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O
depoimento a seguir esclarece vários aspectos da chegada do Bugei ao Estado
de Goiás.
“Hoje, após 26 anos, me lembro com clareza como foi que tudo ocorreu em Goiás.
Trabalhava em Campinas, que era como uma outra cidade, e que futuramente se
transformaria em um bairro de Goiânia. Ajudava com a verduras que trazíamos e
distribuíamos na feira. Ogawa Kazuo havia chegado há pouco e procurava uma
forma alternativa de sustentar sua família. Como não gostava de falar português,
sempre o auxiliava em negociações que exigiam um pouco mais de conversa. Muito
se tem a dizer desta figura incomparável, que foi Kazuo Ogawa - um homem forte,
de um olhar inabalável, que fazia tremer qualquer oponente.
“Ex-residente de Santos, São Paulo, Kazuo recebeu ameaças da Shindo Renmei
(organização secreta japonesa no Brasil, muito bem retratada por Fernando
Morais em seu livro “Corações Sujos” – Companhia das Letras) que, anos
depois, ainda expressava seus fragmentos através de pequenas ameaças como
fruto de vingança. Kazuo Ogawa, filho de Saburo Ogawa, sabia que a vingança
poderia ir adiante. Escolheu Goiás pela grande área de terra e oportunidades
que estavam sendo dadas a imigrantes de outros estados. Chegou a Goiânia em
maio de 1975, instalando-se em Campinas, na época uma cidadezinha satélite.
Logo conheceu outros agricultores que moravam em Nerópolis e assim estendeu a
sua amizade.
“Kazuo era o mais instruído dos irmãos que chegaram no Brasil e não demorou
muito era conselheiro de várias pessoas que lhe procuravam. Sabia que a Shindo
Renmei não o deixaria em paz. Acredita-se que Kazuo era conhecido por mais de
um nome, modificando a sua aparência a cada dois meses. Incentivado pelos
amigos que praticavam Judô e principalmente por Guntaro Kuramoto e Kishio
Sanga, iniciou a primeira turma de amigos que aprenderia a arte da autodefesa
com Ogawa kazuo que, nesta época, não atendeu ao pedido de ensinar kenjutsu,
sendo Kishio Sanga seu único aluno nesta área.
“Em 1977, vítima de volvo intestinal, foi internado na Santa Casa de Misericórdia,
na rua 4, no centro de Goiânia, vindo a falecer dias depois por uma pneumonia.
Muitos acontecimentos marcaram a trajetória de sua morte, que iniciaria uma
guerra que se reflete até hoje naqueles que deram seguimento à arte. Durante o
velório, vários conflitos prejudicaram ainda mais o relacionamento entre os
familiares, que romperiam de vez qualquer ligação com parte da família Ogawa
que residia no Paraná. O ódio se instalou de tal forma que muitos deixaram os
seguimentos e se recolheram em seus afazeres cotidianos.
“Kibashi Hirayama chega então a Goiás, a pedido de Kishio Sanga – pai de
Akira Sanga, para dar continuidade às atividades. Sua estadia na cidade foi
financiada por Sanga. Em 1988, Kibashi Hirayama deixou Goiânia e retornou ao
Paraná, deixando 11 alunos formados na graduação de Sensei, dentre eles
Takeshi Hasegawa, Hideo Okaza, Akira Sanga, Jordan Augusto, Takeshi Sato, Tami
Sato entre outros. Nesta época, eu já não praticava mais, mas muito ainda me
encantava encontrá-los e saber das novidades. Depois disto, nunca mais os vi.
Cada um seguiu a sua história pessoal.” (Pedro Okazawa – Entrevista cedida
ao Jornal interno das escolas de Bugei em 1990).
A história pessoal de Jordan Augusto, no entanto, seria recheada de atribulações
e esforços para seguir o caminho de Shidoshi. “Para a preparação de um livro biográfico
sobre ele, entrevistamos muitos dos antigos professores e pessoas
que conviveram com o Shidoshi ao longo de todo esse tempo” – afirma Juliana
Galende.
“O mais impressionante para nós, que somos alunos do Shidoshi Jordan, foi
perceber a grande quantidade de obstáculos que ele teve que superar para
continuar seu caminho. A primeira grande barreira enfrentada foi o preconceito.
O fato de não ter descendência japonesa em sua genética fez com que muitos
discriminassem seus sonhos, não importando o que sua apuração técnica
mostrasse, nem os seus esforços no aprendizado das artes de guerra
tradicionais”.
“Dentro de análises feitas sobre as culturas, sabemos o quanto é difícil
para um nativo de um país reconhecer em um estrangeiro os conhecimentos sobre
seu próprio povo, ou ainda pior, sobre a história daquele determinado local
num grau de detalhamento superior ao dominado pela maioria das pessoas. Seria
como um alemão mostrar conhecimentos aprofundados sobre samba para um
carnavalesco de uma Escola do Rio de Janeiro” – conclui.
Shidoshi Jordan sofreu todos os tipos de ataque moral pelo fato de ser um
“gaijin” na arte japonesa, assim como muitos outros no mundo sofreram ao
tentar se profissionalizar numa arte de outro país. Aos poucos, sua forma de
conduta e determinação mostrou aos superiores que algo a mais existia em alguém
que persiste em andar sob ventos contrários. No entanto, a casta antiga e
tradicional é mais rígida do que se realmente mostra, principalmente dentro do
Bugei.
Segundo seu primeiro professor Kibashi Hirayama, ele jamais acreditou que Jordan
chegasse até a graduação de Shidoshi. Hirayama também sofreu o efeito da
xenofobia no Brasil, não somente pelos brasileiros, mas pelos descendentes
japoneses que tinha preconceito com a arte que ele ensinava. Por conhecer as
dificuldades de enfrentar o preconceito, pensava que Jordan não as superaria.
As mágoas deixadas no coração acabam por criar dois caminhos: a desistência
ou a incessante exaustão nos treinamentos. Segundo sensei Hirayama, em 1987 ele
disse ao aluno Jordan que só existiria uma maneira de vencer tudo isso:
“sendo alguém, superando os outros praticantes da arte”.
Hirayama, que se mudou de Goiânia pelo desgosto gerado em seu sentimento,
deixou a maior das lições ao futuro shidoshi brasileiro. Jordan passou a
treinar exaustivamente mais de nove horas por dia, em locais abertos ou fechados
que não ofereciam nenhuma infra-estrutura, mas nunca se desviou de seus
objetivos.
Com a necessidade de trabalhar para se sustentar, prestou serviços numa loja
chamada “Pneus e Serviços”, onde, para aperfeiçoar suas técnicas
marciais, prometia um “lanche” aos mecânicos e borracheiros que
conseguissem acertá-lo com golpes ou imobilizá-lo. Sobre caixas de papelão
abertas que simulavam um tatami, arremessou e imobilizou várias pessoas,
conquistando a amizade dos colegas de trabalho, que fizeram de tudo para se
tornarem alunos.
No entanto, para Jordan, ainda era a época de aprendizado, e não de ensino. Ao
ser convidado para fazer o mestrado que lhe entregaria a graduação de shidoshi,
após a observação de suas técnicas num encontro marcial do Bugei, por
Sussumo Motoshima (Yabu Ryu Kiokay) em visita ao Brasil, Jordan fez uma
especialização de 140 horas com esse grande mestre japonês.
Embora passasse por momentos difíceis dentro da própria Ogawa Shizen Kay por
ser brasileiro, Jordan provou sua imensa coragem, determinação e preparo,
recebendo de Saiko Shidoshi Hiroshi Ogawa, grande progenitor do Bugei no Brasil,
a faixa vermelha em reconhecimento à difícil graduação conquistada.
Essas e muitas outras histórias nós ouvimos a respeito do Shidoshi Jordan.
Pelo seu exemplo de caráter e de vida decidimos escrever sobre o seu caminho.
Isso, em homenagem não só a ele, mas indiretamente a todos que passam pela
preparação de se tornarem grandes homens nas Histórias das Artes.
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