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A
arte sumi (tinta) foi introduzida no Japão no sétimo século chinês, cujas
datas remontam a cerca de 2000 a.C. Ao longo do tempo, essa arte se estabeleceu
como também típica japonesa, com grandes contribuições feitas pelo monge
Toba-sojo, que desenhou “Choju Giga”, no período Heyan (795-1185), e Sesshu,
no período Muramaki (1333-1587), considerado o primeiro estilo puramente
japonês de desenho sumie.
São
termos relacionados à arte: sumi (tinta), suzuri (bastão de tinta), bokusho
(arte), kami (papel), e o fude (pincel, escova).
Sumie,
também chamado “suiboku-ga”, refere-se à pintura japonesa de tinta
monocromática, uma técnica que começou na China durante a Dinastia Sung
(960-1274) e foi assimilada pelos japoneses no século XIV com a ajuda de monges
Zen-Budistas. O sumie tem suas raízes na caligrafia chinesa; as pinceladas
aprendidas na caligrafia são as mesmas utilizadas na pintura.
O
mais importante é que o sumie representa não somente uma bela e singular forma
de arte, mas também uma filosofia. Enquanto a maioria da pintura ocidental
clássica teve como meta a descrição realista do mundo e seus objetos, o sumie
sempre foi expressão de percepção do artista. Pintores tentando capturar a
essência de um objeto, pessoa, ou paisagem: mais importância para a sugestão
que para o realismo. A pintura ocidental usa a cor para criar sombras, tons e um
sentido de espaço. O sumie tradicional, por outro lado, usa unicamente tinta
preta. Na pintura oriental, a tinta preta é a mais alta simplificação de cor.
No
início do século X o Japão começou um grande intercâmbio com a China,
enviando estudantes para assimilarem o que de melhor a cultura chinesa possuía,
destacando-se principalmente a caligrafia e a religião. Este intercâmbio
continuou por mais alguns séculos, até que através de mudanças internas os
japoneses adaptaram aquilo que tinham aprendido conforme suas necessidades. Uma
herança deixada por este laço de amizade foi a semente daquilo que se
transformaria no Zen-Budismo, que têm como data de nascimento o século XII.
O
Sumie, conforme sua origem, possui como principal característica a rapidez em
que é realizado, a inspiração artística é transmitida no prazo mais curto
possível, onde não existe tempo para reflexão ou pensamento daquilo que está
sendo realizado, o artista deve seguir sua inspiração espontânea. Não existe
a possibilidade de nenhuma correção ou repetição, um traço deve ser
encarado como único, se existir algum erro ele está “morto” e portando
toda obra perdida.
Esse
foi o espírito que levou muitos Samurais a praticarem o Zen e o Sumie. Um golpe
de espada deve ser realizado espontaneamente sem chance para correções ou
reflexões, caso contrário já se estaria morto devido à velocidade que
ocorriam os confrontos.
No
Sumie, utiliza-se uma tinta feita de fuligem e cola (Sumi) e pincéis de pêlo
de ovelha ou texugo de maneira a reter muito líquido. Mas é o papel, na maior
parte das vezes fino e absorvente, que dá a principal característica deste
tipo de pintura.
A
razão de se escolher um material tão frágil para transmitir a inspiração
artística, é que ela deve vir à tona no prazo mais curto possível. Se o
pincel se retardar muito sobre o papel este é transposto. A cor branca que fica
de fundo no papel (cor original) é relacionada ao Universo. Não se vê um
fundo definido e assim a característica relacionada ao vazio é preservada.
A
filosofia da pintura Sumie é passar para o papel o espírito de um objeto, não
existindo pretensão para criar uma obra realista. Cada pincelada deve estar
cheia de energia (Ki - energia vital que existe em todas as coisas). Cada traço
tem que mostrar sua vitalidade e vida. Um ponto não representa uma águia ou um
traço o Monte Fuji. O ponto é um pássaro e o traço é a montanha. O artista
Sumie, assim como um mestre da confecção da espada samurai, coloca seu
espírito na obra e com isso cria vida através de sua expressão artística.
Shin’ichi
Hisamatsu, filósofo e profundo conhecedor da arte Zen, ressalta sete
particularidades que devem existir em uma obra Zen, são elas: assimetria (fukinsei),
singeleza (kanso), naturalidade (shizen), profundidade (yugen), desapego (datsuzoku),
quietude e serenidade interior (seijaku). Portanto, não são todas as obras que
podem ser classificadas como Zen-Budistas.
Os
principais temas relacionados ao Sumie são: bambus, ameixeiras, orquídeas,
flores, pássaros e paisagens, não esquecendo aqueles ligados a temas
religiosos como pinturas de patriarcas ou parábolas.
Existe
uma tendência atual de colocar cores em algumas partes da pintura,
principalmente onde a cor é uma forma de demonstração do espírito do objeto.
Esse fato ocorre em muitos temas, como por exemplo, nas pétalas de flores.
Hoje
no Japão, muitos executivos e pessoas de altos cargos praticam o Sumie, não
somente como forma de relaxamento ou busca de paz interior, mas também como
forma de melhorarem a eficiência nos negócios, principalmente no que diz
respeito à tomada de decisões rápidas.
Para
se pintar Sumie, o praticante tem que conhecer perfeitamente o objeto que vai
pintar, para que não exista reflexão ou dúvida durante o processo criativo
deve ocorrer uma observação quase que constante das coisas à volta, assim sua
prática também traz uma consciência maior sobre a vida, pois com ela
começa-se a existir uma maior sensibilidade das coisas e pessoas que nos
cercam.
A
combinação da pintura, da poesia e da caligrafia foi a composição artística
preferida no Japão durante a primeira metade do século XV, principalmente nos
círculos zen. A programação desses “Rolos com Poemas e Pinturas” –
Shigajiku – e o empenho em realizar uma obra de arte interligada em todos os
níveis e sentidos cristalizaram-se aqui num caminho. O mais tardar, a partir da
época do mestre Ch’na Chao-chou Ts’ung-shen (778-897), personalidade
original, foi também considerada nos círculos zen como algo extraordinário.
Eventualmente,
comparava-se o desligamento das emoções e dos desejos e o aprofundamento no
decorrer da meditação com a penetração numa abóbora: a princípio é
difícil, a abertura é muito apertada; a seguir, a visão se amplia, porém,
logo chegamos a uma passagem estreita; conseguindo ultrapassá-la, temos a
sensação de estar num lago tranqüilo. Mas, finalmente, se quisermos
prosseguir até a libertação total de todos os estreitamentos e limitações
do mundo da manifestação, é preciso que a abóbora seja destroçada.
Uma
pintura de Sengai (1750-1837), muito elogiada pela sua riqueza imaginativa e
humorística, foi a de uma abóbora dançando sobre as ondas. A inscrição que
a acompanha explica sua semelhança à compreensão da verdade última que
escapa sem cessar, apesar dos esforços mais renitentes. Ora a abóbora
mergulha, ora emerge novamente, e flutua diante de nossos olhos. Só não
conseguimos agarrá-la. Só a confiança cega e o ininterrupto aparar-se no
apoio da fé e no objetivo da iluminação levam à outra margem de modo
totalmente inesperado, quando já nem mais se nutria essa esperança. Com
freqüência isso ocorre somente numa idade avançada. É o que Hakuin
(1685-1768) deseja transmitir através de seus quadros-parábolas, repetidos
tantas vezes de modo quase idêntico, nos quais dois ou três cegos, tateando
com cuidado, atravessam uma pequena ponte. Seu comentário a respeito diz o
seguinte: “Que o tatear dos cegos ao atravessar uma ponte sirva de modelo de
vida no decorrer da velhice...” (p.104 – o Zen na Arte da Pintura. Brinker,
Helmut. Ed. Pensamento).
Dois
temas foram transmitidos à arte zen com uma preferência especial. São eles:
bambus e orquídeas, na maioria das vezes interligados a rochas bizarras.
Graças às suas formas encantadoras, à sua elegância e a seus atributos, na
Ásia, como fonte inesgotável de inspiração, ambas as plantas prestam-se como
meio de expressão ideal e específico às idéias zen-budistas. Além disso, a
ligação tão próxima entre a pintura e a arte caligráfica ofereceu,
principalmente aos monges aficionados, a oportunidade da redação imediata e
espontânea de intuições espirituais ou de sensações pessoais...
No
leste asiático, o bambu representa valores éticos fundamentais. Seu
crescimento em linha reta é comparado ao caráter íntegro de um homem
exemplar; seu tronco firme, regular e elástico, à retidão interior que,
apesar de toda a flexibilidade de sua condescendência, denota a constância
inabalável e a firmeza de um nobre. Suas folhas verdes sempre frescas e
inalteradas no decorrer das estações são comparadas à estabilidade, à
força de resistência e à fidelidade inabalável de um caráter válido como
modelo de ética.
Na
China encontramos passagens que mostram:“A provisão inesgotável dos
Pessegueiros em Flor”, estão cheios de metáforas... A ligação simbólica
dessa planta com a pureza do espírito sonoro e iluminado fez com que o
pessegueiro em flor se tornasse parte firmemente integrante da literatura e da
pintura cultivada pelos monges zen. O pessegueiro em flor, junto com o bambu e o
pinheiro, já eram apreciados, desde as épocas Sung e Yuang, como um dos “Três
amigos invernais”(sui-han san-yu).
Desse
modo, a imagem de um mar branco de pessegueiros em flor ligou-se ao pensamento
da pureza intocada da neve no inverno e, num sentido mais amplo, à ininterrupta
sobrevivência durante a estação mais dura.
Shakyamuni
se enrijeceu durante os seis anos que passou no gelo e na neve, na solidão das
montanhas, antes de voltar-se novamente para o mundo, a fim de proclamar o seu
ensinamento. Nesse sentido, todas as imagens dos pessegueiros em flor do
Rikkyoku-na como as duas paisagens invernais de Linag K’ai – portanto, à
primeira vista, temas meramente mundanos – são apropriados ao contexto
religioso do Shussan Shaka. Na China, conceitos como “gelo” e “frio”
são metáforas à quietude, hábitos lingüísticos adotados pelos budistas na
última etapa do Taoísmo.
*Texto
retirado do livro "Sumie - Um Caminho para o Zen" (Jordan Augusto,
2002)
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