quinta-feira, 9 de setembro de 2010

 

SBB Entrevista Juliana Galende            


 

 

 

 

Há duas semanas atrás, a Kokeisha da Sociedade Brasileira de Bugei participou de um encontro de reformulação do pensamento do Bugei e passou por uma sabatina de perguntas com membros da velha guarda. Essa velha guarda tem intenção de investir na carreira de Juliana Galende para torna-la um exemplo vivo da cultura do Bugei no Brasil.

Em entrevista exclusiva ao Seinenkai, a Kokeisha explicou um pouco mais de como foi esta importante conversa.

 

SBB - Como foi este encontro que pode muito mudar os caminhos do Bugei no Brasil?

Sem dúvida, este ano que passou foi um ano de muito aprendizado e crescimento para todos nós. Acredito que isso já era de se esperar. Nesta era de globalização é comum, sociologicamente falando, que as pessoas se organizem e tentem, juntas, alcançar aquilo que acreditam. Para mim foi muito importante, pois pude perceber que todos nós temos muito a melhorar e evoluir dentro do aspecto interior.

Esse encontro, pelo que entendi, foi uma maneira de reaproximação e reestruturação dos conceitos tradicionais vividos no Bugei. A idéia do resgate aprimorando dentro de um aspecto antropológico, as origens, o que é certo e errado, a cultura no que tange a maneira de pensar e agir, é o que constrói a base sólida para uma manutenção da tradição como uma verdade empírica e não supositiva.

Hoje em dia o aspecto religioso do Bugei tem sido muito valorizado por pessoas que na década de 60 e 70 estiveram presentes, mas que por um motivo ou outro não compreendiam ou estudavam o que praticavam. Este pensamento de busca, na atualidade, tem contribuído em muito para um resgate interior.

Assim, na minha forma de ver, a SBB e o incessante trabalho realizado em prol da manutenção do O-Chikara despertou uma reaproximação de muitos veteranos antigos do Bugei que hoje buscam um encontro com o espiritual. Tanto eu quanto o kakushin Marcos estamos nos preparando para que esse trabalho de instrução atenda a expectativas geradas em torno das atividades referentes a este caminho.

SBB - A que se deve o fato da SBB ter sido mencionada como um das fontes para esse conhecimento.

Curiosamente, foi uma pergunta que eu e Marcos-san fizemos para Hasegawa Sensei. segundo ele, o caminho seguido pela SBB para chegar aonde chegou foi de pedras e espinhos. O caminho do Bugei nunca foi fácil para ninguém que resolvesse trilha-lo. A rigidez dos pensamentos e direcionamentos que a SBB mantém com os alunos reflete um aprendizado tradicional bem absorvido pelo Shidoshi Jordan quando este ainda era aluno também.

Quando estivemos nesse encontro, pudemos perceber através de histórias contadas o longo caminho que ainda temos que percorrer. Iniciamos um trabalho muito forte a três meses atrás, quando, através de Araki Sensei, os conhecimentos mantidos da SBB foram salientados a importantes pessoas do meio. O Shidoshi e a instituição investiram muito tempo e dinheiro na preparação do pensamento tradicional, e esse estudo mais aprofundado nos proporcionou mudanças na forma de analisar e enxergar as coisas. Hoje conseguimos entender que o caminho de cada uma, tal como a honra de cada um, é um caminho solitário que deve ser construído dia após dia.

SBB - O que foi importante para vocês nessa conversa?

Em primeiro lugar, a valorização que o O-Chikara tem hoje em vários países. Vimos materiais de palestras ministradas em países mais desenvolvidos muitos vídeos, fotos antigas, documentos e desenhos que abordam conceitos estudados na nossa instituição. Pode-se perceber que houve uma comparação pelos mais velhos, e esta demonstrou o alto nível do O-Chikara ensinado na SBB.

Em segundo lugar, a nossa aproximação com antigos veteranos é sem dúvida uma nova chance de reorganização e crescimento da nossa linhagem no Brasil.


SBB - Como você enxerga o crescimento assustador que a SBB teve de um mês para cá?

Existem dois aspectos: um positivo e um negativo.

O negativo é que para se fazer um trabalho bem direcionado aos conceitos tradicionais, não acredito ser possível instruir várias pessoas ao mesmo tempo. Embora empresarialmente falando isso seja uma contradição, pois muitas pessoas seria um aspecto positivo, pelo lado educacional tradicional, não é tanto. Na SBB se preza pela qualidade de ensino. Talvez, se fosse apenas a prática de uma matéria, como é o caso de muitas escolas modernas que visam o esporte, seria mais fácil, mas no caso do Bugei, principalmente praticado na SBB, onde o aluno tem que estudar a fundo conceitos tradicionais da arte em si, evita-se o superficialismo. A própria rigidez quanto ao controle interno de qualidade dos instrutores, onde problemas comportamentais ou perda em exames não são admitidos e levam à exclusão da instituição, demonstra o quão difícil é ter alunos em excesso.

O caminho em si já é muito difícil. Manter-se no Bugei requer grande esforço e dedicação, e não só quanto às práticas, mas de caráter moral também. Muitos bons atletas saíram devido ao pensamento que o Shidoshi ainda mantém de que uma arte marcial não pode ser usada como um espanador — para tirar poeiras apenas. É este pensamento que nesse encontro foi salientado várias vezes.

Para o Kaze no Ryu Bugei, isso posso dizer com toda categoria, de nada vale ter um aprendizado técnico tradicional se o pensamento não for seguido com o mesmo rigor. É literalmente um caminho mantenedor de tradições.

Por outro lado, essa valorização do trabalho desenvolvido pelo Shidoshi há mais de 10 anos é compensador para todos nós, que passamos por muitas tempestades ao seu lado. Como ele mesmo diz, o caminho do Bugei é um caminho para ser admirado por muitos, e seguidos por poucos. É um caminho, segundo Araki Sensei, semelhante à travessia de um grande deserto onde se passa sede, fome, medo, solidão, e não há nada em volta a não ser a sua determinação de seguir em frente. É nesse momento que a orientação de um grande mestre se faz imprescindível.

SBB - Como é a sua relação com os mais velhos do Bugei e do O-Chikara?

Para mim tem sido muito importante, pois a trajetória do Bugei no Brasil foi muito difícil, fato que pretendo relatar em meu próximo livro, ainda em pesquisas. Essas pesquisas têm facilitado a minha aproximação com importantes pessoas que conhecem muito a respeito.

O fato de falar outros idiomas me auxilia nos recentes contatos feitos com outros países. Muitas coisas eu pude perceber nas contradições históricas do Kaze no Ryu Bugei, o que me leva a crer que muitos aperfeiçoamentos técnicos foram efetuados por Ogawa Sensei. Em uma determinada conversa com Araki Sensei procurei esclarecer aspectos que compõe o makimono do Shidoshi Jordan. Araki Sensei acredita que foi uma forma compilada e organizada por Ogawa Sensei.

A genialidade desse homem nos mostra empiricamente que a prática do que hoje chamamos de bugei não é somente um caminho marcial, e sim uma forma de vida.

 

 


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