domingo, 19 de maio de 2013

 

Textos e Ensaios de Jordan Augusto            


 

Vaidade

Kumitachi – uma importante visão

(por Jordan Augusto)

 

Para muitos alunos, este é apenas um exercício de movimentos combinados... Porém, mais do que isso, o Kumitachi visa muito mais do que gestos combinados que demonstram as formas estudadas na época.

O koryu e seu aspecto clássico representam em suma, características remanescentes que correspondem às necessidades vigentes em épocas em que a espada ainda era a mais forte arma empunhada pelo homem. Estudar uma seqüência de ataques e defesas que prepararão a mente do adepto para o entendimento do sentimento verdadeiro do combate na antiguidade pode não ser suficiente para que este compreenda de fato, a razão de cada movimento. Assim, as grandes escolas conservam as formas primárias para que a lógica das movimentações faça sentido durante tal prática.

Sem dúvida alguma, podemos definir que foi no período Edo que a classe samurai se organizou através de escolas que possuíam um forte seiteigata.

Vamos entender melhor:

Em 1603 Tokugawa Ieyasu iniciou o shogunato Tokugawa estabelecendo a capital em Edo (atual Tóquio) e continuou o trabalho de unificação do Japão. Foi uma virada decisiva na história japonesa e Ieyasu criou o modelo pelo qual foram moldadas todas as facetas da vida da nação, em especial suas instituições políticas e sociais, por 265 anos.

Os sucessivos Shoguns, ou Comandantes Militares Supremos, designados pela Corte Imperial da Família Tokugawa, dominaram toda a nação. Sob o comando do Shogunato, os lordes feudais governavam seus respectivos domínios com poder absoluto sobre povo e propriedade.

Em 1635 se instituiu o Sankin Kotai -obrigação para os daimyo (senhores feudais autônomos) de residir em Edo, como verdadeiros hospedes.

Como havia crescido a influência do Cristianismo (no início deste século, existia cerca de 700.000 cristãos no país) o shogunato Tokunaga compreendeu que esta religião poderia ser tão explosiva quanto as armas de fogo que o acompanharam, por isso continuou a perseguição aos seus adeptos. Em 1613 houve a segunda perseguição com a deportação de todos os missionários e destruição de igrejas cristãs. Em 1620 ocorreram severas perseguições aos missionários e cristãos. Foi somente em 1857 que foi decretado o fim da perseguição aos cristãos.

Por volta de 1620 aconteceram as primeiras trocas comerciais com Macau, Camboja, Tailândia e Coréia. Para preservar a integridade da estrutura político-social que construiu, o shogunato Tokugawa tomou a drástica medida de “fechar as portas” do Japão para o mundo exterior em 1639, à exceção com poucos comerciantes holandeses confinados na pequena ilha Dejima, na baía de Nagasaki, alguns chineses que viviam em Nagasaki e ocasionais enviados reais da dinastia Lee, da Coréia. Durante dois séculos e meio essas pessoas foram o único contato entre o Japão e o mundo exterior. Foi através dos comerciantes de Dejima que os sábios japoneses puderam adquirir um conhecimento básico sobre a medicina ocidental e outras ciências, durante o longo período de isolamento do país.

No período Edo a população foi dividida em 04 classes sociais distintas: guerreiros, camponeses, artesãos e comerciantes. Como havia desigualdade no tratamento, a maioria do povo tinha a vida muito limitada. Embora superiores aos artesãos e comerciantes na hierarquia social, os camponeses não tinham permissão de deixar suas terras e pesados impostos recaíam sobre eles.

Com relação a cultura, por volta de 1600 aconteceu a primeira aparição do Kabuki e em 1630 houve o nascimento de ningyo joruri (teatro de marionetes) em Kyoto e Osaka. Apesar do isolamento com o mundo, a cultura nativa japonesa teve progresso no período Genroku (1688 – 1703). Foi no governo Tokugawa que nasceram grandes autores como Basho Matsuo ( 1644 – 1694) que foi o maior poeta de haiku (poemas de 17 sílabas) e Monzaemon Chikamatsu (1653 – 1724) o "Shakespeare" japonês que começou escrevendo para teatro de Marionetes.

Nesta época a kataná era considerada a alma do Samurai, desta forma a sua forma de manuseio e convivência com tal arma, era capaz de designar para os outros sua forma de caráter.

Antigamente só podia ser manejada pelo samurai, sendo proibido seu uso pelos mercadores e camponeses. Ela ficava presa à cintura, do lado esquerdo do corpo, com o corte virado para cima. Geralmente usava-se um par de espadas, o daishô (pequena e grande) - uma com 60 a 90 cm de comprimento (kataná) e a outra de 30 a 60 cm (wakizaki).

"Um fio tão delicado como uma navalha, tão forte como a quilha de um arado", é a definição do kataná feita por Laerte Ottaiano, especialista brasileiro em espada japonesa. Não só a lâmina, o acabamento também tinha que atingir a perfeição, através da habilidade dos ferreiros e dos laqueadores.

A empunhadura e a bainha (saya) eram cobertas e decoradas com desenhos sofisticados. Entre a lâmina e o cabo ficava a guarda (tsuba) para aparar os golpes e proteger as mãos. A partir do século XVI passaram a ser feitas por artesãos especializados e também se transformaram em objetos de arte. As tsubas geralmente tinham uma abertura central que unia a lâmina com a empunhadura. Outras tinham mais duas aberturas para o kazuka (empunhadura do kogatana, pequena faca) e o kogai que se acredita, originalmente teria sido usado para arrumar o cabelo sob o elmo.

A fabricação dessa arma sempre foi um segredo de cada artista. Geralmente, além do processo de purificação do minério de ferro, o material era temperado com dois ou três metais para produzir uma lâmina super-resistente.

A espada japonesa tem a forma elegantemente curva desde o período Heian (794-1191) e, por séculos, foi a principal arma de luta. Com a introdução das armas de fogo no século XVI, pouco a pouco ela foi se restringindo aos eventos cerimoniais.

Com o desaparecimento da classe samurai, a partir da restauração do poder imperial (1868), as espadas se transformaram em objeto de arte sendo disputadas por colecionadores, mas o código moral dos samurais (Bushidô) continua vivo na maneira de agir e pensar dos nipônicos. O Bushidô baseava-se, fundamentalmente, no cultivo das virtudes marciais, na demonstração de absoluta indiferença à morte e à dor e na dedicação e lealdade ao seu senhor. "A vida e a morte estavam separadas pelo fio da kataná, assim como viver e morrer são inseparáveis e inevitáveis", escreve Laerte Ottaiano.

Os principais preceitos éticos desse código eram: retidão ou justiça, guiri (tem sentido de dever, obrigação. Fala-se, por exemplo, guiri que se deve aos pais, aos superiores, aos inferiores, aos parentes e amigos), coragem, benevolência, polidez, veracidade, sinceridade, honra, dever e lealdade.

 O Kumitachi ainda é a forma essencial de se verificar a perícia, sentimento e a alma do Kenshi – espadachim.

Nas escolas de Koryu, o Kumitachi é a representação da forma expressiva de ataques e defesas de cada seguimento.

Desta maneira, acredita-se que através dos Kumitachi, pode-se perceber com facilidade as características peculiares de cada escola.

Referência:

Conversas com Araki Sensei, Michie Hosokawa, Paulo Hideyoshi, Masa, sadao, Luiz yamada, Hidetaka Sensei. Textos e apostilas Ogawa Shizen Kay, Fatos sobre o Japão; Jornal International Press, Revista Planeta Zen, As Upanishads, Bhagavad Gita, trad. Huberto Rohden, Ed. Martin Claret. http://www.desa.com.br

 

 

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