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A Shindo Renmei (liga do caminho dos súditos) foi uma organização nacionalista, que surgiu no Brasil após o término da Segunda Guerra Mundial, formada por japoneses que não acreditavam na derrota do Japão na guerra.
A curta e violenta trajetória dessa organização fundamentalista foi brilhantemente contada pelo jornalista Fernando Morais, no livro "Corações Sujos", editado pela Companhia das Letras. A obra ganhou o Prêmio Jabuti 2001 de melhor livro na categoria "não-ficção".
Na década de 1930, o Brasil já possuía a maior colônia japonesa do mundo, com mais de 200 mil pessoas, a grande maioria no Estado de São Paulo. A grande leva da imigração japonesa ocorreu entre 1908 e 1938 e começou a diminuir por pressão dos brasileiros sobre o governo Vargas, pois temia-se uma superpopulação japonesa enquistada (a palavra usada na época), formando um núcleo fechado no Brasil.
Mesmo com a aproximação de Vargas ao eixo, o namoro foi sempre com os alemães e nunca com os japoneses. Em 1938, havia uma limitação à entrada de estrangeiros em geral no Brasil, mas a restrição maior era aos japoneses, cuja entrada anual foi limitada, já pela Constituição de 1934, a 2% do número que havia entrado nos últimos 50 anos.
Morais encontrou documentos do final da década de 30 que mostram que 85% dos imigrantes japoneses pretendiam voltar ao Japão vitoriosos, econômica e politicamente. O Japão vivia um período expansionista, tendo ocupado a Manchúria (região nordeste da China) e parte da Coréia. A alma da grande maioria dos que imigraram para o Brasil estava ainda no Japão.
Os japoneses eram muito fechados e não falavam português, nem se interessavam em falar. Ao contrário, por exemplo, da colônia italiana, os japoneses nem se deixaram influenciar, nem influenciaram.
Por outro lado, havia preconceitos contra os orientais, por causa de seus costumes muito diferentes dos brasileiros, que causavam espanto nas pessoas do interior.
Fundada em Marília, interior de São Paulo, em 1942 (ainda antes da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial),
a Shindo Renmei surgiu como uma das muitas organizações nacionalistas japonesas na época, que foram influenciadas por ex-militares japoneses que imigraram para o Brasil.
Em 1942, o Brasil deixou de manter sua posição nula e resolveu entrar na Segunda Guerra, apoiando os Aliados (Estados Unidos, Inglaterra e França) e indo contra o Eixo (Japão, Itália e Alemanha).
A partir de então, houve uma perseguição maciça aos imigrantes vindos dos países do Eixo e os japoneses passaram a viver dentro de um país de inimigos. Vargas baixou leis severas contra esses imigrantes, que não podiam mais falar nem escrever em seu idioma natal, nem se reunir em grupos com mais de três pessoas.

Terminada a guerra, a Shindo Renmei chegou à conclusão de que o Japão não perdeu. Tudo não passaria de propaganda dos aliados para quebrar a moral dos japoneses. Alguns japoneses que foram membros da organização não acreditam até hoje que o Japão tenha perdido a guerra.
O imperador era considerado uma divindade, filho da deusa do Sol. Durante a guerra havia no Japão a concepção do "glorioso suicídio de 100 milhões". Em caso de derrota, que seria anunciada pelo imperador Hiroíto, todos se suicidariam, inclusive o então jovem cineasta Akira Kurosawa, que afirmou em suas memórias ter passado a guerra inteira esperando a chegada deste momento.
A primeira exigência feita pelos EUA ao Japão após o fim da guerra foi a negação da divindade do imperador. Este foi ao rádio anunciar que era humano. Sua voz jamais havia sido ouvida pelos japoneses. No Brasil a Shindo Renmei concluiu que era tudo uma fraude. Os americanos teriam arrumado alguém para se passar por Hiroíto. Decidiu então que eliminaria quem acreditasse na derrota do Japão e difundisse isso publicamente.
Cerca de 85% dos japoneses no Brasil eram simpatizantes ou contribuintes da Shindo Renmei. Esta porcentagem coincide com a parcela que queria voltar ao Japão e que mantinha as tradições da cultura japonesa. Na época da guerra já havia duas gerações de japoneses no Brasil.
Dentro da Shindo Renmei, a comunidade japonesa era dividida em apenas dois grupos: os
vitoristas (kachigumi), que pertenciam ou simpatizavam com a organização; e os derrotistas
(makegumi) - também chamados de "corações sujos" -, que não acreditavam na vitória do Japão e, por isso, deveriam ser punidos. Aqueles que se manifestassem publicamente confessando acreditar na derrota do Japão seriam mortos.
A Shindo Renmei tinha como objetivo maior calar os que "denegriam" a imagem do Japão, usando de todos os meios para isso: caluniando, tirando a credibilidade e, até mesmo, matando quem não concordasse com a organização. Somente entre janeiro de 1946 e fevereiro de 1947, 23 pessoas foram mortas em ações da organização e 147 ficaram feridas.
Os executores eram sempre muito jovens e compunham um pelotão chamado "batalhão do vento divino". Os executores atuavam em grupos de cinco, usando capas amarelas, que eram um bom disfarce por ser esse o traje usado pelos feirantes japoneses na época. Eles levavam consigo uma espécie de kit, com uma faca, a bandeira imperial do Japão (com os raios de sol) e uma carta de suicídio cívico escrita por um calígrafo, a qual o "traidor" deveria assinar, dizendo sentir vergonha por ter pensado na derrota e por ter imaginado que o imperador poderia perder a guerra. O suicídio era a opção dada ao "traidor" para que pudesse morrer com honra. A faca seria utilizada para cortar o ventre, onde a bandeira japonesa seria colocada. Nenhum dos traidores listados pela Shindo Renmei aceitou cometer o suicídio. Eram então mortos e seus executores entregavam-se imediatamente à polícia.
A Shindo Renmei, além de matar gente, começou uma campanha de contra-informação, montando gráficas, estações de rádio, tudo clandestino. Eles levantavam por mês, em contribuições, 500 milhões de dólares. Cada um dos milhares de simpatizantes contribuía com um pouco. Chegaram inclusive a falsificar a revista norte-americana "Life".

A polícia utilizou uma tática infalível para descobrir os membros da Shindo Renmei, invertendo aquela usada pelas autoridades japonesas para descobrirem quem já havia sido convertido pelos jesuítas no Japão, nos séculos 16 e 17: o "Fumiê (pisar a figura, em japonês). Nessa época era colocada à frente dos supostos convertidos uma imagem de Cristo, a qual eles deveriam pisar. A polícia brasileira inverteu a situação: trocou a imagem de Cristo pela imagem do imperador
Hiroíto. Foi mais eficiente que qualquer detector de mentiras.
A polícia chegou a deter 30 mil pessoas nas investigações para deter as ações da Shindo Renmei. Os detidos chegaram a dizer frases deste tipo nos interrogatórios: "Se o imperador me mandar pular da janela, eu pulo".
De janeiro de 1946, quando ocorreu o primeiro atentado, ao início de 1947, a Shindo Renmei matou 23 pessoas, tendo organizado dois atentados na capital paulista que causaram grande alvoroço.
A organização começou a se desmantelar devido à ação do Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), que fichou e interrogou mais de 30 mil japoneses. Desses, mais de 300 receberam condenações que variaram de um a 30 anos de prisão. Além disso, o governo decretou a deportação para o Japão de 80 dirigentes e membros da organização, sepultando, desta forma, a ação da temida Shindo
Renmei.
O assunto "Shindo Renmei" é, até hoje, para os mais velhos da colônia, um tabu.
A história permaneceu "secreta" por mais de 50 anos e muitos evitam
falar no assunto até hoje.
(As fotos foram extraídas de
"Corações Sujos", Fernando Morais, Editora Companhia das Letras,
São Paulo, 2000)
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