terça-feira, 6 de janeiro de 2009

 

SBB Entrevista Giovanni Nunes             


 

Giovanni Nunes é um fantástico aluno que, juntamente com Sérgio Botelho, é responsável pelo departamento de Química da Sociedade Brasileira de Bugei. Dedicado membro e estudioso de matérias mas intelectuais, Giovanni vem se destacando no meio interno e contribuindo para a formação educacional de toda a Instituição. 

 

Interessantemente sua pessoa é uma das que mais pesquisa na área de intelectualidade do Bugei. Como professor de colégios de ensino médio, qual a sua visão quanto à forma educacional empregada no Bugei?

O Bugei tem o privilégio de ensinar aos alunos a forma do respeito empregado dentro de várias visões. “Reigi to saho” — uma das matérias exigidas para se freqüentar uma escola de Bugei — não se restringe apenas na forma da etiqueta em si, mas é lamentável enxergarmos nessa nova fase em que o mundo se encontra a terrível falta de respeito com o professor em uma sala de aula. Na minha época levantávamos diante da presença inesperada do professor, e saliento com propriedade tal fato. Meus pais diziam que os professores funcionavam como segundos pais e que a educação era completada na sala de aula. Hoje não sabemos se o aluno é aluno ou dono da escola. Encontrei dentro do Bugei algo que me completasse dentro da visão mestre-aluno. Formas mencionadas da humildade, respeito e satisfação da convivência diária. Desta forma, consigo hoje mensurar a importância que a boa educação munida de verdade, seriedade e sabedoria contribuem para a formação de um ser humano de que a sociedade tanto necessita.

É bem simples... Certa vez disse o mestre: “Feche os olhos. Não precisa sequer fechar os olhos. Basta imaginar a seguinte cena: um bando de pássaros voando. Ok... Agora me diga quantos pássaros você vê: cinco? onze? dezessete?”

Seja qual for a resposta — e dificilmente alguém sabe dizer o número exato —, alguma coisa fica bem clara nesta pequena experiência. Você pode imaginar um bando de pássaros, mas o número de aves fugiu do seu controle. Entretanto, a cena era clara, definida, exata. Em algum lugar existe a resposta para esta pergunta. Quem definiu quantos pássaros deviam aparecer na cena? Você, não foi?

Assim somos nós educadores...

Porém, não é fácil compreender uma cultura onde o sistema ortodoxo de hierarquia determina o próximo passo a ser dado dentro da Instituição. Como o Sr. enxerga tal fato?

Ainda que o sistema ortodoxo fosse de fato como as pessoas o colocam, este por sua vez, falando em Bugei, completa o raciocínio do verdadeiro Koryu. Este não pode ser vivido apenas dentro do dojo. Em uma universidade, quando temos que defender uma tese, possuímos um orientador que também determina nosso próximo passo a ser dado. Como disse anteriormente, o mundo atual precisa de mais respeito. Respeito pelo seu humano, pelo próximo, pelos mas velhos, pela família e etc. Compreendo que a liberdade é a coisa mais maravilhosa que existe e que o mundo, tal como as pessoas, sempre precisarão disso. Assim, a interação que podemos ter dentro ou fora dos meios mais tradicionais, não importando qual seja a cultura, resume-se talvez em uma única palavra: “Sonkei” — Respeito.  O que aprendemos em primeiro é o que melhor sabemos. 

 

Qual a sua forma de visão técnica sobre a filosofia do Bugei?

Tetsugako ou filosofia é uma matéria que requer atenção e direcionamento em suas análises. Estudar o zen e sua forma não é tão simples como dizermos que o zen é o vazio. Preparar um aluno para enfrentar a sociedade não é tarefa fácil. Entendo que em primeiro, por um ponto de vista filosófico, devemos ensiná-lo a controlar sua energia interior, a compreender a si mesmo. Ainda que Platão, Sócrates e uma série de outros que vislumbraram toda essa maravilha chamada de filosofia  tenham nos ditado o caminho a ser seguido, as reflexões devem ser feitas pelo nosso interior. É um caminho interno. Filosofia é isso... Dê um peixe a um homem faminto e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar, e você o estará alimentando pelo resto da vida.

 

Como o Sr. vê as outras escolas que ensinam Koryu?

Bem... Em verdade, não conheço pessoalmente outras instituições, pois me interesso por Bugei e não necessariamente a tudo o que se refere ao Koryu. Acredito que o caminho é esse... Para mim tudo está certo... O que é sério e bem direcionado merece seu lugar ao sol. Sabemos de muitas pessoas que dizem ensinar Koryu. Se é verdade ou não, se é koryu ou não, isso deixa de ter importância, pois cada um possui seu karma e dharma, tal como sua lenda pessoal. Não acredito em palavras. O resultado de um bom trabalho é sempre aparente. “Ron yori Sho ko” — A evidência é melhor que a discussão. Belos trabalhos são realizados no Brasil, assim como o charlatanismo e a má intenção estão presentes.  

 

O Bugei hoje está a todo vapor nesta nova fase em que a ascensão é evidente. Como o Sr. enxerga isso?

O Bugei é um caminho muito rígido e, assim sendo, passamos por muitos momentos em que foi necessário um pulso firme para a direção certa. Somos cientes que todo trabalho bem direcionado é difícil e exige dedicação. Esta nova sede e o retorno da parceria com importantes pessoas do Bugei nos proporciona uma nova visão de direcionamento. Acredito que os ciclos de construção são sempre recheados de surpresas boas e más, mas não basta dirigir-se ao rio com a intenção de pescar peixes; é preciso levar também a rede. Portanto, em nossa rede também poderão vir muitos peixes ruins, mas como a água do Bugei é salgada e de pouco oxigênio, somente os fortes  e honestos permanecem.  Todo plantio é difícil e ainda que o Brasil e seu povo seja maravilhoso, ensinar outra cultura é trabalhar em terreno arenoso de pouca fertilidade. É necessária muita atenção e bons cuidados para que no final a colheita seja próspera. Deixe-me te contar uma história... Adoro histórias...

 

"Era uma vez uma flor que nasceu no meio das pedras.

Quem sabe como, conseguiu crescer e ser um sinal de vida no meio de tanta tristeza. Passou uma jovem e ficou admirada com a flor. Logo pensou em Deus. Cortou a flor e a levou para a igreja. Mas, após uma semana a flor tinha morrido.

 

Era uma vez uma flor que nasceu no meio das pedras. Quem sabe como, conseguiu crescer e ser um sinal de vida no meio de tanta tristeza. Passou um homem, viu a flor, pensou em Deus, agradeceu e a deixou ali; não quis cortá-la para não matá-la. Mas, dias depois, veio uma tempestade e a flor morreu...

 

Era uma vez uma flor que nasceu no meio das pedras. Quem sabe como, conseguiu crescer e ser um sinal de vida no meio de tanta tristeza. Passou uma criança e achou que aquela flor era  parecida com ela: bonita, mas sozinha. Decidiu voltar
todos os dias. Um dia regou, outro dia trouxe terra, outro dia podou, depois fez um canteiro, colocou adubo... Um mês depois, lá onde tinha só pedras e uma flor,
havia um jardim!..."

 

 

 

 


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