sábado, 18 de maio de 2013

 

Textos e Ensaios de Jordan Augusto            


 

Medicina Oriental

Ki Tomeru

(Por Jordan Augusto)

 

Para os praticantes de uma arte tradicional que visa a utilização da energia Ki, esta expressão corriqueira pode esconder muito mais ensinamentos do quer se possa imaginar.

 

Ki Tomeru tem como significado “parar a energia”.

 

Em uma visão mais ampla das técnicas empregadas no Aikijujutsu podemos perceber que esta teoria está presente em quase todas as formas de torção, projeção, retenção e uma série de princípios que envolvem toda a parte técnica desta arte, traduzida como “Arte da Harmonia e Energia Suave”. Muitas destas técnicas são empregadas no Kumi-Uchi, Jujutsu, Kempo, Koppo, podendo-se dizer, inclusive, que está impregnada até no espírito do Bujutsu.

 

Durante muito tempo nas artes mais modernas em que a busca pela harmonia se tornou mais evidente do que a marcialidade das técnicas, os questionamentos quanto à eficiência foram inevitáveis. Em uma época antiga era comum a preocupação em provocar um momento de síncope no inimigo antes da execução de uma técnica. Podemos ver isso nos estilos mais antigos de Bujutsu onde, na maioria das vezes, isso era alcançado através de um atemi ou algo parecido.

A perda de consciência, chamada de desmaio ou síncope, acontece quando a quantidade de sangue rico em oxigênio que alcança o seu cérebro não é suficiente. Sem oxigenação adequada, o metabolismo do cérebro se reduz o que provoca perda da consciência até que o fluxo de sangue se restabeleça. Por vezes pode não existir aviso prévio. Contudo, geralmente existe náusea ou enjôos e tonturas, sudação e palidez, a visão fica acinzentada e finalmente o doente acaba por perder a consciência.

Após aproximadamente um minuto depois da queda, como não existe o efeito da gravidade, o fluxo de sangue para o seu cérebro é novamente restabelecido e  recupera-se a consciência.

Apenas aproximadamente 20% de adultos desmaiam devido a um problema cardíaco (arritmia ou cardiopatia estrutural). Em cerca de 10% das pessoas, a razão é desconhecida.

Na maior parte dos casos, desmaiar pode ser devido à queda súbita da pressão arterial e, por vezes, também uma redução marcada da freqüência cardíaca relacionada com vários fatores. Antigos mestres estudavam com o auxílio do Ijutsu — Medicina Oriental — técnicas específicas utilizando alta proporção de impacto, buscando a alteração da pressão corporal. Essas técnicas foram desenvolvidas em determinados Ryu que ficaram famosos por atingir perícia e eficácia na utilização destas em combate.

Citarei abaixo, como fator de curiosidade, alguns dos tipos de síncope:

Síncope Neurocardiogénica - Tensão emocional, manter-se por longos períodos na posição de pé sem se mover, receio ou dor súbita e severa podem ativar a interligação entre seu sistema neurológico e cardiovascular, após longos períodos na posição de pé sem atividade das pernas, que resultam na inibição do seu sistema nervoso simpático e a excitação de seu sistema nervoso vagal. Isto leva a que o batimento do seu coração diminua de freqüência rapidamente e as pressões arteriais se reduzam por dilatação das suas artérias. Em conseqüência o fluxo de sangue ao cérebro reduz-se para níveis incompatíveis com a manutenção da consciência pelo que a síncope surge até que a posição de deitado vá permitir que o sangue seqüestrado nos membros inferiores, retorne ao coração e ao cérebro.

Síncope por Hipotensão postural: Após mudança rápida para posição de pé. Quando se levanta, o seu sistema nervoso simpático fica ativo e lança em circulação hormônios (catecolaminas). Isto conduz a um aumento da freqüência cardíaca e da pressão arterial fazendo com que haja preservação do fluxo de sangue adequado para o cérebro, mesmo na posição de pé. Com a idade, reduz-se a capacidade desta resposta cardiovascular, mediada pelo sistema nervoso autônomo. Colocar-se de pé muito depressa pode levar a uma queda abrupta do sangue para as pernas fazendo com que a pressão arterial desça subitamente levando ao desmaio. Doenças como a diabetes, doença de Parkinson, alcoolismo crônico e algumas doenças neurológicas afetam o sistema nervoso simpático.

Medicamentos— Anti-hipertensores, antiarritmicos e antidepressivos são os fármacos normalmente associados a perda de consciência. Estas drogas podem tornar o doente mais susceptível para mudanças de pressão sanguínea. Eles também podem impedir que o seu coração bata mais rápido para responder às necessidades provocadas pela mudança de posição ou de exercício físico. Estes fármacos poderão também ser responsáveis por provocar arritmias graves que levam á perda de consciência.

Alguns passos simples podem impedir o desmaio, nomeadamente a síncope neurocardiogênica:

Baixe a sua cabeça, de preferência e se possível, deite-se. Eleve as suas pernas sobre o nível da cabeça para aumentar o retorno venoso do sangue que está nas pernas e aumentar o fluxo de sangue para seu cérebro.

Se você não pode deitar, pode sentar-se. Espere até a tontura ou a náusea diminua antes de tentar levantar-se novamente. Tenha calma porque o reflexo recupera lentamente. A contração forte dos músculos das pernas também é benéfica no abortar do desmaio. Chama-se a esta manobra legcrossing. É muito eficaz.

Levante-se lentamente, isto permite que a sua pressão sanguínea e freqüência cardíaca tenham mais tempo para ajustar a uma posição vertical.

No passado havia muitos contos fantásticos de samurais que, ao simples toque, provocava nas pessoas desmaios ou até mesmo mortes, mesmo que não imediata. Sabemos que tais acontecimentos podem ser decorrentes de uma série de outras explicações e não somente da perfeição técnica.

 

Dentro do fator técnica podemos entender que existe uma corrente de calor que flui através do hara, traduzido por muitos como ki ou chi. Algumas técnicas têm por objetivo justamente impedir o fluxo dessa corrente como o “Kote Mawashi”, “Kote Hineri” e uma série de outras técnicas.

Vamos entender melhor: o objetivo do raciocínio é mostrar a propagação de calor em forma de ki por condução utilizando um bom e um mau condutor do ki, que seria a forma da técnica empregada para isso.

A propagação de calor em forma de ki pode ocorrer de três modos:

 

condução

convecção

irradiação

 

Enquanto a propagação por irradiação se dá mesmo na ausência de matéria (vácuo), a propagação por condução exige o contato entre os objetos que trocarão calor e a propagação por convecção envolve a movimentação da matéria. Quando colocamos uma panela com água no fogo para esquentar, podemos observar a propagação de calor dos três modos. Por condução: o calor do fogo se propaga para a panela que está em contato com ele; este calor se propaga também por condução para a água, que está em contato com a panela. Por convecção: a água que está em contato com o fundo da panela se aquece, sua densidade diminui (fica mais leve) e ela sobe, enquanto a água fria da superfície (mais pesada) desce para o fundo. Por irradiação: se tiramos a panela do fogo e aproximamos a mão de seu fundo, sentiremos um aumento de temperatura. O calor sentido não chegou por condução (pois não havia contato) nem por convecção (pois o ar quente sobe), pois a radiação independe da existência ou movimentação de matéria para se propagar. Outro exemplo de propagação por irradiação é a energia térmica do sol, que chega até nós pela propagação através do espaço, que é quase um vácuo perfeito.

 

Se associarmos de forma análoga com exercícios que partem de Kumikata — técnicas de segurada utilizadas no Aikijujutsu — teremos então o contato dos objetos mencionados na explicação acima. Se afastarmos o Uke do chão pela utilização de um kuzushi (desequilíbrio) em Ki Tomeru, ele será igualmente a panela de pressão, a aplicação de uma força exercida em um direcionamento expansivo, ao segurar o Tori, provocará uma força direcional do hara que funcionará como um caldeirão pronto a explodir. Assim, no caso do Aikijujutsu, a condução do calor em forma de ki se dá unilateralmente.

Dentro de uma análise mais científica, podemos entender que a condução ocorre principalmente em sólidos (de molécula para molécula) sem transporte de matéria, somente energia.

Lei de Fourrier:

 Ø = K A (AO) / E 
   

- K: Coeficiente de condutibilidade térmica (depende principalmente do material);
- A: Área;
- E: Espessura;
- (AO): Equivalente a "Delta TETA" = Variação de temperatura;

 

A convecção ocorre predominantemente em fluídos (L, V e G), através do transporte de energia junto com a matéria devido à diferença de densidade.

 
- Corrente de Convecção:    Ar quente - Sobe; Ar frio - Desce;  Exemplo: Brisa Marítima (dia) e Terrestre (noite); 

Por fim, a irradiação ocorre através de ondas de calor (eletromagnéticas). Único processo que não necessita de maio material para se propagar (infravermelho).

Muitas técnicas praticadas em um Kihon podem não funcionar em uma teoria de Kakuto no Bujutsu — forma de combate real. Dentro de uma teoria mais abrangente verificamos que a energia nervosa que percorre o corpo do Tori pode ser um grande vilão na aplicação desta técnica. 

 

Vamos lá... Muitos mestres ensinam técnicas de Seishin no Jutsu que consistem em libertar a energia nervosa que está bloqueada ao longo do corpo. As tensões, o stress, os traumatismos, etc., acabam por comprimirem os tecidos e estes comprimem os nervos impedindo assim a energia nervosa de se libertar obrigando-a a permanecer nos tecidos, o que acaba por alterar o funcionamento destes. É como uma mangueira que pisamos no jardim; pisamo-la e nela deixa de passar água. Se a mangueira for fraca acaba por arrebentar devido à pressão a que é sujeita. O mesmo se passa com o nosso corpo onde os nervos podem ser comparados a uma mangueira por onde circulam os impulsos nervosos para o cérebro.

Se os nervos estão comprimidos com as tensões, stress, traumatismos, etc., a circulação faz-se em menor quantidade ficando assim a energia presa ao longo do corpo. Com o tempo ela acaba por criar disfunções nos tecidos e problemas de saúde. Exemplos extremos disso podem ser um corpo demasiado tenso, demasiado cansado, com dores generalizadas e difusas não se percebendo exatamente o local da dor.

Assim, é de grande importância desbloquear esta energia para que todo o nosso corpo funcione nas melhores condições. Há várias técnicas que desbloqueiam esta energia e as causas do seu bloqueio.

Mas como isso se dá no interior do Tori?

 

Imaginemos que o nosso princípio de vida surja em mundos muito sutis, em mundos cujo poder da essência se manifesta como um mar de fagulhas vivas, pensantes, inteligentes, cada um de nós aqui presente é uma dessas fagulhas que se distanciou, vestindo uma casca, desse mar de fagulhas, desse mar infinito de essências, somos essências presas em uma casca, essa casca nos isola do mundo exterior, mas através dos 5 sentidos da matéria temos como nos comunicar com o mundo exterior, rompendo a casca que é o nosso corpo de manifestação, seja o corpo físico, corpo astral, corpo mental ou os vários corpos mais sutis, o intuito das informações a respeito das energias psíquicas é fazer com que possamos romper a casca, não apenas pelos 5 sentidos da matéria: tato, paladar, olfato, visão, audição, mas sim extensão dessas habilidades. Mas não pára aí as energias da mente. Essas energias da mente são também manifestações da intuição, que seria o acesso a informação direta. A intuição é uma forma da essência romper a casca que a prende, essa casca seria o corpo físico.

 

A extensão dos 5 sentidos da matéria pode vir através de manutenção de técnicas que exigem disciplina, persistência, concentração e força de vontade — sem dúvida que o conhecimento das técnicas para utilizar todo esse mecanismo, desenvolvendo a intuição, pode chegar ao passo de saber sem ver, saber sem escutar, saber sem apalpar, sem paladar, sentir sem perceber.

 

No filme “Os Sete Samurais” — Akira Kurosawa — todos se encantaram com a cena em que um samurai mais experiente pede que o seu assistente fique atrás e uma porta e assim que o outro samurai entrasse, este o atacasse com um pedaço de madeira. Muitas eram as formas no passado de perceber se alguém possuía o espírito da guerra em seu interior. Talvez o samurai mais velho quisesse perceber esse grau de intuição e percepção. Para entender esse processo, explicarei melhor:

O pensamento tem início de forma embrionária em seres vivos que foram aprendendo a se concentrar com determinado teor de persistência rumo a um certo objetivo, como o de se apropriarem de um alimento. Nessa longa caminhada, o pensamento passou a ser o instrumento sutil da vontade do Espírito, que exterioriza a matéria mental para atuar nas formações da matéria física, obtendo por esse caminho as satisfações que deseja.

A matéria mental é criação da energia que se exterioriza do Espírito e se difunde por um fluxo de partículas e ondas, como qualquer outra forma de propagação de energia do Universo.

Elaborando pensamentos, cada um de nós cria em torno de si um campo de vibrações impulsionado pela vontade, que estabelece uma onda mental própria, capaz de nos caracterizar individualmente.

Obedecendo às mesmas leis da energia e partículas do mundo físico, as ondas e partículas da matéria mental, em graus de excitações variados, se expressam em freqüência e cores particulares dependendo da intensidade e qualidade do pensamento emitido, ou seja, da vibração mental emitida.

Considerando o terreno das manifestações da física dos átomos, sabemos que o calor, a luz e os raios gama, são expressões vibratórias de uma mesma energia.

A excitação, por exemplo, dos átomos de uma barra de ferro por uma fonte de energia permite produzirmos calor de uma extremidade à outra da barra de ferro. A excitação dos elétrons de um filamento metálico permitirá a transmissão da luz, e a agitação dos núcleos atômicos de determinados materiais produzirá emissão de raios gama.

Tanto quanto na matéria física, o pensamento, em graus variados de excitação, gera ondas de comprimento e freqüência correspondentes ao teor do impulso criador da vontade ou do objetivo desejado.

Como a matéria é expressão da energia em diferentes condições de vibração e velocidade, a energia mental também se manifesta conforme as variações da corrente ondulatória, em corpúsculos da matéria mental. Aqui também se identificam as mesmas leis que regulam a mecânica quântica na transmissão de energia entre as partículas sub-atômicas. Quando vibram os átomos da matéria mental, correspondendo à formação de calor na matéria física, geram-se ondas de comprimento longo que se estabelecem com o propósito de manutenção de nossa individualidade ou de simples noção do Eu. Essas ondas longas prestam-se, também, para sustentar a integração da nossa unidade corporal, mantendo interligado o universo de células que compõem o nosso corpo físico.

Quando ocorrem as vibrações dos elétrons da matéria mental, irradiam-se luzes de tonalidades diferentes conforme a energia atinja os elétrons da superfície ou das proximidades do núcleo do átomo mental. Esse tipo de agitação ondulatória corresponde à emissão de pensamentos de intensidades variadas que vão, desde uma atenção momentânea voltada rapidamente a um certo objetivo, até a uma reflexão ou uma concentração profunda tentando resolver questões complexas.

Por fim, já vimos que a excitação dos núcleos atômicos gera os raios gama e, no campo da mente, a correspondente vibração dos núcleos dos átomos mentais gera ondas ultra-curtas emitidas com imenso poder de penetração de suas energias. Essas vibrações resultam de expressões de sentimentos profundos, de cores cruciantes ou de atitudes de concentração muito intensas.

Participei de muitas palestras em que pessoas induziam outras a acreditarem em seus feitos e se tornarem suscetíveis a tal engenhosidade. Posso afirmar que não passa de uma fraude. Técnicas fantásticas de Ki que nada tem a ver com ki e sim com indução.

Indução, em termos eletrônicos, consiste na transmissão de uma energia eletromagnética entre dois corpos sem que haja contacto entre eles. Este fenômeno ocorre por conjugação de ondas através de um fluxo de energia que é transmitido de um corpo a outro. No campo mental o processo é idêntico.

Existe uma corrente de ondas suscetíveis de reproduzir suas próprias características sobre uma outra corrente mental que passa a sintonizar com ela.

Expressando qualquer pensamento em que acreditamos, estamos induzindo os outros a pensarem como nós. A aceitação que os outros fazem de nossas idéias passa a ser questão de sintonia.

Por outro lado, ao sentirmos uma idéia, absorvemos e passamos a refletir todas as correntes mentais que se assemelham a essa idéia, comungando os mesmos propósitos.

Portanto, nossas idéias e convicções nos ligam compulsoriamente a todas as mentes que pensam como nós e , quanto maior for nossa insistência em sustentar uma idéia ou uma opinião, mais nos fixamos às correntes mentais das pessoas que se sentem como nós e que expressam as mesmas opiniões.

O mesmo se dá quando projetamos algo em nossa mente e esta nos possibilita conseguir um feito quase impossível.

A criação de imagens mentais se dá através de uma teoria que o espírito é a fonte geradora de todas as expressões da vida, e toda espécie de vida se orienta ou se modifica pelo impulso mental.

Sempre que pensamos, estamos expressando uma vontade correspondente ao campo íntimo das idéias, e as idéias, representando a expressão de energia mental, se corporificam pelo pensamento em ondas e corpúsculos, que se organizam conforme o teor e a intensidade da vibração mental e o propósito do pensamento emitido.

Portanto, na expressão de qualquer pensamento, o comprimento da onda emitida varia com a intensidade da concentração nos objetivos desejados e a natureza das idéias emitidas. Com as idéias criamos em torno de nós um campo de vibrações mentais que identificam, pelo seu próprio conteúdo, as nossas mais íntimas condições psíquicas.

Nessa atmosfera de idéia que nos cerca, os corpúsculos da matéria mental que compõem nossos pensamentos modelam "imagens" correspondentes às idéias que mentalmente projetamos.

Psiquicamente, na medida em que expressamos mentalmente uma vontade, um desejo, uma idéia, uma opinião, um objetivo qualquer, passamos a ser carregadores ambulantes de vontades com formas, de desejos com moldes, de idéias vivas que as representam, de objetivos e opiniões que se exteriorizam com cenas que materializam em torno de nós os nossos pensamentos.

Nossa mente projeta fora de nós as formas, as figuras e os personagens de todos os nossos desejos, inclusive com todo o conteúdo dinâmico do cenário elaborado. Com essa constelação de adornos mentais atraímos ou repelimos as mentes que conosco assimilam ou desaprovam nosso modo de pensar.

Dessa maneira, podemos ver que uma série de ações pode ser decorrente de um fluxo de ki interrompido tanto a seu favor quanto contra você. Seja técnica ou mentalmente, essa forma de utilização da energia ki tem o nome no Bugei de “Ki Tomeru”.

 

 

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