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Ishino Shihan concedeu esta
entrevista na sede central da SBB (Sociedade Brasileira de Bugei) numa
segunda-feira, pela manhã.
Sorridente e bem disposto, o
respeitável mestre japonês respondeu às perguntas do ex-professor de Aikidô
Thiago Moraes, que ministra aulas nas escolas Budokan e Keikokan, em Uberlândia
— MG. Moraes veio a Goiânia conhecer o Shihan pessoalmente e ambos
conversaram em japonês a respeito de Bujutsu, do Shidoshi Jordan e, é claro,
muita história e cultura japonesa (Ishino leciona diariamente língua e cultura
japonesas na SBB).
THIAGO MORAES: Como o Sr.
explicaria, em linhas gerais, a ascensão do Bujutsu no Japão?
ISHINO HIROTOSHI: Existia uma
diferença no estilo de vida dos europeus e dos asiáticos e japoneses. Na
Europa, as pessoas se dedicavam bastante à caça e os hábitos alimentares
giravam em torno disso. Dedicou-se, então, ao uso de armas para caça.
O Japão, por outro lado, era
dividido em territórios relativamente auto-suficientes e mais ou menos
esparsos. Dedicavam-se à plantação, especialmente de arroz e à pesca. Antes
do cultivo do arroz, a população era nômade e vivia basicamente de frutas
silvestres e pesca. A plantação fez com que se fixassem em determinados
locais. Apesar de que geralmente tinham uma pequena criação de animais para
abate, eram mais agricultores do que caçadores. Nessa época, havia guardas nos
limites dos territórios, mas com a finalidade de proteção contra animais. Não
tinham ainda a necessidade de proteção contra outros territórios ou tropas.
Com o tempo, os territórios
desenvolveram-se e, logicamente, cresceram. Assim, os limites entre esses territórios
começaram a formar fronteiras. Em algum tempo, a população de um local começou
a roubar arroz de outro e isso obrigou cada território a estabelecer sua
guarda, desta vez com a finalidade de segurança.
Logo em seguida, surgiria a
classe dos samurai.
Enquanto na Europa os nobres
participavam de guerras e lutas; no Japão, os nobres e os guerreiros pertenciam
a classes diferentes e apenas esses últimos participavam efetivamente dos
combates.
De 1200 a 1600, o Japão estava
dividido em diversos estados, cada qual com seu daimyo (espécie de rei dos
samurai, guardadas as devidas diferenças do sistema monárquico e do sistema
referido). Com o crescimento desses territórios, começou a existir fronteiras
e iniciaram-se guerras entre os vizinhos.
Em 1500, Oda Nobunaga, o daimyo
de Owari no Kuni (atual Nagoya) começou a desenvolver estratégias para aplicações
nas guerras. Como exemplo, podemos citar o fato de que ele conseguia certas
armas de fogo vindas de Portugal e não precisava contar apenas com o número de
guerreiros. Essas armas, na verdade, eram uma espécie de mosquete, que
naturalmente precisavam de fogo para ser disparadas. Essas armas tinham a
capacidade de um tiro apenas e tinham que ser recarregadas logo em seguida. Para
evitar a aproximação das tropas inimigas no intervalo de recarga, Oda Nobunaga
dispunha filas de guerreiros armados que alternavam o tempo de tiro e de
recarga, e atrás desses posicionava diversos samurai portando armamento mais
peculiar da época.
Oda Nobunaga era muito
inteligente, mas impaciente. Conseguiu expandir bastante seus territórios e
controlava quase todo o Japão. À medida que crescia, podia dispor então de um
outro método: ameaçava um território vizinho (cujas tropas eram, em geral,
menores) de forma que, caso não se submetessem à condição de subservientes,
entraria em guerra com tal estado. Oda Nobunaga morre em 1582.
Tokugawa Ieyasu venceu a batalha
de Sekigahara (1600) e tornou-se xogum. Tokugawa transfere a capital de Osaka
para Edo (atual Tóquio) e vem a desenvolver um sistema de governo especial,
chamado 'sanninkoutai'. Nesse sistema, uma vez por ano os samurai do Japão todo
iam a Edo reverenciar o xogum. Entretanto, naquela época as viagens levavam
muito tempo, a depender do ponto de origem. Para que tenhamos uma idéia da
dificuldade de viajar naquela época, basta imaginarmos que de Hiroshima a Edo
levava-se cerca de 25 dias. Assim, Tokugawa fornecia suprimentos para a
concretização dessas viagens. Ao analisarmos que o número de viajantes era
relativamente grande, observamos que os custos tornaram-se elevados. Por isso, o
Estado não pôde investir em armamentos nessa época.
Desde 1200, então, existe o
estudo de técnicas voltadas para a guerra, ainda que no início não houvesse
distinção de matérias, artes ou estilos (Ryu). O uso de armas também foi
desenvolvido nesse período e o Bugei se desenvolve. Surge assim o termo Bujutsu,
como “arte da guerra” que esses estados tiveram para manter sua integridade
e expandir-se.
TM: Como o Sr. vê o conhecimento
cultural do Bugei na Sociedade Brasileira de Bugei?
IH: Hoje, no Japão, existem
poucos sucessores (Kokeisha) do Bujutsu. O que existem, na verdade, são
esportes. Ter a tradição guardada é raro, mesmo no Japão. Quando vi o nível
da KyuDoShin Bugei Kaikan, me assustei muito, principalmente pela etiqueta (Reigishiki).
Não se vê isso mais no Japão. O japonês olha também a etiqueta e boas
maneiras (Reigi to Saho) como tradição. Apenas os japoneses bastante
tradicionais têm esse tipo de etiqueta. Exceto esse caso, é realmente difícil
ver a perpetuação da tradição. Como o que existe na maioria do Japão é
esporte, não se vê a tradição.
Eu estudei essa etiqueta antiga
com a minha família. Muitas escolas no Japão pregam estar praticando Bujutsu,
mas na verdade praticam Budo.
Budo é mais fácil. Bujutsu
estuda a visão real da guerra.
Bunburyodo significa "a pena
e a espada são uma coisa só". Ao contrário do que os ocidentais
geralmente pensam, o Jutsu é muito mais abrangente. Bu é o treinamento do
corpo, o militarismo; Bun se refere ao cultivo do sentimento. Bunburyodo
expressa a sabedoria de ambos os estudos da técnica e do sentimento. Se não
houver o estudo do aspecto do sentimento, a pessoa se torna agressiva e
violenta.
TM: Na Sociedade Brasileira de
Bugei, a tradição é mantida fielmente?
IH: Certamente.
TM: O Shidoshi Jordan Augusto vê
o Sr. como um pai e tem plena confiança na sua pessoa. Como o Sr. vê isso?
IH: O Shidoshi tem um
conhecimento fantástico de inúmeras coisas, desde bujutsu, bonsai, reigishiki,
etc. e as ensina. O Shidoshi está junto comigo e está aprendendo ainda mais
acerca da língua japonesa e da cultura japonesa, sempre com muito respeito e
etiqueta. Tenho sempre muito prazer em estar com o Shidoshi.
TM: O Sr. incentivou o Shidoshi a
conseguir o Okudensho (certificado de Okuden) e foi o Sr. quem ajudou a
consegui-lo mediante a sua influência no Japão. Por que isso é importante?
IH: De uma forma simples, Okuden
é o estágio no qual o praticante conhece e domina os segredos de um estilo.
Oku significa fundo; Den significa transmitir, informar. Ou seja, o portador de
um Okudensho detém os segredos das técnicas em um alto grau. O Okudensho
certifica também que o portador é um portador da tradição (Kokeisha). Por
isso é muito importante.
TM: O Sr. é a única pessoa em
quem o Shidoshi confia. Como o Sr. conseguiu isso?
IH: Não sei. Tem muito a ver com
o sentimento. Eu não gosto de mentiras e penso que isso faz com que o Shidoshi
acredite em mim. O Shidoshi quer estudar ainda mais sobre coisas as quais eu sei
e tenho enorme prazer nisso.
TM: O Shidoshi tem o desejo de
viver junto com o Sr. até o fim de sua vida. Como o Sr. vê isso?
IH:
Me sinto honrado. É muito importante esse carinho e tenho muita gratidão a
ele.
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