terça-feira, 6 de janeiro de 2009

 

SBB Entrevista Ishino Shihan             


Ishino Shihan concedeu esta entrevista na sede central da SBB (Sociedade Brasileira de Bugei) numa segunda-feira, pela manhã.

Sorridente e bem disposto, o respeitável mestre japonês respondeu às perguntas do ex-professor de Aikidô Thiago Moraes, que ministra aulas nas escolas Budokan e Keikokan, em Uberlândia — MG. Moraes veio a Goiânia conhecer o Shihan pessoalmente e ambos conversaram em japonês a respeito de Bujutsu, do Shidoshi Jordan e, é claro, muita história e cultura japonesa (Ishino leciona diariamente língua e cultura japonesas na SBB).

 

THIAGO MORAES: Como o Sr. explicaria, em linhas gerais, a ascensão do Bujutsu no Japão?

ISHINO HIROTOSHI: Existia uma diferença no estilo de vida dos europeus e dos asiáticos e japoneses. Na Europa, as pessoas se dedicavam bastante à caça e os hábitos alimentares giravam em torno disso. Dedicou-se, então, ao uso de armas para caça.

O Japão, por outro lado, era dividido em territórios relativamente auto-suficientes e mais ou menos esparsos. Dedicavam-se à plantação, especialmente de arroz e à pesca. Antes do cultivo do arroz, a população era nômade e vivia basicamente de frutas silvestres e pesca. A plantação fez com que se fixassem em determinados locais. Apesar de que geralmente tinham uma pequena criação de animais para abate, eram mais agricultores do que caçadores. Nessa época, havia guardas nos limites dos territórios, mas com a finalidade de proteção contra animais. Não tinham ainda a necessidade de proteção contra outros territórios ou tropas.

Com o tempo, os territórios desenvolveram-se e, logicamente, cresceram. Assim, os limites entre esses territórios começaram a formar fronteiras. Em algum tempo, a população de um local começou a roubar arroz de outro e isso obrigou cada território a estabelecer sua guarda, desta vez com a finalidade de segurança.

Logo em seguida, surgiria a classe dos samurai.

Enquanto na Europa os nobres participavam de guerras e lutas; no Japão, os nobres e os guerreiros pertenciam a classes diferentes e apenas esses últimos participavam efetivamente dos combates.

De 1200 a 1600, o Japão estava dividido em diversos estados, cada qual com seu daimyo (espécie de rei dos samurai, guardadas as devidas diferenças do sistema monárquico e do sistema referido). Com o crescimento desses territórios, começou a existir fronteiras e iniciaram-se guerras entre os vizinhos.

Em 1500, Oda Nobunaga, o daimyo de Owari no Kuni (atual Nagoya) começou a desenvolver estratégias para aplicações nas guerras. Como exemplo, podemos citar o fato de que ele conseguia certas armas de fogo vindas de Portugal e não precisava contar apenas com o número de guerreiros. Essas armas, na verdade, eram uma espécie de mosquete, que naturalmente precisavam de fogo para ser disparadas. Essas armas tinham a capacidade de um tiro apenas e tinham que ser recarregadas logo em seguida. Para evitar a aproximação das tropas inimigas no intervalo de recarga, Oda Nobunaga dispunha filas de guerreiros armados que alternavam o tempo de tiro e de recarga, e atrás desses posicionava diversos samurai portando armamento mais peculiar da época.

Oda Nobunaga era muito inteligente, mas impaciente. Conseguiu expandir bastante seus territórios e controlava quase todo o Japão. À medida que crescia, podia dispor então de um outro método: ameaçava um território vizinho (cujas tropas eram, em geral, menores) de forma que, caso não se submetessem à condição de subservientes, entraria em guerra com tal estado. Oda Nobunaga morre em 1582.

Tokugawa Ieyasu venceu a batalha de Sekigahara (1600) e tornou-se xogum. Tokugawa transfere a capital de Osaka para Edo (atual Tóquio) e vem a desenvolver um sistema de governo especial, chamado 'sanninkoutai'. Nesse sistema, uma vez por ano os samurai do Japão todo iam a Edo reverenciar o xogum. Entretanto, naquela época as viagens levavam muito tempo, a depender do ponto de origem. Para que tenhamos uma idéia da dificuldade de viajar naquela época, basta imaginarmos que de Hiroshima a Edo levava-se cerca de 25 dias. Assim, Tokugawa fornecia suprimentos para a concretização dessas viagens. Ao analisarmos que o número de viajantes era relativamente grande, observamos que os custos tornaram-se elevados. Por isso, o Estado não pôde investir em armamentos nessa época.

Desde 1200, então, existe o estudo de técnicas voltadas para a guerra, ainda que no início não houvesse distinção de matérias, artes ou estilos (Ryu). O uso de armas também foi desenvolvido nesse período e o Bugei se desenvolve. Surge assim o termo Bujutsu, como “arte da guerra” que esses estados tiveram para manter sua integridade e expandir-se.

 

TM: Como o Sr. vê o conhecimento cultural do Bugei na Sociedade Brasileira de Bugei?

IH: Hoje, no Japão, existem poucos sucessores (Kokeisha) do Bujutsu. O que existem, na verdade, são esportes. Ter a tradição guardada é raro, mesmo no Japão. Quando vi o nível da KyuDoShin Bugei Kaikan, me assustei muito, principalmente pela etiqueta (Reigishiki). Não se vê isso mais no Japão. O japonês olha também a etiqueta e boas maneiras (Reigi to Saho) como tradição. Apenas os japoneses bastante tradicionais têm esse tipo de etiqueta. Exceto esse caso, é realmente difícil ver a perpetuação da tradição. Como o que existe na maioria do Japão é esporte, não se vê a tradição.

Eu estudei essa etiqueta antiga com a minha família. Muitas escolas no Japão pregam estar praticando Bujutsu, mas na verdade praticam Budo.

Budo é mais fácil. Bujutsu estuda a visão real da guerra.

Bunburyodo significa "a pena e a espada são uma coisa só". Ao contrário do que os ocidentais geralmente pensam, o Jutsu é muito mais abrangente. Bu é o treinamento do corpo, o militarismo; Bun se refere ao cultivo do sentimento. Bunburyodo expressa a sabedoria de ambos os estudos da técnica e do sentimento. Se não houver o estudo do aspecto do sentimento, a pessoa se torna agressiva e violenta.

 

TM: Na Sociedade Brasileira de Bugei, a tradição é mantida fielmente?

IH: Certamente.

 

TM: O Shidoshi Jordan Augusto vê o Sr. como um pai e tem plena confiança na sua pessoa. Como o Sr. vê isso?

IH: O Shidoshi tem um conhecimento fantástico de inúmeras coisas, desde bujutsu, bonsai, reigishiki, etc. e as ensina. O Shidoshi está junto comigo e está aprendendo ainda mais acerca da língua japonesa e da cultura japonesa, sempre com muito respeito e etiqueta. Tenho sempre muito prazer em estar com o Shidoshi.

 

TM: O Sr. incentivou o Shidoshi a conseguir o Okudensho (certificado de Okuden) e foi o Sr. quem ajudou a consegui-lo mediante a sua influência no Japão. Por que isso é importante?

IH: De uma forma simples, Okuden é o estágio no qual o praticante conhece e domina os segredos de um estilo. Oku significa fundo; Den significa transmitir, informar. Ou seja, o portador de um Okudensho detém os segredos das técnicas em um alto grau. O Okudensho certifica também que o portador é um portador da tradição (Kokeisha). Por isso é muito importante.

 

TM: O Sr. é a única pessoa em quem o Shidoshi confia. Como o Sr. conseguiu isso?

IH: Não sei. Tem muito a ver com o sentimento. Eu não gosto de mentiras e penso que isso faz com que o Shidoshi acredite em mim. O Shidoshi quer estudar ainda mais sobre coisas as quais eu sei e tenho enorme prazer nisso.

 

TM: O Shidoshi tem o desejo de viver junto com o Sr. até o fim de sua vida. Como o Sr. vê isso?

IH: Me sinto honrado. É muito importante esse carinho e tenho muita gratidão a ele.

 


  Topo da Página Voltar Home 

 

As informações contidas neste web site são de uso exclusivo da Sociedade Brasileira de Bugei Ltda. O uso indiscriminado de textos, ensaios, artigos ou imagens com a marca d'água sem prévia autorização dos autores é proibido, sob pena previstas pelas leis de copyright.

2009 © Sociedade Brasileira de Bugei - Todos os direitos reservados - All rights reserved
bugei@bugei.com.br  [Contato - Contact Us]

SOBRE A SBB

 
Quem somos
Currículos
Atuação e Projetos
Corpo Jurídico e Executivo
CNKB
Escolas
Contato
Galeria

SOBRE O BUGEI

 

Origens e Definição

Kaze no Ryu Bugei

Bugei no Brasil

Ogawa Ryu ou Kaze no Ryu?

Disciplinas Físicas

Disciplinas Mentais

Grandes Nomes do Koryu

Japonês 

Textos do Shidoshi Jordan Augusto 

Shodo - caligafia japonesa de Shidoshi Jordan

artigos disponíveis






 

 

Artigos Específicos sobre Koryu

Clique Aqui

 

MAIS...

Cursos e Seminários Courses and Seminary

Textos, Contos e Crônicas

Cultura e Tradição Japonesas

Documentos Tradicionais

Makimono - Confira Aqui!

Livros, Vídeos e Outros Produtos

NEW PROJECT 2008 Representative person

Hall of Fame 2007 e 2008

CD Jordan Augusto y Pedro Lucena

Bugei na Revista Budo International