|
Paciência
Sérgio Fujimoto - entrevista
Praticante de Bugei desde
a década de setenta, Sérgio Fujimoto foi aluno de Isao Hashimoto, que hoje
reside no Japão com a família. Sérgio, que é psicólogo, estudou na Universidade
de São Paulo e, mesmo estando afastando desde o final de 1998, hoje mais do que
nunca é um apaixonado na arte do Bugei, sendo um constante visitador das terras
do Sol Nascente onde procura ver de perto técnicas remanescentes das práticas
místicas do Bugei.
Amigo do Shidoshi desde
outrora, Sérgio possui a graduação de Sensei, dedicando-se mais à sua profissão,
que por destino das coisas acabou por tomar muito do tempo que gostaria de
dedicar à evolução na linhagem.
Kokeisha Juliana Galende
entrevistou Sérgio Fujimoto em Goiânia, em visita à Sede Central.
JG - Tivemos acesso a um
ou dois artigos que o Sr. escreveu para o site da SBB, que inclusive foram
elogiados por muitos leitores. Como psicólogo, em que o senhor acha que
acrescenta esse perfil do nosso site ao publicar artigos relacionados não
somente a artes marciais?
Se você pegar a década de sessenta, setenta... Os
artistas marciais enfrentavam um estereotipo de que o praticante de arte marcial
em geral, era um troglodita que não conseguia assinar o próprio nome ou que
tinha ímpetos violentos. Eu enfrentei isso com minha família, mesmo sendo
descendente. Vejo que o trabalho da SBB visa nesta forma de comunicação a
utilização do trabalho visando pensar de modo positivo o conjunto das
psicologias em sua dispersão. Simplificando ao extremo, duas leituras deste
quadro se oferecem: a epistemológica, amparada pela história das ciências
através de uma abordagem normativa; e as arqueológicas, genealógicas, políticas,
etc., amparadas pela história seja esta do Japão ou não, no sentido mais amplo
de sua diversidade, sem qualquer totalização ou justificação do status quo.
O que diferencia as duas abordagens é a ausência no segundo grupo das idéias
reguladoras de verdade e progresso. Com isto, o grupo epistemológico toma a
dispersão da psicologia para condená-la por sua falta de cientificidade atual e
sugerir a sua possível redenção utópica num futuro em que a prática científica
seja melhor observada. O segundo grupo, mais além da epistemologia, põe o ideal
de verdade entre parêntesis, descrevendo apenas as condições de possibilidade
históricas deste saber, condenando-o no máximo por suas retificações históricas.
Enquanto os epistemólogos julgam o presente na esperança de redenção futura, os
demais se dirigem a um certo passado, onde o que é atual pode ter lançado as
suas raízes.
Acredito que tudo o que venha a contribuir na
formação de uma nova imagem do profissional marcial só deixa aspectos positivos
para pessoas que trabalham nesse aspecto. No Brasil existem profissões e
subprofissões, diferentemente dos países de 1º Mundo. A que não possui o status
social, é condenada a uma imagem denegrida e desvalorizada. Infelizmente com a
arte marcial foi e ainda é assim. A dedicação que um profissional do ramo
precisa dispensar é valorizado apenas nos filmes poéticos de Hollywood, vistos
como um aspecto cultural curioso. Essa imagem precisa mudar. Infelizmente no
Brasil o que se respeita é o retorno financeiro. Se no Japão um mestre de artes
marcial pode ser considerado um tesouro vivo, aqui só é alguém se se tornar
rico.Todo conhecimento que contribua para essa transformação é sempre bem-vindo!
JG – Qual a sua visão em
relação ao Bugei hoje? Qual a vantagem ou a desvantagem numa comparação com o
Bugei da década de 70?
Acredito que existam muitos pontos que podem ser
mensurados. Em primeiro lugar, um dos pontos positivos que vejo nos dias de hoje
é a utilização da tecnologia, que possibilita que você registre as formas
clássicas, o que em nossa época não era possível. Para se ter uma idéia, as
seqüências clássicas – Koryu Seiteigata, eram ensinadas de forma aleatória como
conteúdo tradicional, e não como um tesouro que tem início, meio e fim. O
Jordan, mesmo nos dias de hoje, é quem está se preocupando em registrar as
formas ensinadas por Ogawa Sensei. Pois, se Koryu é uma forma clássica e
imutável, deve seguir assim. Quanto aos aspectos negativos, acredito que o Bugei
perdeu muito de sua força e tradição. É difícil nos dias de hoje você ensinar os
mesmos exercícios que em nossa época. Pense que um médico, ou professor de
ensino médio, não tem condição de participar de uma forma de treinamento mais
rígida e direcionada, pois precisa estar apresentável no dia seguinte. Até
porque os dias de hoje estão diferentes... Tudo está mais automatizado e as
pessoas não se sujeitam mais a isso.
Outro aspecto é o
psicológico... O que podemos dizer sobre esta dupla orientação entre o mundo
atual e o tradicional vivido dentro do Bugei é que a humanidade atual
globalizada pelos produtos norte-americanos não carece de uma abordagem
científica; as pessoas não se preocupam mais em estudar a anatomia e a
fisiologia do exercício ou da técnica, e há ainda quem diga que o aluno não
precisa saber disso. As artes sofrem pelo excesso de importância dada às
sucessivas importações de modelos oriundos das mais diversas industrias marciais
comerciais que não se sustentam como tradicionais. Esta utopia epistemológica
não apenas não rende a pacificação das práticas tradicionais, como pelo
contrário, amplia a sua dispersão, pois os modelos ocidentais e as orientações
metodológicas importadas das culturas atuais para a prática do Koryu são bem
diversas. De mais a mais, esta aplicação do receituário atual não garante a
verificação, ou ao menos a superação de um projeto sério em prol dos demais;
apenas reforça a tensão no interior deste saber em que cada orientação se arma
das provas que ela mesma se dá contra as demais.
JG – Hoje existe uma
grande preocupação em não permitir que a Linhagem se desvie de seu tradicional,
mantendo uma grande rigidez nas Escolas para aqueles que querem seguir um
caminho de ensino. Há de fato uma maior ameaça quanto ao desvirtuar de uma
linhagem hoje do que antigamente?
Supostamente que sim... Você pode observar hoje em
dia professores saídos do nada, que caminham para o nada. O velho problema entre
criador e criatura. Alguém que aprende com outrem, não termina seu curso e cria
outro semelhante. Você vê hoje em dia uma série de pessoas que se dizem mestres,
e que você acha que saíram de um filme de terror.
Como psicólogo posso dizer
que, neste aspecto, muitas atribuições se devem a um determinado comportamento,
uma causa psíquica. Quando se diz que tal ou qual ato é psíquico? Ou seja, o que
quer dizer quando se atribui a um ato, a um comportamento, a uma resposta
humana, uma causa psíquica? Onde ele localiza esta causa psíquica dentro de uma
constelação de outras causas possíveis? E que outras causas um ato humano pode
ter?
Dizemos que a causa é física
quando, por exemplo, alguém encosta a brasa do cigarro na ponta do dedo e o
braço recua, ou seja, o sujeito é impelido a fazer isso por uma necessidade
física, tanto é assim que até uma ameba faria o mesmo. A causa deste ato não
pode ser dita psicológica. Ou quando alguém lhe empurra, você perde o equilíbrio
e cai.
Ao pagar a tarifa de ônibus,
o sujeito dá ao cobrador duas notas de R$ 1,00 e não uma de R$ 1,00. Se
perguntarmos ao sujeito porque ele não deu apenas uma nota de R$ 1,00, ele diz
que a tarifa custa R$ 1,10 e R$ 1,00 não cobre esta tarifa. Tal ato também não
pode ser dito psicológico, uma vez que obedece a uma norma que é idêntica e a
mesma para todos os seres humanos. Qualquer um, na mesma situação teria de fazer
mais ou menos a mesma coisa, a não ser que esteja impedido de fazê-lo por alguma
outra causa, essa sim poderíamos classificar como sendo psicológica.
Todas as ações que são baseadas em motivos lógicos evidentes para qualquer ser
humano, não podem ser ditas como tendo sido causadas psicologicamente, pois são
causadas por alguma coisa que está, evidentemente, para além da psique. Ao fazer
a conta 2+2, obtenho o resultado 4, que não foi determinado por mim, pois não se
trata de algo psicológico, e sim da estrutura do próprio número. Tal como o
teorema de Pitágoras: "o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados
dois catetos". Não se chega a esta conclusão por um motivo psicológico, ela nos
é imposta pela estrutura do triângulo retângulo.
Atos lógicos são aqueles que
obedecem a uma necessidade que não é impositiva como a necessidade física, mas
que é livremente aceita pelo indivíduo, ou seja, não há nada que o force desde
dentro ou desde fora, a aderir a uma conclusão lógica.
Não é nem o caso de não se conseguir chegar à uma conclusão lógica, é o caso de
aderir a ela. Santo Alberto Magno já dizia que "as pessoas completam o silogismo
mas ele não as convence". A partir do momento em que a necessidade lógica é
aceita, o sujeito se submete a uma ordem de causas que já não é mais
psicológica.
Evidentemente, há um elemento psicológico na raiz da aceitação do comportamento
lógico. Mas o comportamento em si mesmo não é mais psicológico, o que está fora
de dúvida, ele é intelectual no sentido em que ele capta uma exigência
ontológica, algo que está para além do indivíduo, para além de sua psique.
Seguindo o mesmo exemplo
acima, esta terceira ordem de causas pode se dar quando o sujeito coloca a mão
no bolso e puxa uma nota qualquer e coincide de essa nota ser de valor superior
ao valor da tarifa. Isto não tem uma causa física determinada, pois acontece por
uma combinatória aleatória de uma infinidade de causas a que chamamos "acaso",
pelo fato de não conseguirmos reconstituir toda a cadeia causal. É evidente que
para que o sujeito pegasse esta nota e não outra, esta mesma nota tinha de estar
em cima das outras, a que era mais fácil de se pegar porque foi para aonde a mão
se dirigiu etc.. Alguma causa tem, contudo, há um complexo de causas tão
inesgotável que, fazer uma pesquisa a este respeito, tentando remontar toda a
cadeia seria um trabalho tão exaustivo com um resultado tão irrelevante, que
dizemos ter sido o acaso que determinou este ato.
O acaso não é propriamente
aquilo que não tem causa, mas o que tem uma multiplicidade de causas, sendo que
algumas podem ser físicas, outras psicológicas, isto é, trata-se de uma
constelação irreconstituível de causas.
Assim, vejo que em muitos
casos de variação de linhagens e escolas, saindo do processo evolutivo técnico,
o processo se dá pela necessidade humana de se estabilizar diante de feitos que
lhe tiram o centro. Ou seja, se não sou aceito por este ou aquele mestre, me
colocarei à altura dele. Ou muitas vezes, o que é pior, destruirei a sua imagem
para que a minha possa florescer. É uma necessidade de reconhecimento e vaidade,
ou mesmo pressa, pois sabemos que os caminhos tradicionais são longos, de
pessoas que não seguem os procedimentos corretos para alcançar os louros da
vitória. Assim, por não serem devidamente qualificados para ensino, técnicas
valorosas vão sendo alteradas e se perdem ao longo do tempo.
JG – E a respeito dos
conceitos tradicionais? Muitos dizem que é uma época de resgate dos conceitos do
passado. Outros pensam que cada geração carrega cada vez menos os valores éticos
tradicionais que um dia regeram o comportamento de nossos avós e bisavós. O que
o senhor acha?
Acredito que o mundo está de certa forma perdido
em relação à referencia que possuímos de nossos pais. Este individualismo que
vivemos atualmente desperta por outro lado a carência e vontade de voltarmos a
viver em tribo. Você vê isso claramente nos jovens, a necessidade de se
organizar e se proteger.
Isso nos lembra a frase de
Goethe: "A natureza parece ter apostado na individualidade".
Hoje a modernidade parece ter
distorcido também os valores dos pais, que cada vez menos acompanham o
crescimento e a educação de seus filhos em função de atividades profissionais.
Sem um espelho a seguir, certamente haverá a carência de referências, que mais
me parece ser dada pela mídia do que por momentos familiares. Basta olhar o que
é exibido em novelas e programas televisivos como exemplos comportamentais. Se
não houver um modelo religioso para moldar um comportamento social baseado em
ética, papel que a Igreja por muito tempo exerceu e ainda exerce, porém com
menos força hoje, o jovem aprende a viver segundo a moda e o que lhe convém. A
falta de limites pode ser tão prejudicial quanto o excesso.
Acredito que os que não se
encaixam nisso sempre buscarão aquilo a que se adequem de maneira mais fácil e
racional. Certos conceitos são difíceis de se modernizar, pois mexem com o lado
interior do ser humano. Os conceitos tradicionais vividos dentro do Bugei
concretizam o que os antigos acreditavam como certo e errado. É fato quer sob
uma ótica racional e normal. Mas muitas vezes supre essa carência de valores que
vemos no mundo afora. Caráter e hombridade ainda geram um conforto àqueles que
convivem em um ambiente saudável. Permitem que haja confiança e paz entre amigos
e colegas, sem necessidade de atritos ou surpresas desagradáveis. Isso é o que
atrai quando se busca um caminho munido de seriedade. É ver na prática o que se
fala em teoria.
JG – E comparado ao Japão?
O que tem visto por lá...
É uma pena... O Japão já
não é mais o mesmo!
O Japão sofreu uma grande
influência da civilização ocidental desde a introdução do Cristianismo em 1549
pelo missionário português, São Francisco Xavier.
A era Meiji, que durou de
1868 a 1912, representou um dos períodos mais notáveis da história do Japão,
pois se realizou em apenas algumas décadas o que levou séculos para se
desenvolver no Ocidente. O imperador Meiji, cujo governo ilustrado e construtivo
ajudou a conduzir a nação durante as décadas dinâmicas de transformação, morreu
em 1912, antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. No final dessa guerra, na
qual o Japão entrou sob as cláusulas da Aliança Anglo-Japonesa de 1902, o país
foi reconhecido como uma das grandes potências do mundo.
Eu entendo que, a cada
momento, o Japão que amamos em seus aspectos tradicionais está se perdendo. A
população atual do Japão ultrapassa os 120 milhões de habitantes. Cerca de 70%
dos japoneses vivem nas cidades. Deste total, 58% aglomeram-se nas quatro
grandes metrópoles: Tóquio, Nagoya, Oosaka e Kita-Kyuushuu. A maioria sob a
influência dos EUA e os aspectos gerais da globalização. É inevitável que se
perca conceitos e tradições. O Bugei que se pratica no Brasil, em muitos
aspectos, é mais tradicional do que no próprio Japão, pois os praticantes
acreditam em Bushido enquanto estão no Dojo, mas fora já não existe mais este
conceito. Tornou-se folclore.
JG – O senhor nos falou
que assistiu o DVD dos melhores momentos da II Mostra Nacional de Koryu
realizada pela SBB em junho deste ano. O que lhe passou?
Achei
interessante o fato de alunos tão novos executarem técnicas diferenciadas e
difíceis em nossa época. Com certeza isso se deve ao fato de uma didática forte
e arrojada. Nesta área o Jordan é muito competente. Conhece mesmo! Os homens
fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob
circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam
diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. Acredito que as adversidades
que passou em seu caminho o fez pensar de uma forma especial.
A
realidade histórico-social exerce grande influência sobre a vida e a vontade das
pessoas. Assim, o problema da força de vontade não é uma simples questão de
qualidade subjetiva, algo inato, dos indivíduos. A vontade é motivada ou
bloqueada também pelo meio e as circunstâncias em que vivem as pessoas. Quanto
aos alunos, fiquei encantado... E quanto à escola, mais ainda, pois o trabalho
de Ogawa sensei continua!
|