A história do O-Chikara se perde com o tempo, nos deixando relatos que foram passados pelos mestres mais antigos. Relatos que se diferem um do outro, existindo alguns pontos semelhantes.
De todos os estudos realizados, o que mais se aproxima é o que foi defendido pelo mestre Hideo
Sasaki.
Em meados de 1194, período histórico da Era Kamakura, iniciam-se conflitos com grande força, ocasionando batalhas que entraram para a história do antigo Japão.
De acordo com a história da arte do Bugei, que nesta época era conhecida como a arte do Uchiu Shi-zén (domínio da natureza e espaço), o O-Chikara iniciou-se em meio aos rebeldes que davam continuidade aos costumes e culturas do povo japonês. É fato que os líderes dos rebeldes foram da classe da nobreza do xogum, e quando exilados, tornaram-se apenas ronin (samurai sem mestre) que se inspiravam nos deuses para formar a cultura de um novo povo.

Nesta época, em que acontecimentos e roubos enfureceram a classe nobre, foi colocada a prêmio a cabeça de todos os rebeldes que se diferenciavam das pessoas pelos seus trajes, cabelos longos e por não se comunicarem em nihon-go (língua japonesa), e sim em shizen-go (dialeto da natureza), que julgavam ter aprendido por inspiração dos Kami (deuses).
Desta maneira, tomava-se fácil o reconhecimento de um rebelde, iniciando-se assim, um extermínio que entrou para a história do Kurai Bugei.
Sabendo que ataques repentinos vinham acontecendo, um dos líderes da guarda do xogum, chamado Koji Yameda, mandou que uma cavalaria simulasse um carregamento falso e enviou espiões treinados que deviam observar e descobrir a localização dos rebeldes. Feito isto, após o ataque, descobriram que a floresta dava cobertura, e que dentro dela havia aldeias que se subdividiam em vários locais, mostrando que não era apenas uma.
Cada ataque era feito por locais diferentes e nas várias aldeias. Entregue o relato ao xogum, iniciou-se uma perseguição frenética que resultou na captura dos rebeldes.
As cabeças de 1089 rebeldes foram expostas em toda região. Foi uma espécie de exemplo àqueles que pensavam em se refugiar com os mesmos e iniciar a formação de novas quadrilhas.
A história conta que tamanha era a tristeza dentro da floresta, que as árvores choravam em meio a tanto sangue derramado de mulheres e crianças pela cavalaria, que se preparava para voltar e exterminar o que restou.
Pela primeira vez era abalada a classe shi-zén. O desespero chegou a tomar conta dos líderes que sempre eram escondidos e protegidos pelos seus súditos.
Naquela época, era comum o uso de pseudônimos pois, se alguém fosse capturado, nem mesmo aquela pessoa saberia seu nome verdadeiro. O desespero era tamanho que muitos abandonaram as aldeias. Em uma noite de vento muito forte e grande tempestade, a casa dos alimentos, uma espécie de galpão, estava com a porta aberta e com uma forte chuva molhando os alimentos.
Seiji Kato, um dos mais graduados da aldeia, dirigiu-se rapidamente ao galpão, que ficava aproximadamente 20 metros de onde estava, quando foi surpreendido por uma imagem sem forma que tomou totalmente a sua visão deixando-o petrificado e assustado com o fenômeno que ocorrera. Recuou, caindo sentado cm cima de urnas folhagens que estavam nas raízes de uma árvore e focou a imagem por um instante, tentando definir o que estava à sua frente.
Notava apenas que era algo grande e forte, mas não conseguia enxergar o rosto, pois a sombra da noite não lhe dava definição. Sentiu uma grande calma invadir o seu interior e, de forma tranqüila, procurou entendera estranha forma movimentou-se e a luz de um relâmpago iluminou o local em que estava. Notou que tinha forma humana mas não era humana. Colocava-se de forma curvada e agressiva. Pôde definir que tinha cabeça de corvo, corpo de homem, que por sinal era de grande força e definição muscular. Os pés pareciam que tinham apenas três dedos, e em certos momentos, apresentava-se como se estivesse com um kimono de samurai, mas em uma cor bonita e sombria ao mesmo tempo.
A estranha forma de “meio homem, meio bicho” se dirigiu a ele de uma forma muito agressiva, com uma voz forte e mórbida, pediu para que ficasse calmo pois estava em função de ajuda, não para fazer mau. Mesmo com aquela voz agressiva, algo lhe soava de muita sabedoria e o fazia sentir-se bem. Dizia representar o reino dos Tengu, que eram tidos, naquela época, como demônios que roubavam crianças para se alimentarem de seu sangue. Muitos boatos tomam a era Kamakura a respeito dos demônios da floresta. Quando Kato escutou a palavra “Tengu”, um grande calafrio percorreu seu corpo, deixando-o paralisado e sem coragem para dizer algo. A sensação de gelo tomava seus músculos, fazendo-o sentir o que jamais sentirão estranho tornou-lhe a dizer que vinha em função de ajuda e começou a contar sobre seu povo, deixando Kato mais à vontade.
Ele se apresentou com outro nome, e o estranho disse-lhe que não havia necessidade de esconder sua identidade. Isto deixou-o assustado já que este era um fato secreto e que somente eles conheciam. o estranho disse que sabia de sua vida e da dos outros, deixando-o impressionado. Disse-lhe sobre uma grande guerra que se aproximava e qual a maneira de se proceder. Mencionou que logo voltariam a conversar e que ele não se assustasse. Então, Kato retrucou: você é um demônio!
O estranho respondeu com tamanha sabedoria que o fez pensar por um instante.
Kato voltou à sua casa e deitou-se. No dia seguinte, já não sabia se havia sonhado ou se de fato conversara com o estranho. Lembrou dos alimentos e foi desesperadamente ver se sobrara algum após a tempestade e notou que nenhum alimento estava molhado. Viu marcas de sangue nas paredes e o desespero voltou a bater em seu peito. recorreu aos colegas contando o ocorrido. Foi como se todos tivessem visto algo que impressionou muito, pois estavam todos paralisados. Keita era o mais velho da aldeia, tinha uma visão mais esclarecida sobre o acontecimento, mas um fato o preocupara muito. Se Tengu, que era considerado o pai dos demônios, estava ali, o que ele queria em troca?
Esta questão ficou na cabeça de Keita por algumas horas e depois mandou que reunissem a aldeia e fizessem o que o Tengu havia dito: se escondessem e não fizessem nada, que no dia da invasão, haveria uma grande tempestade e que as árvores chorariam novamente. Seria o sinal do dia da batalha.
Tengu deu um aviso de que ninguém deveria interferir e que matassem um grande bicho lhes ofertassem o sangue. Todos ficaram com medo de estarem ali firmando um “pacto” com o mal. Logo, entre eles, ocorreu uma revolta dizendo que não concordavam e que não fariam nada para que essa história tivesse êxito. Então Keita lhes disse que se todos deveriam morrer, que não fosse pelas mãos dos homens do xogum. Chegado o esperado dia, a lua estava cheia e a noite silenciosa e sombria. A aldeia, como todas as noites, se reunia em frente a fogueira pois a chegada do inverno fizera cair bastante a temperatura. Naquele momento, em frente a fogueira era como se a cada dia sobrevivessem a uma nova angústia. A ansiedade era evidente nos olhos de cada um, quando, de repente, um vento frio apagou toda a fogueira e congelou o ambiente.
Logo se escutou o choro das árvores, mas era como o choro de uma criança, um choro angustiante que penetrava o interior e paralisava o sistema nervoso. Parece que todos sabiam que chegara a hora. Buscaram uma espécie de javali do mato que haviam guardado para a oferenda. Feito da maneira que o Tengu havia dito, escutaram o urro mórbido e desesperador do animal, que uivava como se algo grande e forte o despedaçasse. Observaram aquilo com dúvida e medo quando de súbito escutaram o barulho de tropéis de cavalos que se aproximavam da entrada da aldeia. Se esconderam de acordo com o combinado e não demoraram muito a avistar os homens do xogum nas imediações da aldeia. Então, começou-se a escutar gritos de homens desesperados, revoadas de cavalos que refugavam e jogavam os homens do xogum no chão. Nervosos, não entendiam as reações dos cavalos que não conseguiam sequer atravessar as touceiras de capim que escondiam as margens do riacho que dividia as extensões da aldeia e, da mesma forma que escutaram os gritos do javali escutaram também, os gritos dos cavaleiros que vinham armados e preparados para um verdadeiro massacre.
Passado todo o período, cessou-se a tempestade e todas as ventanias, e então uma grande alegria se fez no rosto de Keita, deixando-o com um semblante de felicidade que contagiava seus companheiros que se sentiam como se tivessem nascido de novo. Reuniram-se então e organizaram uma grande festa em agradecimento ao reino dos Tengu. Foram feitas muitas oferendas e começaram a entender que uma nova amizade surgia.
Após este feito, muitas conversas Kato teve com o estranho, que cada vez lhe ensinava mais e mais. Certa vez, Keita resolveu ir até ao encontro, e pela primeira vez se sentiu aterrorizado com o que vira, mas usou de toda a sua sabedoria para compreender o que o estranho dizia. Durante uma conversa uma vez, o estranho disse que o povo dos Tengu eram tidos como os guardiões da verdade devido à sua sabedoria, e que eram portadores de uma cultura mística muito grande e que chegara a hora do povo escolhido aprender esta arte. Este fato preocupou de novo Keita, que não sabia do que se tratava, e sim, que deveria aprender. Se preparou e foi ao encontro marcado com o estranho que já estava à sua espera.
Foi a primeira vez que Keita escutou alguém dizer sobre manifestações de energias. O estranho dizia que não apareceria mais e que conversaria através da boca de Keita. Então, o estranho disse que deveria reunir toda a sua aldeia, fazer uma grande fogueira, jogando nela o sangue e que cantassem a oração que havia lhe ensinado, e o principal: que não tivessem medo. Chegada a hora, Keita comandou o ritual como havia aprendido e pediu para que todos cantassem alto o que havia pedido.