quinta-feira, 9 de setembro de 2010

 

SBB Entrevista Giovanni Nunes            


 

   

Giovanni Nunes fala de temas polêmicos da SBB

 

 

A SBB entrevistou Giovanni Nunes através de uma conversa descontraída. Giovanni, que hoje se especializa na arte do O-Chikara, pela primeira vez relata acontecimentos que mudaram os rumos e a trajetória da SBB.

Indicado para um dos maiores cargos referentes à essa área, Giovanni foi o anfitrião do último importante jantar entre a SBB e professores do meio acadêmico, que em parceria com sede central programam a nova fase para a instituição.

Nessa entrevista, o mesmo ainda anuncia para 2005 um livro escrito em parceria com Kokeisha Juliana que relatará, entre outros, toda a trajetória da SBB nestes dez anos de história.

SBB - Como está sua vida nesta nova fase, que como você nos disse, era tudo que você esperava para este segundo semestre de 2004?

No Bugei tudo é vivido com muita intensidade. Posso dizer que hoje estou em uma fase de muito trabalho, tanto na minha vida pessoal quanto na profissional. Digo pessoal quando me referindo ao Bugei. Mas nem sempre foi assim. Ainda no início deste ano, conversando com o Shidoshi em um dia em que eu estava muito nervoso, terminei compreendendo uma série de acontecimentos trágicos e demos muitas risadas. Foi importante, pois pude ver por um ângulo diferente. Hoje penso como essa conversa foi legal. Como sou professor de Química do ensino médio, percebo a importância da presença da pessoa certa no momento exato. Estava comentando isto nestes dias com a Senhora Satiko, esposa de Hasegawa Sensei, que muito tem me orientado nas pesquisas com O-Chikara. Foi um ano em que pude conhecer melhor o ser humano e ver as suas necessidades. Bem... Pelo menos foi assim que Sra. Satiko me fez ver em uma de suas orientações.


SBB - Suas atividades na SBB têm sido muito ativas ultimamente, e sua orientação para muitos é fundamental no que se refere a uma boa compreensão do caminho. Explique-nos mais a respeito.

Acredito que toda pessoa tem algo de bom a oferecer e é esse lado bom que tento salientar em quem convive no interior da SBB. Posso dizer com propriedade que todos nós precisamos de orientação. Neste ano que passou vivemos tensos momentos, e pude ver e compreender que é na adversidade que se vê o homem. É fácil ser telespectador dos problemas alheios, mas quando estes se manifestam em nossas vidas, ou quando somos convidados a participar de momentos difíceis, geralmente o cenário se transforma e muitas coisas surgem diante de nós deixando nossa visão turva e embaçada. Para mim, hoje compreendo dessa maneira... Enxergando por um prisma diferente o caráter de alguém.

 


Admiro a direção da SBB que de cabeça erguida enfrentou os problemas deixados por antigos dirigentes e deu exemplos de honestidade, caráter e moral, não se deixando abalar nem tão pouco permitindo que estes, com suas atitudes, tivessem conseqüências judiciais em suas vidas. Pude ver através de explicações do próprio shidoshi que não devemos culpar, e sim resolver. Posso afirmar que é difícil suportar traições e ainda assim proteger tais protagonistas. Possuir sentimentos como giri e ninjo e os colocar em prática em momentos caóticos é diferente de falar que os possui, como se fosse um prêmio a ser exibido. Vi de perto, em reuniões que participei, quando todas as evidências apontavam essas pessoas para um fim trágico, a intervenção do shidoshi evitar catástrofes. De maneira simples me convenceu de que não adiantaria nada daquilo, que para pessoas assim, viver com o fardo de ser um traidor era a pior punição. Hoje, me sinto feliz em ver que no meio de toda a tempestade a preocupação da SBB e do shidoshi era com os pais desses protagonistas, que em alguns momentos ajudaram no crescimento do Bugei no Brasil. Seu giri era com eles, e era com eles que estava quitando sua obrigação. Vi como uma opinião embasada e munida de verdade pode mudar toda uma situação.

 

SBB - Na última semana foi sua outorga de indicação para um importante cargo, que contou com a participação de ilustres amigos do Shidoshi na comemoração. Soubemos que se ofereceram para orientá-lo no que fosse necessário. Como se sente agora tendo essa conquista?

Muitas vezes passamos por momentos difíceis ou complicados na vida, mas que antecedem grandes felicidades. Sinto que todas as provações que passei no Bugei me proporcionaram aprendizados que contribuíram para esse momento. É o que chamamos de processos para maturidade e experiência. Sempre busquei orientação dos meus superiores em tudo o que vivi, para não me perder em meus próprios demônios interiores. É preciso ser humilde e reconhecer a necessidade de buscar ajuda com um irmão ou mais velho para não cair nas armadilhas das situações. E quando a gente se permite melhorar e ouvir conselhos, muita coisa se abre para esclarecimentos. A verdade é uma coisa que sempre deve ser buscada, mas quando uma pessoa se acha possuidora ou dona dela, esta se esvai. Acredito que a verdade esteja nos momentos dessa busca. Não há como se julgar detentor de algo que possui tantas versões e variações. Ter amigos e orientadores é um privilégio, nos auxilia no despertar de novas formas de enxergar o caminho do Bugei. Tolo aquele que se julga auto-suficiente, pois quando se cai ou tropeça, ninguém está para estender a mão. Por isso me isto me sinto honrado em ter pessoas tão importantes dispostas a me instruir. A impetuosidade é inimiga da sapiência. Sei que esse é um cargo muito importante para a tradição do Bugei, mas que envolve muita responsabilidade também. Ter vaidade por isso seria assinar a minha própria sentença.


SBB - Percebemos com essa resposta que, segundo sua opinião, o caminho do Bugei é de grande dificuldade. Para o senhor isso justifica as intensas mudanças estruturais que ocorreram ou que alteraram a trajetória da instituição?

Certamente. Cada decisão que a instituição toma é muito bem pensada. Além disso, por ter como pilares os pensamentos tradicionais, sua resposta a determinadas situações é rigorosa. No Bugei não há espaço para o meio-termo. No último curso que participei, a respeito de contenção disciplinar e orientação, isso ficou bastante evidenciado. O olhar do aluno é diferente do prisma do professor. Para um aluno que se encontra em processo de correção, há sempre argumentos de não entendimento ou outras interpretações a respeito de um fato. É muito difícil se ver a coragem de assumir um erro. As pessoas arriscam, mas na hora do vamos ver não querem pagar o preço da escolha. Isso é da cultura do nosso país, a velha mania de querer sair pela tangente. Só que o Bugei não aceita tangentes. Para nós isso agrava a situação. E quando um aluno é responsabilizado pelos seus atos e é convidado a se retirar, é comum ele se justificar aos outros se colocando como vítima de uma injustiça. Acredito que seja até o normal da natureza humana. Aceitar as nossas falhas sem culpar os outros é um processo doloroso, pois envolve o reconhecimento de que determinadas situações são conseqüências de erros e atitudes tomadas por nós. Afinal, nós colhemos o que plantamos... No “frigir dos ovos”, no final das contas, todos se sentem traídos. Nunca ouvir falar de alguém que fosse digno o suficiente para esclarecer à sociedade que foi destituído por justa causa. Há sempre um carrasco na história. Qual a instituição ou empresa que nunca passou por isso?

Muitas mudanças ocorreram na instituição, e foram para melhor. A SBB nunca andou para trás, mesmo com todos os problemas que enfrentou. Como eu disse antes, sempre andou com a cabeça erguida. Aquele que não sabe o que procura, não reconhece o que encontra, e a instituição sempre esteve muito bem direcionada.

Muitos passaram pela SBB e muitos ainda vão passar. A vida é assim. O destino de cada pessoa é único, e seria inocência achar que todos ficariam para sempre. Prefiro pensar que existem outras etapas para essas pessoas cumprirem em outros locais, e torço para que o que puderam aprender na instituição as ajudem na busca de uma felicidade.

Fique feliz nesses últimos dias em receber alunos que retornaram à instituição depois de um tempo afastados. Ao mesmo tempo, vejo que a SBB está sempre em novos ciclos. E acho essa reciclagem de extrema importância. São pessoas que com certeza contribuirão para aprendizados de todos nós.


SBB - E a respeito desse livro? Os comentários estão correndo...

Espero que bons, pelo menos (risos).


SBB - O que podemos saber em primeira mão?

Bem... Sentimos a necessidade de escrever a respeito dos bastidores dessa escola de Bugei. O livro trará a história do Bugei no Brasil e, conseqüentemente, a história do Shidoshi Jordan. Embora não tenha participado de todos os 10 anos da instituição, pois não tenho isso de casa, estou juntando materiais e depoimentos a respeito. É um trabalho de pesquisa, pode-se dizer. Quem está do lado de fora não tem idéia de como foi a trajetória do Shidoshi Jordan para que a SBB chegasse a ser o que é hoje. Na verdade, não é um projeto novo. Acredito que outras pessoas tenham tido essa idéia também, mas o fato é que nenhuma seguiu adiante. Estamos coletando documentos, entrevistando os amigos mais próximos do Shidoshi, seus colegas de treinamento, enfim, pessoas que marcaram esse processo, como Takeshi Hasegawa, Araki Sensei, Michie Hosokawa, Paulo Hideyoshi, Masa, Sadao, Luiz Yamada, Hidetaka Sensei, e outros... Isso é de grande oportunidade para mim, pois pude ter um contato com essas pessoas tão importantes para a história do Bugei. As vejo como lendas vivas, para falar a verdade.

 


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