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Há
duas semanas atrás, a Kokeisha da
Sociedade Brasileira de Bugei participou
de um encontro de reformulação do
pensamento do Bugei e passou por uma
sabatina de perguntas com membros da
velha guarda. Essa velha guarda tem
intenção de investir na carreira de
Juliana Galende para torna-la um exemplo
vivo da cultura do Bugei no Brasil.
Em entrevista exclusiva ao Seinenkai, a
Kokeisha explicou um pouco mais de como
foi esta importante conversa.
SBB
- Como foi este encontro que pode muito
mudar os caminhos do Bugei no Brasil?
Sem dúvida, este ano que passou foi um
ano de muito aprendizado e crescimento
para todos nós. Acredito que isso já
era de se esperar. Nesta era de
globalização é comum,
sociologicamente falando, que as pessoas
se organizem e tentem, juntas, alcançar
aquilo que acreditam. Para mim foi muito
importante, pois pude perceber que todos
nós temos muito a melhorar e evoluir
dentro do aspecto interior.
Esse encontro, pelo que entendi, foi uma
maneira de reaproximação e reestruturação
dos conceitos tradicionais vividos no
Bugei. A idéia do resgate aprimorando
dentro de um aspecto antropológico, as
origens, o que é certo e errado, a
cultura no que tange a maneira de pensar
e agir, é o que constrói a base sólida
para uma manutenção da tradição como
uma verdade empírica e não supositiva.
Hoje em dia o aspecto religioso do Bugei
tem sido muito valorizado por pessoas
que na década de 60 e 70 estiveram
presentes, mas que por um motivo ou
outro não compreendiam ou estudavam o
que praticavam. Este pensamento de
busca, na atualidade, tem contribuído
em muito para um resgate interior.
Assim, na minha forma de ver, a SBB e o
incessante trabalho realizado em prol da
manutenção do O-Chikara despertou uma
reaproximação de muitos veteranos
antigos do Bugei que hoje buscam um
encontro com o espiritual. Tanto eu
quanto o kakushin Marcos estamos nos
preparando para que esse trabalho de
instrução atenda a expectativas
geradas em torno das atividades
referentes a este caminho.

SBB
- A que se deve o fato da SBB ter sido
mencionada como um das fontes para esse
conhecimento.
Curiosamente, foi uma pergunta que eu e
Marcos-san fizemos para Hasegawa Sensei.
segundo ele, o caminho seguido pela SBB
para chegar aonde chegou foi de pedras e
espinhos. O caminho do Bugei nunca foi
fácil para ninguém que resolvesse
trilha-lo. A rigidez dos pensamentos e
direcionamentos que a SBB mantém com os
alunos reflete um aprendizado
tradicional bem absorvido pelo Shidoshi
Jordan quando este ainda era aluno
também.
Quando estivemos nesse encontro, pudemos
perceber através de histórias contadas
o longo caminho que ainda temos que
percorrer. Iniciamos um trabalho muito
forte a três meses atrás, quando,
através de Araki Sensei, os
conhecimentos mantidos da SBB foram
salientados a importantes pessoas do
meio. O Shidoshi e a instituição
investiram muito tempo e dinheiro na
preparação do pensamento tradicional,
e esse estudo mais aprofundado nos
proporcionou mudanças na forma de
analisar e enxergar as coisas. Hoje
conseguimos entender que o caminho de
cada uma, tal como a honra de cada um,
é um caminho solitário que deve ser
construído dia após dia.

SBB
- O que foi importante para vocês nessa
conversa?
Em primeiro lugar, a valorização que o
O-Chikara tem hoje em vários países.
Vimos materiais de palestras ministradas
em países mais desenvolvidos muitos vídeos,
fotos antigas, documentos e desenhos que
abordam conceitos estudados na nossa
instituição. Pode-se perceber que
houve uma comparação pelos mais
velhos, e esta demonstrou o alto nível
do O-Chikara ensinado na SBB.
Em segundo lugar, a nossa aproximação
com antigos veteranos é sem dúvida uma
nova chance de reorganização e
crescimento da nossa linhagem no Brasil.
SBB - Como você enxerga o
crescimento assustador que a SBB teve de
um mês para cá?
Existem dois aspectos: um positivo e um
negativo.
O
negativo é que para se fazer um
trabalho bem direcionado aos conceitos
tradicionais, não acredito ser possível
instruir várias pessoas ao mesmo tempo.
Embora empresarialmente falando isso
seja uma contradição, pois muitas
pessoas seria um aspecto positivo, pelo
lado educacional tradicional, não é
tanto. Na SBB se preza pela qualidade de
ensino. Talvez, se fosse apenas a prática
de uma matéria, como é o caso de
muitas escolas modernas que visam o
esporte, seria mais fácil, mas no caso
do Bugei, principalmente praticado na
SBB, onde o aluno tem que estudar a
fundo conceitos tradicionais da arte em
si, evita-se o superficialismo. A própria
rigidez quanto ao controle interno de
qualidade dos instrutores, onde
problemas comportamentais ou perda em
exames não são admitidos e levam à
exclusão da instituição, demonstra o
quão difícil é ter alunos em excesso.
O caminho em si já é muito difícil.
Manter-se no Bugei requer grande esforço
e dedicação, e não só quanto às práticas,
mas de caráter moral também. Muitos
bons atletas saíram devido ao
pensamento que o Shidoshi ainda mantém
de que uma arte marcial não pode ser
usada como um espanador — para tirar
poeiras apenas. É este pensamento que
nesse encontro foi salientado várias
vezes.
Para o Kaze no Ryu Bugei, isso posso
dizer com toda categoria, de nada vale
ter um aprendizado técnico tradicional
se o pensamento não for seguido com o
mesmo rigor. É literalmente um caminho
mantenedor de tradições.
Por outro lado, essa valorização do
trabalho desenvolvido pelo Shidoshi há
mais de 10 anos é compensador para
todos nós, que passamos por muitas
tempestades ao seu lado. Como ele mesmo
diz, o caminho do Bugei é um caminho
para ser admirado por muitos, e seguidos
por poucos. É um caminho, segundo Araki
Sensei, semelhante à travessia de um
grande deserto onde se passa sede, fome,
medo, solidão, e não há nada em volta
a não ser a sua determinação de
seguir em frente. É nesse momento que a
orientação de um grande mestre se faz
imprescindível.

SBB
- Como é a sua relação com os mais
velhos do Bugei e do O-Chikara?
Para mim tem sido muito importante, pois
a trajetória do Bugei no Brasil foi
muito difícil, fato que pretendo
relatar em meu próximo livro, ainda em
pesquisas. Essas pesquisas têm
facilitado a minha aproximação com
importantes pessoas que conhecem muito a
respeito.
O fato de falar outros idiomas me
auxilia nos recentes contatos feitos com
outros países. Muitas coisas eu pude
perceber nas contradições históricas
do Kaze no Ryu Bugei, o que me leva a
crer que muitos aperfeiçoamentos técnicos
foram efetuados por Ogawa Sensei. Em uma
determinada conversa com Araki Sensei
procurei esclarecer aspectos que compõe
o makimono do Shidoshi Jordan. Araki
Sensei acredita que foi uma forma
compilada e organizada por Ogawa Sensei.
A genialidade desse homem nos mostra
empiricamente que a prática do que hoje
chamamos de bugei não é somente um
caminho marcial, e sim uma forma de
vida.
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