço, mas não é o
meu objetivo. Não tenho vaidade quanto a
isso, pois nunca foi o meu sonho. Meu
sonho está no Bugei, no meu caminho
interno e religioso. A prática marcial é
parte do que eu faço, não o objetivo
final.

Giovanni Nunes – Sua pessoa é tida por
muitos como uma personalidade dura e
rígida. É verdade?
JG - É? (risos) Eu acho justamente o
contrário! Talvez eu seja um pouco
exigente quanto à execução das coisas,
mas não me vejo dessa forma. Sou do tipo
que faz o possível e o impossível pelas
pessoas que gosto. Tiro a roupa do corpo
para dar para uma amiga que esteja
precisando, sem pensar duas vezes. É uma
pena que elas agora não estejam perto...
Se não essa pergunta teria que ser feita
para elas. Mas o senhor me conhece... E
então?
Giovanni Nunes – Então o quê? (risos)
JG – O que o senhor diz? De mim? Minha
personalidade?
Giovanni Nunes – Eu sou só o
entrevistador aqui... Mas alguns
falam...
JG - Agora com alunos a conversa é
outra. Uma vez o shidoshi me perguntou,
quando eu tinha acabado de entrar no
Bugei, se eu estava atrás de um mestre
ou de um amigo. Eu respondi um mestre, e
isso definiu o meu caminho, pois para
aprender nem sempre as coisas são do
jeito que a gente projeta, idealiza...
Mas me acho muito bem-humorada com eles,
e nunca tive problemas com nenhum. Não
acredito que uma carranca mal-humorada
traga ensinamentos a mais do que a
cortesia e a alegria. Mas veja bem...
Estar bem-humorada não significa ser
menos exigente, e nisso sou ao extremo.

Giovanni Nunes – Você constantemente é
procurada por ex-alunos que a vêem como
ponte para um retorno... Qual sua
opinião sobre isso?
JG – Meu sonho é que todos voltem e que
possam estar conosco aqui, numa grande
família. Sinto muitas saudades de
pessoas com quem convivi... Pessoas de
Salvador que foram um dia meus
superiores, pessoas de Goiânia que foram
meus amigos... Como o Bugei é fechado, a
gente acaba se apegando às pessoas do
meio, e quando elas se afastam fazem
muita falta no nosso cotidiano, porque
praticamente vivemos as mesmas coisas e
compartilhamos aprendizados. A
convivência no Bugei é tão saudável que
a companhia um do outro se dá quase em
tempo integral, não apenas no dojō, mas
nos horários de intervalos, em jantares,
nos finais de semana... É uma irmandade
que se mantém unida em todos os
momentos. Multiplicamos as alegrias e
dividimos as lágrimas inevitáveis da
vida, e isso se torna muito forte. Leva
tempo para se adaptar a uma ausência.
Por isso sempre procuro deixar as
pessoas à vontade para que entrem em
contato comigo, porque tenho certeza que
posso e poderei sempre ajudar aqueles
que ainda enxergam no Bugei um caminho
de vida.


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