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As
artes visuais chinesas remontam as primeiras tentativas mágicas taoístas de
entender, de controlar e de predizer.
Embora
a arte e a poesia chinesa estivessem, em geral, preocupadas com cenas da
natureza, elas jamais se limitaram à simples imitação. Conscientemente ou
não, artistas e poetas procuraram revelar um conteúdo metafísico mais
profundo.
Chang
Chung-yuan escreve: “Na pintura, o chi
revela a realidade objetiva da forma”.
Em
outras palavras, o chi faz a pintura
existir por si e movimenta-a além dela própria. É o que Jacques Maritain
chama de ‘ação imanente’ em sua exposição sobre a intuição criativa. A
ação dos artistas nasce da sua concepção do que seja o universal.

Isto
parece bastante profundo e denso. Não se trata de saber se o Taoísmo
representa alguma coisa ou se os artistas são o que sempre foram por toda
parte.
Cooper
diz o seguinte: “O artista não safa para estudar a natureza, para usá-la
como fuga e voltar à noite para seu estúdio na cidade. Ele vivia com a
natureza e era parte, porção dela. Ela não era exterior a ele de modo algum,
algo para acalmar e se deliciar, mas era o seu próprio ser. Ele estava
inteiramente identificado com a harmonia e com os ritmos cósmicos numa
percepção total. A arte taoísta era inteiramente metafísica, a arte era o
espelho da alma”.
Contudo,
havia um lado mais claro para a criatividade. É como se os artistas taoístas e
zen fossem e ainda sejam bem mais humanos. Alan Watts, de maneira nada
surpreendente ou inesperada, prefere citar este quadro de um pintor taoísta no
trabalho:
“Chen
Jung chamava a atenção pela simplicidade de sua vida e pela competência com
que cumpria seus deveres como magistrado. Enfim, era admirado pelos seus
hábitos de beberrão inveterado. Ele fazia nuvens borrifando tinta em seus
quadros. Para a neblina, borrifava água. Quando excitado pelo vinho, dava um
sonoro grito e, apanhando o chapéu, usava-o como pincel, besuntando rudemente o
desenho, e depois terminava o trabalho com um pincel adequado”.
Como
diz Bolen: “Fazer a experiência do Tao eterno exige que nossa consciência
perceba através do funcionamento do hemisfério cerebral direito, desligando o
funcionamento analítico e cético do hemisfério esquerdo”.

Pode-se
argumentar que um artista apenas tem a consciência de que determinadas
atividades idiossincráticas precipitam o acesso ao imanente, mas não tem medo
de utilizá-las. A espontaneidade e a ausência de convenções associadas ao
Taoísmo teriam feito com que isso ficasse mais fácil.
Tanto
na arte como em todos os outros aspectos da vida taoísta, a meta é atingir a
harmonia, não importa como. A harmonia é a solução dos opostos, e assim,
aproxima-se de uma consideração mais completa do yin e do yang.
A
arte taoísta chinesa de todos os tipos está cheia de yin e de yang, um
proporcionando equilíbrio ao outro. O yang, sendo positivo, ativo, masculino,
penetrante, vermelho e celestial, é simbolizado na pintura e na poesia pelo
garanhão, pelo dragão, pelo carneiro, pelo galo, pelos animais com chifres,
pelo jade, pela montanha, pelo verão e pelo sul. O yin, sendo negativo,
feminino, receptivo, passivo, escuro e terrestre, é simbolizado pelo fungo,
pelas formas espiraladas das nuvens e da água, pelos vales, pelo inverno, pelo
norte, pelo vaso, pelo pêssego, pela fêmea do dragão, pela peônia, pelos
peixes e pelo crisântemo. Colocando esses símbolos em justaposição, os
taoístas esperavam que um influenciaria e proporcionaria equilíbrio ao outro.
A tensão desse esforço é o que dá força a esses trabalhos.
Em
suma, nos tempos antigos, os trabalhos de arte eram feitos e vistos como
especiais e não exclusivamente como magia prática. Suas representações da
harmonia tinham a intenção de induzir harmonia.
Na
arte taoísta, assim como na ioga e na saúde, o objetivo é a harmonia entre o
yin e o yang. Essa harmonia está voltada a proporcionar uma aproximação entre
os seres humanos e seu universo caótico e turbulento, do qual são parte muito
mais integrada do que qualquer aceitação mais branda do Ocidente em relação
ao que essas palavras poderiam deixar implícito.
Chang
Chung-yuan cita Hsuing Shih-Li, que explica:
“O
que é yin indica forma; o que é yang indica espírito. Dez mil coisas (o mundo
cotidiano), todas com uma forma e escondendo um espírito, estão em movimento
com a multidão. Quando o yin e o yang se harmonizam, as dez mil coisas são
transformadas. Chama-se a isso a união do chi”.
Já
que é uma função do chi
unificar a aparência (yin) com a realidade (yang) das dez mil coisas, o artista
que tentar fazer o mesmo deverá aliar-se ao Espírito Universal para conseguir
isso.
Na
composição de um quadro, como nas provas de habilidade das artes marciais,
este intercâmbio e equilíbrio entre yin e yang serão vistos muito sutilmente
no uso do claro e do escuro, do espaço e do não-espaço.

De
maneira geral, quando o lado esquerdo estiver leve, o lado direito deve estar
carregado; quando o lado direito estiver leve, então o esquerdo deve estar
carregado. O vazio branco é yang ou leve; a pincelada leve de tinta é yin ou
escura. Para desenhar árvores ou pedras, usa-se a pincelada contínua; para
desenhar nuvens e neblinas, usa-se a pincelada leve. Através do que é leve
movimenta-se o que é denso, e o que é denso, se torna leve. Assim todo o
quadro estará cheio do ritmo da vida.
No
uso de paisagens na pintura, a relação de montanhas e de vales revela essa
harmonia. Ao menos para deixar entrever a unidade da arte chinesa com outros
aspectos da vida cotidiana.
As
elevações do solo que indicam a presença do sopro da natureza, com suas duas
correntes de energia masculina e feminina, positiva e negativa, simbolicamente
chamadas dragão e tigre. A posição relativa e a configuração destas são
indicadas por colinas ou por montanhas, são o ponto mais importante no que
concerne aos perfis e às formas da superfície da Terra.
O
yin não pode existir sem o yang. Segundo os taoístas, as tragédias humanas
acontecem porque eles muitas vezes estão em desequilíbrio. Fora do reino
humano, toda a teia do Tao é mantida unida pelo seu intercâmbio entre yin e
yang. Mas, como Lao Tzu nos lembra, eles são “harmonizados pelo Sopro
imaterial (o chi)”.
O Pao-p’u tzu afirma: “O homem existe no chi
e o chi está dentro do próprio
homem. Desde o Céu e a Terra a todas as espécies da criação, não há nada
que não precise do chi
para permanecer vivo”.
O
chi preenche o mundo interior e
exterior do taoísta, vitalizando todas as coisas, transmitindo uma corrente de
energia a todas as coisas animadas e inanimadas. Os taoístas acreditam que ele
é exalado em forma visível nas montanhas, como nuvens e neblinas. Não é de
surpreender, portanto, que as nuvens e as neblinas, ondulando em turbilhão,
figurem tanto em sua arte e poesia e estejam refletidas em sua caligrafia e
dança. Essas representações místicas nos re-asseguram da infusão do chi
em todas as coisas, sustentando e revigorando o universo.
Entretanto,
ele tem a consciência de que tudo se encontra num estado de fluxo. O vento
forte pode mudar a forma de uma nuvem; o rio em queda pode modificar a forma da
sua margem e os processos de mudança na crosta da Terra, a forma das montanhas.
Nada é permanente: tudo faz parte da relação entre o yin e o yang,
harmonizado pelo sopro do chi,
já destinado a retornar ao Tao primordial.
O
mundo das dez mil coisas não permanece estático; ele está em movimento
constante, mudando sempre, fluindo. Diante disso, fixá-lo no papel ou na seda,
na pedra, na argila ou em palavras parece uma contradição.
No
entanto, os grandes artistas e poetas chineses inventaram meios de transmitir
esse movimento e de manter essas tensões em suas platéias, para fazer com que
participassem de fato e, assim, produzissem no momento seguinte uma percepção
de movimento.
Usando
tinta diluída sobre seda ou papel poroso, o pincel ajuda o pintor ou o
calígrafo (em geral, a mesma pessoa) nisso. Na verdade, o meio utilizado exige
do artista a manutenção da “imediatez” do processo.
Como
diz Watts ao analisar a arte da caligrafia: “Se você hesita, segurando o
pincel por tempo demais num lugar, ou se se apressa, ou tenta corrigir o que já
escreveu, os borrões ficam muito evidentes. Mas se você escrever bem, terá ao
mesmo tempo a sensação de que o trabalho está acontecendo por si, que o
pincel está escrevendo sozinho - como um rio que faz curvas elegantes, seguindo
a linha de menor resistência”.
É
na arte da caligrafia que a íntima relação do homem com o universo está
especialmente bem ilustrada. O homem não está separado do resto da criação:
ele é parte integrante dela.
O
Tao que o Taoísmo conhece e com o qual sua arte está relacionada é uma teia
inconsútil de movimento e de mudança ininterrupta, repleta de ondulações, de
ondas, de padrões de ondulações e de “ondas fixas” temporárias, como um
rio. Cada observador em si é uma função integrante dessa teia.
“...ao
mesmo tempo, há a sensação de que o trabalho está acontecendo por si, de que
o pincel está escrevendo sozinho.”
A
partir de traços antigos de tinta vermelha e preta (utilizada para pintar
caracteres sobre conchas de tartaruga e ossos de animais, com o propósito de
oráculo), pode-se perceber que a arte do sumi igualmente antecede as várias
formas de pintura atuais. O mais antigo exemplar foi encontrado junto com um
carvão em um túmulo do período da dinastia Qin, o primeiro Imperador da China
(221 a 202 a.C.). Antigas escrituras indicam que o primeiro sumi do Japão foi
trazido da China em 610, mas evidências arqueológicas sugerem que já era
utilizado anteriormente a isso. Em 822, houve publicações sobre o uso de sumi,
possibilitando sua propagação por todo o Japão.
Embora
o sumi japonês tenha sido baseado no sumi chinês porém modificado de acordo
com o local e clima, o sumi produzido no período Meiji (1868 – 1912) ainda
era inferior se comparado em termos de qualidade. O sumi chinês, além de ter
uma vida útil muito longa, com o tempo uma profundidade especial emerge de sua
cor negra, apurando-a. Por isso, o “kobuko” – sumi de 400 anos atrás –
é tão apreciado e conseqüentemente tão caro. De qualquer forma, o sumi atual
japonês é de boa qualidade e as duas maiores áreas de produção são Nara e
Suzuka. Kumano, por sua vez, é famoso pela qualidade dos seus sumi.

A
pintura chinesa tradicional pode ser compreendida em quatro categorias
principais: paisagens, flores, pássaros e pintura de figura humana mais
antecipada. A arte, quando era entusiasticamente apoiada por governantes das
dinastias T’ang e Sung, foi mais política e educacional. As pinturas eram
mais sérias e rígidas, e também mais elaboradas. A arte, em geral, tinha
funções social e moral.
Com
o tempo, a literatura começou a ter um papel mais importante na pintura. O
estilo de pintura da “corte” diminuiu, e a arte ficou ao domínio dos mais
letrados. Como resultado, pintura ficou mais original e espontânea. Pintores
incluíam poemas junto com suas imagens. Mais tarde, quando a pintura chinesa
havia se espalhado no Japão, o sumie foi era como a poesia em si. Muitas
gravuras eram verdadeiros haiku visuais acompanhados por escrita caligráfica.
Igualmente,
pintores chineses e japoneses passaram a assinar e carimbar seus trabalhos. Os
carimbos eram esculpidos à mão em jade (para o imperador e a nobreza) ou cobre
(para a população geral). A gravura do carimbo (hanko) foi feita para indicar
a autenticidade de uma pintura, assim como para somar outra dimensão para a
composição da pintura. O olho é levado da imagem para a escrita, e daí para
a assinatura, em um agradável círculo de conexão.
*Texto
retirado do livro "Sumie - Um Caminho para o Zen" (Jordan Augusto,
2002)
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