sexta-feira, 24 de maio de 2013

 

Textos e Ensaios de Jordan Augusto            


 

Medicina Oriental

A singularidade do clássico

Por: Shidoshi Jordan Augusto

(Resposta dada a uma entrevista em 2001)

Depois da morte de Yoritomo, o cargo de Shogun perdeu muito de seu poder pela falta de uma figura central capaz de reproduzir-lhe a integridade. O espírito do samurai era o espírito do auto-sacrifício, sendo suas virtudes as necessárias a um guerreiro eficiente. A proteção e a conservação de todos estes valores em uma era atual exprime dois aspectos.

Em tempos de guerra, os pensamentos sempre se voltam para a morte. Entretanto, para a cultura que se desenvolveu no Japão de todos estes anos, a ênfase maior era colocada na maneira de como se enfrenta a morte. A opção pela evisceração - o Sepukku, uma excruciante forma de suicídio e, para o ocidente, um bizarro ritual - tem profundas raízes na cultura japonesa. O baixo abdome, “hara”, além de ser o lugar em que se concentra a coragem, é considerado a sede da consciência terrena, quer seja da mente ou espírito. É o ponto, no ser humano, onde nascem e se juntam as energias espiritual e material. No ocidente, é comum escutar as pessoas de origem inglesa dizerem “ler a mente” de alguém, para conhecê-lo ou enxergar-lhe os sentimentos, mas os japoneses têm a expressão: “Hito no hara wo yomu”, que significa: ler o Hara, ou abdome do outro. O samurai não só morria de boa vontade no campo de batalha como, pela sabedoria e honra de sua própria mão e espada, morria quando falhava em uma missão importante ou quando cometia um crime capaz de trazer a desgraça para o seu clã ou o seu nome. Essa atitude em relação ao suicídio talvez seja um dos grandes exemplos que possa ilustrar a diferença existente no pensamento clássico entre Japão e ocidente.  

Contudo, tanto em suas crenças espirituais quanto em suas habilidades guerreiras, o samurai sabia que a morte não é o fim do espírito ou sequer da existência terrena. Até o mais ínfimo dos detalhes cotidianos, o guerreiro vivia como se cada dia fosse o último. Muitas vezes, no fragor da batalha, sabendo que a derrota era iminente, o samurai se retirava para um local sossegado e, um pouco distante dos horrores da guerra, dava cabo da própria vida. O inimigo não o perseguia, mas, com sincera reverência, deixava que cumprisse o derradeiro ato de lealdade. O processo evolutivo rumo ao desfecho tecnológico tem sido uma espiral ascendente de novas descobertas, progresso e transformações dramáticas. No passado, quando ventos, frio e calor destruíam a saúde do ser humano, vestiu-se a nudez e criou-se abrigos como meio de proteção.  

Nos dias atuais, através da evolução natural o homem descobriu coisas novas e esqueceu que deveria acompanhar novas descobertas em seu “eu interior”. Lealdade, cortesia e valor representavam ideais elevados e nobres, mas concentravam-se nos campos de batalha, e o samurai era agraciado mais por sua habilidade em combate. O estudo intenso do Bujutsu aprimorava o espírito, mas apenas para que a morte pudesse ser arrostada sem medo e o inimigo fosse destruído. Nessa época o caractere chinês “BU” só era associado à guerra. Contudo, de acordo com professores mais antigos, a tradução fidedigna é “governar e proteger o povo”, para, assim, edificar uma sociedade mais sólida.

A espada era o símbolo da classe samurai - uma obra de arte maravilhosa e refinada. Uma excelente espada fabricada pelo mais famoso fabricante da época podia representar o mais precioso bem, até mais que a própria vida. Antes de fabricar cada lâmina, o espadeiro ou mestre ferreiro limpava o corpo, a mente, o espírito e o espaço à sua volta, numa antiga cerimônia xintoísta de “Misogi”, ou purificação. O aço era purificado pelo fogo e pela água, enquanto ia sendo malhado até que todas as escórias desaparecessem. Quando a espada é utilizada de modo adequado e eficiente, os movimentos do corpo devem conformar-se com naturalidade às regras artísticas da linha e movimento, bem como ao uso equilibrado do espaço.  

Nos dias atuais, com o capitalismo à flor da pele, os homens armam-se de palavras e estratégias que aniquilam aqueles que ainda possuem o bom pensamento. Porém, em um ciclo natural, ascensão e queda passam a ser cotidiano diante de tais atitudes. Para aqueles que se encontram em paz, tais fenômenos vão e vem em calmaria, para outros enfrentam a própria tempestade. A evolução é necessária, mas o antigo sempre estará presente. Seja em conceitos, palavras, linguagem, pensamentos ou raciocínios: no que for, a evolução é apenas uma conseqüência do bom aprendizado.

 

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