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Giovanni
Nunes fala de temas polêmicos da SBB
A
SBB entrevistou Giovanni Nunes através
de uma conversa descontraída. Giovanni,
que hoje se especializa na arte do
O-Chikara, pela primeira vez relata
acontecimentos que mudaram os rumos e a
trajetória da SBB.
Indicado para um dos maiores cargos
referentes à essa área, Giovanni foi o
anfitrião do último importante jantar
entre a SBB e professores do meio acadêmico,
que em parceria com sede central
programam a nova fase para a instituição.
Nessa entrevista, o mesmo ainda anuncia
para 2005 um livro escrito em parceria
com Kokeisha Juliana que relatará,
entre outros, toda a trajetória da SBB
nestes dez anos de história.
SBB
- Como está sua vida nesta nova fase,
que como você nos disse, era tudo que
você esperava para este segundo
semestre de 2004?
No Bugei tudo é vivido com muita
intensidade. Posso dizer que hoje estou
em uma fase de muito trabalho, tanto na
minha vida pessoal quanto na
profissional. Digo pessoal quando me
referindo ao Bugei. Mas nem sempre foi
assim. Ainda no início deste ano,
conversando com o Shidoshi em um dia em
que eu estava muito nervoso, terminei
compreendendo uma série de
acontecimentos trágicos e demos muitas
risadas. Foi importante, pois pude ver
por um ângulo diferente. Hoje penso
como essa conversa foi legal. Como sou
professor de Química do ensino médio,
percebo a importância da presença da
pessoa certa no momento exato. Estava
comentando isto nestes dias com a
Senhora Satiko, esposa de Hasegawa
Sensei, que muito tem me orientado nas
pesquisas com O-Chikara. Foi um ano em
que pude conhecer melhor o ser humano e
ver as suas necessidades. Bem... Pelo
menos foi assim que Sra. Satiko me fez
ver em uma de suas orientações.
SBB - Suas atividades na SBB têm
sido muito ativas ultimamente, e sua
orientação para muitos é fundamental
no que se refere a uma boa compreensão
do caminho. Explique-nos mais a
respeito.
Acredito que toda pessoa tem algo de bom
a oferecer e é esse lado bom que tento
salientar em quem convive no interior da
SBB. Posso dizer com propriedade que
todos nós precisamos de orientação.
Neste ano que passou vivemos tensos
momentos, e pude ver e compreender que
é na adversidade que se vê o homem. É
fácil ser telespectador dos problemas
alheios, mas quando estes se manifestam
em nossas vidas, ou quando somos
convidados a participar de momentos
difíceis, geralmente o cenário se
transforma e muitas coisas surgem diante
de nós deixando nossa visão turva e
embaçada. Para mim, hoje compreendo
dessa maneira... Enxergando por um
prisma diferente o caráter de alguém.

Admiro a direção da SBB que de cabeça erguida enfrentou os
problemas deixados por antigos dirigentes e deu exemplos de
honestidade, caráter e moral, não se deixando abalar nem tão pouco
permitindo que estes, com suas atitudes, tivessem conseqüências
judiciais em suas vidas. Pude ver através de explicações do
próprio shidoshi que não devemos culpar, e sim resolver. Posso
afirmar que é difícil suportar traições e ainda assim proteger
tais protagonistas. Possuir sentimentos como giri e ninjo e os colocar
em prática em momentos caóticos é diferente de falar que os possui,
como se fosse um prêmio a ser exibido. Vi de perto, em reuniões que
participei, quando todas as evidências apontavam essas pessoas para
um fim trágico, a intervenção do shidoshi evitar catástrofes. De
maneira simples me convenceu de que não adiantaria nada daquilo, que
para pessoas assim, viver com o fardo de ser um traidor era a pior
punição. Hoje, me sinto feliz em ver que no meio de toda a
tempestade a preocupação da SBB e do shidoshi era com os pais desses
protagonistas, que em alguns momentos ajudaram no crescimento do Bugei
no Brasil. Seu giri era com eles, e era com eles que estava quitando
sua obrigação. Vi como uma opinião embasada e munida de verdade
pode mudar toda uma situação.
SBB
- Na última semana foi sua outorga de indicação para um
importante cargo, que contou com a participação de ilustres
amigos do Shidoshi na comemoração. Soubemos que se ofereceram
para orientá-lo no que fosse necessário. Como se sente agora
tendo essa conquista?
Muitas vezes passamos por momentos difíceis ou complicados na
vida, mas que antecedem grandes felicidades. Sinto que todas as
provações que passei no Bugei me proporcionaram aprendizados que
contribuíram para esse momento. É o que chamamos de processos
para maturidade e experiência. Sempre busquei orientação dos
meus superiores em tudo o que vivi, para não me perder em meus próprios
demônios interiores. É preciso ser humilde e reconhecer a
necessidade de buscar ajuda com um irmão ou mais velho para não
cair nas armadilhas das situações. E quando a gente se permite
melhorar e ouvir conselhos, muita coisa se abre para
esclarecimentos. A verdade é uma coisa que sempre deve ser
buscada, mas quando uma pessoa se acha possuidora ou dona dela,
esta se esvai. Acredito que a verdade esteja nos momentos dessa
busca. Não há como se julgar detentor de algo que possui tantas
versões e variações. Ter amigos e orientadores é um privilégio,
nos auxilia no despertar de novas formas de enxergar o caminho do
Bugei. Tolo aquele que se julga auto-suficiente, pois quando se
cai ou tropeça, ninguém está para estender a mão. Por isso me
isto me sinto honrado em ter pessoas tão importantes dispostas a
me instruir. A impetuosidade é inimiga da sapiência. Sei que
esse é um cargo muito importante para a tradição do Bugei, mas
que envolve muita responsabilidade também. Ter vaidade por isso
seria assinar a minha própria sentença.

SBB - Percebemos com essa resposta que, segundo sua opinião, o
caminho do Bugei é de grande dificuldade. Para o senhor isso
justifica as intensas mudanças estruturais que ocorreram ou que
alteraram a trajetória da instituição?
Certamente. Cada decisão que a instituição toma é muito bem
pensada. Além disso, por ter como pilares os pensamentos
tradicionais, sua resposta a determinadas situações é rigorosa.
No Bugei não há espaço para o meio-termo. No último curso que
participei, a respeito de contenção disciplinar e orientação,
isso ficou bastante evidenciado. O olhar do aluno é diferente do
prisma do professor. Para um aluno que se encontra em processo de
correção, há sempre argumentos de não entendimento ou outras
interpretações a respeito de um fato. É muito difícil se ver a
coragem de assumir um erro. As pessoas arriscam, mas na hora do
vamos ver não querem pagar o preço da escolha. Isso é da
cultura do nosso país, a velha mania de querer sair pela
tangente. Só que o Bugei não aceita tangentes. Para nós isso
agrava a situação. E quando um aluno é responsabilizado pelos
seus atos e é convidado a se retirar, é comum ele se justificar
aos outros se colocando como vítima de uma injustiça. Acredito
que seja até o normal da natureza humana. Aceitar as nossas
falhas sem culpar os outros é um processo doloroso, pois envolve
o reconhecimento de que determinadas situações são conseqüências
de erros e atitudes tomadas por nós. Afinal, nós colhemos o que
plantamos... No “frigir dos ovos”, no final das contas, todos
se sentem traídos. Nunca ouvir falar de alguém que fosse digno o
suficiente para esclarecer à sociedade que foi destituído por
justa causa. Há sempre um carrasco na história. Qual a instituição
ou empresa que nunca passou por isso?
Muitas mudanças ocorreram na instituição, e foram para melhor.
A SBB nunca andou para trás, mesmo com todos os problemas que
enfrentou. Como eu disse antes, sempre andou com a cabeça
erguida. Aquele que não sabe o que procura, não reconhece o que
encontra, e a instituição sempre esteve muito bem direcionada.
Muitos passaram pela SBB e muitos ainda vão passar. A vida é
assim. O destino de cada pessoa é único, e seria inocência
achar que todos ficariam para sempre. Prefiro pensar que existem
outras etapas para essas pessoas cumprirem em outros locais, e torço
para que o que puderam aprender na instituição as ajudem na
busca de uma felicidade.
Fique feliz nesses últimos dias em receber alunos que retornaram
à instituição depois de um tempo afastados. Ao mesmo tempo,
vejo que a SBB está sempre em novos ciclos. E acho essa
reciclagem de extrema importância. São pessoas que com certeza
contribuirão para aprendizados de todos nós.

SBB - E a respeito desse livro? Os comentários estão
correndo...
Espero que bons, pelo menos (risos).
SBB - O que podemos saber em primeira mão?
Bem... Sentimos a necessidade de escrever a respeito dos
bastidores dessa escola de Bugei. O livro trará a história do
Bugei no Brasil e, conseqüentemente, a história do Shidoshi
Jordan. Embora não tenha participado de todos os 10 anos da
instituição, pois não tenho isso de casa, estou juntando
materiais e depoimentos a respeito. É um trabalho de pesquisa,
pode-se dizer. Quem está do lado de fora não tem idéia de como
foi a trajetória do Shidoshi Jordan para que a SBB chegasse a ser
o que é hoje. Na verdade, não é um projeto novo. Acredito que
outras pessoas tenham tido essa idéia também, mas o fato é que
nenhuma seguiu adiante. Estamos coletando documentos,
entrevistando os amigos mais próximos do Shidoshi, seus colegas
de treinamento, enfim, pessoas que marcaram esse processo, como
Takeshi Hasegawa, Araki Sensei, Michie Hosokawa, Paulo Hideyoshi,
Masa, Sadao, Luiz Yamada, Hidetaka Sensei, e outros... Isso é de
grande oportunidade para mim, pois pude ter um contato com essas
pessoas tão importantes para a história do Bugei. As vejo como
lendas vivas, para falar a verdade.
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