sexta-feira, 21 de novembro de 2008

 

A Influência do Zen           


Antes de serem transmitidas para o Japão, as duas maiores escolas dominantes do Ch’an, na China, eram: a que traçou sua linhagem a partir do sexto Patriarca até Lin-chi e a que traçou sua linhagem revendo Ts’ao-shan Pen-chi (em japonês, Sozan Honjaku, 840-901) e Tung- shan Lian-chieh (em japonês: Tozan Ryokai, 807-869), então conhecida como Escola de Ts’ao-tung, na China. No Japão, essas duas escolas ficaram conhecidas como Rinzai e Soto, respectivamente. A Rinzai foi introduzida, primeiramente, no Japão, por Eisai (1141- 1215), e a Soto, por Eihei Dogen Kigen.

Em 1184, Eisai construiu o primeiro tempo do Zen no Japão. Chama-se Shofuku-ji e até hoje existe. Mais tarde, mudou-se para a capital Imperial, Kyoto, onde a Escola Rinzai tornou-se firmemente estabelecida.

Entre os séculos XII e XIV, o Rinzai Zen passou a ser muito popular na classe dos samurais que dominava o Japão. Os samurais valorizaram a imediata praticabilidade do treinamento, que era adaptado para satisfazer as necessidades urgentes daqueles anos de turbulência. A coragem e a determinação dos guerreiros fizeram deles discípulos particularmente fortes. Abriram-se templos do Rinzai, em Kamakura, a capital militar, e o sistema nativo do “Guerreiro Zen”, com seu koan próprio, começou a se expandir. Nesse meio tempo, o Soto Zen desenvolveu-se independentemente da agitação política da capital.

Dogen nasceu em 1200. Seu pai morreu quando ele tinha dois anos, e sua mãe faleceu cinco anos depois. Com a idade de treze anos foi viver com um tio, um devoto do Budismo. A perda de seus pais e o incentivo de seu tio confirmaram a decisão do Dogen de tornar-se monge. Alguns anos mais tarde, foi para o mosteiro de Kenninjo, fundado por Eisai, e estudou com o sucessor do Dharma de Eisai, Myozen. Durante o tempo que ficou em Kenninjo, o Dogen completou seu treinamento na tradição Rinzai e recebeu o “Inka”, o selo de mestre. Apesar disso, não tinha resolvido satisfatoriamente seu dilema básico quanto ao significado da vida. Suas dúvidas levaram-no a empreender uma viagem arriscada, para a China, em 1223. Uma vez lá, estudou com o Mestre Ju-ching (1163-1228) no mosteiro de T’ien-T’ung. Tudo leva a crer que o treinamento foi duro e, no início, não teve uma vida fácil. Seu Daí-Kensho ocorreu da seguinte maneira:

Seguindo o exemplo do seu mestre, o Dogen se dedicou à prática do Zazen noite e dia. De manhã cedo, enquanto dava seu giro costumeiro para fazer uma inspeção, no início do período do Zazen formal, Ju- ching encontrou um dos monges cochilando. Repreendendo o monge, disse: “A prática do Zazen é o deixar cair o corpo e a mente. O que você espera conseguir cochilando?”

Ao ouvir estas palavras, Dogen compreendeu a Iluminação, o olho de sua mente abriu-se completamnete. Dirigindo-se para a sala de Ju-ching, a fim de ter sua iluminação confirmada como genuína, o Dogen queimou um incenso e prostou-se perante seu mestre.

“O que você quer dizer com isso?” perguntou Ju-ching.

“Eu experimentei o deixar cair o corpo e a mente,” respondeu o Dogen.

Ju-ching vendo que a iluminação do Dogen era genuína disse por fim: “Você realmente deixou cair o corpo e a mente!”

O Dogen, entretanto, insistiu em dizer: “Eu apenas acabei de compreender a iluminação, não me aprove com tanta felicidade.”

“Eu não estou aprovando facilmente.”

O Dogen ainda insatisfeito persistiu: “Em que você se baseia para dizer que não me aprovou facilmente?”

Ju-ching respondeu: “Corpo e mente caíram!”

Ouvindo isso o Dogen prostou-se diante o mestre em profundo respeito e gratidão, mostrando que realmente havia transcendido sua mente discriminatória.

(tirado de Dogen Zen, por Yuho Yokoi)

Em 1236, Dogen fundou seu próprio templo, e sua fama de mestre começou a se espalhar. Hoje, ele é reverenciado como um dos maiores gênios religiosos do Japão. Dogen não tinha nada em comum com as lutas do poder aristocrático e militar do seu tempo e isto, combinado com sua insistência em afirmar que mulheres e homens eram igualmente capazes de realizar o Caminho de Buda, fez do Soto uma tradição realmente sem classes.

Foge ao escopo deste livro fornecer uma pesquisa detalhada dos ensinamentos do Dogen; todavia, deve-se mencionar que seu impacto sobre o Zen japonês foi incomensurável e nenhum discípulo bem-intencionado poderá desprezar sua obra.

Não estaremos exagerando se dissermos que, após a introdução do Soto e do Rinzai no Japão, como escolas separadas, elas se desenvolveram e floresceram independentes uma da outra por quase 700 anos. Se o vigor dessas escolas foi firmemente mantido, através dos séculos, é um assunto que envolve certa controvérsia. O Zenji Hakuin, por exemplo, é considerado por toda a parte, no Japão, como o reformador do Rinzai Zen, no século XVII, que estava naquela época se tornando bastante “insípido”. Similarmente, os métodos de ensino de mestre Bankei separaram os sistemas tradicionais completamente.

Durante todos estes anos, uma escola tem criticado a outra, e cada uma pode estar certa dentro de sua própria perspectiva. Os praticantes do Rinzai criticam seus congêneres do Soto por subestimarem a realização do Satori, e os últimos criticam os primeiros por não considerarem que a prática diária do Caminho não é nada mais do que realizar a Iluminação.

É preciso que alguém tenha a capacidade do próprio Dogen para obter a aprovação de mestre em uma tradição, e ainda reconhecer que existe algo a ser aprendido com a outra. Entretanto, foi precisamente isto que o Roshi Daiun Sogaku Harada (1872-1963) fez. O Roshi Yasutani, seu sucessor do Dharma, disse a respeito dele: “Embora ele próprio fosse da seita Soto, não conseguiu encontrar um mestre verdadeiramente realizado naquele seita e, portanto, submeteu-se ao treinamento no Shogen-ji e, depois, no Nansen-ji, dois mosteiros Rinzai. Em Nansen-ji, finalmente, apoderou-se do segredo mais profundo do Zen, sob a orientação do Roshi Doku-tan, um eminente mestre.” Em conseqüência, os sucessores do Dharma do Roshi Harada usaram ambos os métodos de ensino, Soto e Rinzai, e argumentaram que assim procediam de uma maneira inovadora, tradicional e flexível.

Menciona-se tal fato devido à profunda influência que o Roshi Yasutani e outros dessa linhagem tiveram sobre o desenvolvimento do Zen no Ocidente.

*Texto retirado do livro "Sumie - Um Caminho para o Zen" (Jordan Augusto, 2002) 

 




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