terça-feira, 6 de janeiro de 2009

 

SBB Entrevista Daniel Motheo             


 

Daniel Motheo, uchideshi do Kaze no Ryu Bugei, é bacharel em Ciências Biológicas e atualmente cursa o mestrado em Ciências da Engenharia Ambiental na USP - São Carlos. Em visita a Goiânia, Motheo concedeu-nos a seguinte entrevista:

 

Pergunta - Diante do paradigma atual, como o Sr. enxerga o trabalho executado pelo Bugei, uma vez que esse não busca a afirmação da mídia como estrutura popular?

Daniel Motheo - Se buscarmos um princípio lógico, encontraremos nas mais sérias instituições certos propósitos que não são os mesmos mencionados pelas artes atuais. O propósito que encontramos no Bugei, que tem como princípio à busca pela manutenção do Koryu, não corresponde com o aumento demográfico de alunos. A busca pela qualidade de uma instituição mantenedora certamente está ligada no re-investimento de seus conceitos, re-interando com mestres mais velhos o conhecimento e tradição cultural. Quando conheci o Bugei, certamente segui as mesmas diretrizes de qualquer pessoa, achando que seria uma escola aberta ou mesmo comparada a uma academia. Redondamente enganado, entendi com o passar dos tempos que, além de um caminho, o Bugei não se restringe à arte marcial, enquadrando-se primeiramente em uma forma cultural e filosófica na qual seus conceitos são aplicados no dia-a-dia. Por muitas vezes achei que não suportaria a rigidez e direcionamento de meu tutor, mas, aos poucos as coisas foram se encaixando e tudo ficou mais claro. Entendi que o meu propósito não era praticar e sim estudar. Estudar em sua essência corresponde a uma constante pesquisa e aprimoramento sem a descaracterização de cada seguimento, além de uma constante atenção com conceitos comportamentais e cotidianos.

 

P - Dentro da amplitude estratégica estudada no Kaze no Ryu Bugei, quais as diretrizes aprendidas pelo Sr. que têm sua efetividade em sua vida cotidiana?

DM - Principalmente que nada é como parece. A estratégia é uma arte estudada em oito anos dentro das instituições mais sérias de Bugei. Tal amplitude se baseia na concepção encontrada pela mente oposta sobre sua posição. Ou seja, quando encontrei o Bugei, não vi nada. Estranhamente não vi nada. Com o passar do tempo, vi que muitos militares freqüentavam a instituição em busca de aulas de estratégia e conceitos de inteligência e informação. Geralmente, alguém aparece com a língua solta para saciar nossa vontade. Como moro em São Paulo e venho a Goiânia, foi comum cruzar com alguns militares de São Paulo que estavam em Goiânia. Sem demora, um deles, maravilhado, tentou me questionar sobre estratégia, mas era muito novo na época e não estendi a conversa. Tal militar fazia parte da inteligência da Rota em São Paulo, e viu em poucas aulas muita profundidade nas colocações estratégicas. Manipular a mente oposta é uma característica dos Japoneses - se fazer pequeno para que o inimigo se mostre grande. Certa vez, estava em um evento e os mais velhos do Bugei ficaram sentados na mesma posição por mais de duas horas. Um professor de Kendo que estava ao meu lado disse: "Velhos hábitos nunca morrem". Como é comum mestres famosos mostrarem técnicas desajeitadas dando espaço para a vaidade oposta, de súbito realizam técnicas de imensa dificuldade com a mais perfeita perícia. Cansei de ver isso! O mesmo mestre de Kendo disse: "Isso é Bugei - Bun Bu Ryo Do - os dois caminhos da guerra." É necessário que haja a temperança para que o propósito seja puro e direcionado. Nesse não existe vaidade e sim valor próprio.

 

P -  Não é difícil hoje ter que lidar com isso, onde a competição de mercado de trabalho implica no completo reconhecimento de quem você é?

DM - Eu diria que é comum pessoas confundirem e se perderem. Da mesma forma que confundem tática com estratégia. Um homem não deixa de ser homem porque põe uma flor atrás da orelha. De acordo com o novo livro de estratégia do Shidoshi Jordan, o terceiro, Estratégia significa padrão ou plano que integra as principais metas, políticas e seqüência de ações de uma estrutura como um todo. Tem sua origem na Grécia antiga e se estrutura diante de conceitos vigentes que são apresentados em cada situação. Durante determinado tempo significou "habilidades gerenciais", como administração, liderança e poder (ao tempo de Péricles 450 a.C.). Na época de Alexandre (330 a. C.), referia-se à habilidade de empregar forças para sobrepujar  a oposição e criar um sistema unificado de liderança. Durante muito tempo atribuía-se à estratégia quase que o mesmo conceito que tática. Ao contrário do que muito foi dito, a tática é uma força empregada com um curto período de duração e não se relaciona com o todo e sim com sua proposta única. Estratégia por sua vez define a ação como um todo sendo abrangente e contínua.

 

P - O senhor que é uchi-deshi, como enxerga a grande procura de professores formados em outras artes pelo Bugei?

DM - É bom e ruim ao mesmo tempo. Caracterizar uma arte como boa porque existe uma grande demanda não é a melhor das analogias. Eu diria até medíocre. Nossa vida em geral é marcada por ciclos que provocam alterações e transformações em nossa personalidade. Entendo que, sendo assim, é comum em um processo evolutivo buscarmos aprender sempre em situações diferentes com pessoas diferentes. Se a busca é o aprendizado, essa atitude é louvável e deve ser incomensuravelmente respeitada. Quando a busca é meramente curiosa, sua origem já é desequilibrada e sem conteúdo. O Brasil, mais do que qualquer outro lugar do mundo, é recheado de belas artes e excelentes professores.

 

P - O senhor que já está há muito tempo no Bugei, como classificaria a convivência interna dessa Arte?

DM -  Como havia dito anteriormente, nada é como parece. É comum no nosso dia-a-dia, enfrentarmos o desânimo, a dificuldade e outros sentimentos adversos do ser humano. Muitos dizem que o caminho do Bugei é o próprio caminho do inferno. Não vejo assim. O grande mediador disso será a busca e a força de vontade. Não é diferente de um nadador que quer ser um campeão olímpico. Este também viverá seu próprio inferno. É uma questão de escolha. Quando ultrapassamos a fase do romantismo e temos que viver com o cotidiano, é que se vê que nada é como Hollywood mostra. Tudo tem o seu preço. Os filmes mostram apenas fases para o sucesso. A realidade é mais longa que isso. Para superar tudo é necessário estar sempre mirando o objetivo, e se esse não se sustenta, não é real, logo pessoas desistem.

 

P - E sua convivência com o Shidoshi? Falam que ele é uma pessoa muito difícil.

DM - Depende do ângulo que se enxerga. Para tudo existem formas diferentes de se ver as coisas. Se me perguntam dentro do tradicionalismo japonês, inevitavelmente diria que é uma das pessoas mais misteriosas que conheci. Como dizia Takeshi Hasegawa, sabe muito e mostra pouco. Conviver bem com o Shidoshi significa se esforçar para ser cada vez melhor dentro dos ensinamentos do Bugei. Ele não é o tipo de pessoa que aceita o "mais ou menos". Dessa forma, é realmente uma pessoa difícil.

 

 


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