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Daniel Motheo, uchideshi do Kaze
no Ryu Bugei, é bacharel em Ciências Biológicas e atualmente cursa o mestrado
em Ciências da Engenharia Ambiental na USP - São Carlos. Em visita a Goiânia,
Motheo concedeu-nos a seguinte entrevista:
Pergunta - Diante do paradigma
atual, como o Sr. enxerga o trabalho executado pelo Bugei, uma vez que esse não
busca a afirmação da mídia como estrutura popular?
Daniel Motheo - Se buscarmos um
princípio lógico, encontraremos nas mais sérias instituições certos propósitos
que não são os mesmos mencionados pelas artes atuais. O propósito que
encontramos no Bugei, que tem como princípio à busca pela manutenção do
Koryu, não corresponde com o aumento demográfico de alunos. A busca pela
qualidade de uma instituição mantenedora certamente está ligada no
re-investimento de seus conceitos, re-interando com mestres mais velhos o
conhecimento e tradição cultural. Quando conheci o Bugei, certamente segui as
mesmas diretrizes de qualquer pessoa, achando que seria uma escola aberta ou
mesmo comparada a uma academia. Redondamente enganado, entendi com o passar dos
tempos que, além de um caminho, o Bugei não se restringe à arte marcial,
enquadrando-se primeiramente em uma forma cultural e filosófica na qual seus
conceitos são aplicados no dia-a-dia. Por muitas vezes achei que não
suportaria a rigidez e direcionamento de meu tutor, mas, aos poucos as coisas
foram se encaixando e tudo ficou mais claro. Entendi que o meu propósito não
era praticar e sim estudar. Estudar em sua essência corresponde a uma constante
pesquisa e aprimoramento sem a descaracterização de cada seguimento, além de
uma constante atenção com conceitos comportamentais e cotidianos.
P - Dentro da amplitude estratégica
estudada no Kaze no Ryu Bugei, quais as diretrizes aprendidas pelo Sr. que têm
sua efetividade em sua vida cotidiana?
DM - Principalmente que nada é
como parece. A estratégia é uma arte estudada em oito anos dentro das instituições
mais sérias de Bugei. Tal amplitude se baseia na concepção encontrada pela
mente oposta sobre sua posição. Ou seja, quando encontrei o Bugei, não vi
nada. Estranhamente não vi nada. Com o passar do tempo, vi que muitos militares
freqüentavam a instituição em busca de aulas de estratégia e conceitos de
inteligência e informação. Geralmente, alguém aparece com a língua solta
para saciar nossa vontade. Como moro em São Paulo e venho a Goiânia, foi comum
cruzar com alguns militares de São Paulo que estavam em Goiânia. Sem demora,
um deles, maravilhado, tentou me questionar sobre estratégia, mas era muito
novo na época e não estendi a conversa. Tal militar fazia parte da inteligência
da Rota em São Paulo, e viu em poucas aulas muita profundidade nas colocações
estratégicas. Manipular a mente oposta é uma característica dos Japoneses -
se fazer pequeno para que o inimigo se mostre grande. Certa vez, estava em um
evento e os mais velhos do Bugei ficaram sentados na mesma posição por mais de
duas horas. Um professor de Kendo que estava ao meu lado disse: "Velhos hábitos
nunca morrem". Como é comum mestres famosos mostrarem técnicas
desajeitadas dando espaço para a vaidade oposta, de súbito realizam técnicas
de imensa dificuldade com a mais perfeita perícia. Cansei de ver isso! O mesmo
mestre de Kendo disse: "Isso é Bugei - Bun Bu Ryo Do - os dois caminhos da
guerra." É necessário que haja a temperança para que o propósito seja
puro e direcionado. Nesse não existe vaidade e sim valor próprio.
P - Não é difícil hoje ter que lidar com isso, onde a competição
de mercado de trabalho implica no completo reconhecimento de quem você é?
DM - Eu diria que é comum
pessoas confundirem e se perderem. Da mesma forma que confundem tática com
estratégia. Um homem não deixa de ser homem porque põe uma flor atrás da
orelha. De acordo com o novo livro de estratégia do Shidoshi Jordan, o
terceiro, Estratégia significa padrão ou plano que integra as principais
metas, políticas e seqüência de ações de uma estrutura como um todo. Tem
sua origem na Grécia antiga e se estrutura diante de conceitos vigentes que são
apresentados em cada situação. Durante determinado tempo significou
"habilidades gerenciais", como administração, liderança e poder (ao
tempo de Péricles 450 a.C.). Na época de Alexandre (330 a. C.), referia-se à
habilidade de empregar forças para sobrepujar
a oposição e criar um sistema unificado de liderança. Durante muito
tempo atribuía-se à estratégia quase que o mesmo conceito que tática. Ao
contrário do que muito foi dito, a tática é uma força empregada com um curto
período de duração e não se relaciona com o todo e sim com sua proposta única.
Estratégia por sua vez define a ação como um todo sendo abrangente e contínua.
P - O senhor que é uchi-deshi,
como enxerga a grande procura de professores formados em outras artes pelo
Bugei?
DM - É bom e ruim ao mesmo
tempo. Caracterizar uma arte como boa porque existe uma grande demanda não é a
melhor das analogias. Eu diria até medíocre. Nossa vida em geral é marcada
por ciclos que provocam alterações e transformações em nossa personalidade.
Entendo que, sendo assim, é comum em um processo evolutivo buscarmos aprender
sempre em situações diferentes com pessoas diferentes. Se a busca é o
aprendizado, essa atitude é louvável e deve ser incomensuravelmente
respeitada. Quando a busca é meramente curiosa, sua origem já é
desequilibrada e sem conteúdo. O Brasil, mais do que qualquer outro lugar do
mundo, é recheado de belas artes e excelentes professores.
P - O senhor que já está há
muito tempo no Bugei, como classificaria a convivência interna dessa Arte?
DM - Como havia dito anteriormente, nada é como parece. É comum
no nosso dia-a-dia, enfrentarmos o desânimo, a dificuldade e outros sentimentos
adversos do ser humano. Muitos dizem que o caminho do Bugei é o próprio
caminho do inferno. Não vejo assim. O grande mediador disso será a busca e a
força de vontade. Não é diferente de um nadador que quer ser um campeão olímpico.
Este também viverá seu próprio inferno. É uma questão de escolha. Quando
ultrapassamos a fase do romantismo e temos que viver com o cotidiano, é que se
vê que nada é como Hollywood mostra. Tudo tem o seu preço. Os filmes mostram
apenas fases para o sucesso. A realidade é mais longa que isso. Para superar
tudo é necessário estar sempre mirando o objetivo, e se esse não se sustenta,
não é real, logo pessoas desistem.
P - E sua convivência com o
Shidoshi? Falam que ele é uma pessoa muito difícil.
DM -
Depende do ângulo que se enxerga. Para tudo existem formas diferentes de se ver
as coisas. Se me perguntam dentro do tradicionalismo japonês, inevitavelmente
diria que é uma das pessoas mais misteriosas que conheci. Como dizia Takeshi
Hasegawa, sabe muito e mostra pouco. Conviver bem com o Shidoshi significa se
esforçar para ser cada vez melhor dentro dos ensinamentos do Bugei. Ele não é
o tipo de pessoa que aceita o "mais ou menos". Dessa forma, é
realmente uma pessoa difícil.
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