quinta-feira, 9 de setembro de 2010

 

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Paciência

Sérgio Fujimoto - entrevista

 

Praticante de Bugei desde a década de setenta, Sérgio Fujimoto foi aluno de Isao Hashimoto, que hoje reside no Japão com a família. Sérgio, que é psicólogo, estudou na Universidade de São Paulo e, mesmo estando afastando desde o final de 1998, hoje mais do que nunca é um apaixonado na arte do Bugei, sendo um constante visitador das terras do Sol Nascente onde procura ver de perto técnicas remanescentes das práticas místicas do Bugei.

Amigo do Shidoshi desde outrora, Sérgio possui a graduação de Sensei, dedicando-se mais à sua profissão, que por destino das coisas acabou por tomar muito do tempo que gostaria de dedicar à evolução na linhagem.

Kokeisha Juliana Galende entrevistou Sérgio Fujimoto em Goiânia, em visita à Sede Central.

 

JG - Tivemos acesso a um ou dois artigos que o Sr. escreveu para o site da SBB, que inclusive foram elogiados por muitos leitores. Como psicólogo, em que o senhor acha que acrescenta esse perfil do nosso site ao publicar artigos relacionados não somente a artes marciais?

Se você pegar a década de sessenta, setenta... Os artistas marciais enfrentavam um estereotipo de que o praticante de arte marcial em geral, era um troglodita que não conseguia assinar o próprio nome ou que tinha ímpetos violentos. Eu enfrentei isso com minha família, mesmo sendo descendente. Vejo que o trabalho da SBB visa nesta forma de comunicação a utilização do trabalho visando pensar de modo positivo o conjunto das psicologias em sua dispersão. Simplificando ao extremo, duas leituras deste quadro se oferecem: a epistemológica, amparada pela história das ciências através de uma abordagem normativa; e as arqueológicas, genealógicas, políticas, etc., amparadas pela história seja esta do Japão ou não, no sentido mais amplo de sua diversidade, sem qualquer totalização ou justificação do status quo. O que diferencia as duas abordagens é a ausência no segundo grupo das idéias reguladoras de verdade e progresso. Com isto, o grupo epistemológico toma a dispersão da psicologia para condená-la por sua falta de cientificidade atual e sugerir a sua possível redenção utópica num futuro em que a prática científica seja melhor observada. O segundo grupo, mais além da epistemologia, põe o ideal de verdade entre parêntesis, descrevendo apenas as condições de possibilidade históricas deste saber, condenando-o no máximo por suas retificações históricas. Enquanto os epistemólogos julgam o presente na esperança de redenção futura, os demais se dirigem a um certo passado, onde o que é atual pode ter lançado as suas raízes. 

 

Acredito que tudo o que venha a contribuir na formação de uma nova imagem do profissional marcial só deixa aspectos positivos para pessoas que trabalham nesse aspecto. No Brasil existem profissões e subprofissões, diferentemente dos países de 1º Mundo. A que não possui o status social, é condenada a uma imagem denegrida e desvalorizada. Infelizmente com a arte marcial foi e ainda é assim. A dedicação que um profissional do ramo precisa dispensar é valorizado apenas nos filmes poéticos de Hollywood, vistos como um aspecto cultural curioso. Essa imagem precisa mudar. Infelizmente no Brasil o que se respeita é o retorno financeiro. Se no Japão um mestre de artes marcial pode ser considerado um tesouro vivo, aqui só é alguém se se tornar rico.Todo conhecimento que contribua para essa transformação é sempre bem-vindo!

 

 

JG – Qual a sua visão em relação ao Bugei hoje? Qual a vantagem ou a desvantagem numa comparação com o Bugei da década de 70?

 

Acredito que existam muitos pontos que podem ser mensurados. Em primeiro lugar, um dos pontos positivos que vejo nos dias de hoje é a utilização da tecnologia, que possibilita que você registre as formas clássicas, o que em nossa época não era possível. Para se ter uma idéia, as seqüências clássicas – Koryu Seiteigata, eram ensinadas de forma aleatória como conteúdo tradicional, e não como um tesouro que tem início, meio e fim.  O Jordan, mesmo nos dias de hoje, é quem está se preocupando em registrar as formas ensinadas por Ogawa Sensei. Pois, se Koryu é uma forma clássica e imutável, deve seguir assim. Quanto aos aspectos negativos, acredito que o Bugei perdeu muito de sua força e tradição. É difícil nos dias de hoje você ensinar os mesmos exercícios que em nossa época. Pense que um médico, ou professor de ensino médio, não tem condição de participar de uma forma de treinamento mais rígida e direcionada, pois precisa estar apresentável no dia seguinte. Até porque os dias de hoje estão diferentes... Tudo está mais automatizado e as pessoas não se sujeitam mais a isso.

Outro aspecto é o psicológico... O que podemos dizer sobre esta dupla orientação entre o mundo atual e o tradicional vivido dentro do Bugei é que a humanidade atual globalizada pelos produtos norte-americanos não carece de uma abordagem científica; as pessoas não se preocupam mais em estudar a anatomia e a fisiologia do exercício ou da técnica, e há ainda quem diga que o aluno não precisa saber disso. As artes sofrem pelo excesso de importância dada às sucessivas importações de modelos oriundos das mais diversas industrias marciais comerciais que não se sustentam como tradicionais. Esta utopia epistemológica não apenas não rende a pacificação das práticas tradicionais, como pelo contrário, amplia a sua dispersão, pois os modelos ocidentais e as orientações metodológicas importadas das culturas atuais para a prática do Koryu são bem diversas. De mais a mais, esta aplicação do receituário atual não garante a verificação, ou ao menos a superação de um projeto sério em prol dos demais; apenas reforça a tensão no interior deste saber em que cada orientação se arma das provas que ela mesma se dá contra as demais.

 

JG – Hoje existe uma grande preocupação em não permitir que a Linhagem se desvie de seu tradicional, mantendo uma grande rigidez nas Escolas para aqueles que querem seguir um caminho de ensino. Há de fato uma maior ameaça quanto ao desvirtuar de uma linhagem hoje do que antigamente?

Supostamente que sim... Você pode observar hoje em dia professores saídos do nada, que caminham para o nada. O velho problema entre criador e criatura. Alguém que aprende com outrem, não termina seu curso e cria outro semelhante. Você vê hoje em dia uma série de pessoas que se dizem mestres, e que você acha que saíram de um filme de terror.

Como psicólogo posso dizer que, neste aspecto, muitas atribuições se devem a um determinado comportamento, uma causa psíquica. Quando se diz que tal ou qual ato é psíquico? Ou seja, o que quer dizer quando se atribui a um ato, a um comportamento, a uma resposta humana, uma causa psíquica? Onde ele localiza esta causa psíquica dentro de uma constelação de outras causas possíveis? E que outras causas um ato humano pode ter?

Dizemos que a causa é física quando, por exemplo, alguém encosta a brasa do cigarro na ponta do dedo e o braço recua, ou seja, o sujeito é impelido a fazer isso por uma necessidade física, tanto é assim que até uma ameba faria o mesmo. A causa deste ato não pode ser dita psicológica. Ou quando alguém lhe empurra, você perde o equilíbrio e cai.

Ao pagar a tarifa de ônibus, o sujeito dá ao cobrador duas notas de R$ 1,00 e não uma de R$ 1,00. Se perguntarmos ao sujeito porque ele não deu apenas uma nota de R$ 1,00, ele diz que a tarifa custa R$ 1,10 e R$ 1,00 não cobre esta tarifa. Tal ato também não pode ser dito psicológico, uma vez que obedece a uma norma que é idêntica e a mesma para todos os seres humanos. Qualquer um, na mesma situação teria de fazer mais ou menos a mesma coisa, a não ser que esteja impedido de fazê-lo por alguma outra causa, essa sim poderíamos classificar como sendo psicológica.

Todas as ações que são baseadas em motivos lógicos evidentes para qualquer ser humano, não podem ser ditas como tendo sido causadas psicologicamente, pois são causadas por alguma coisa que está, evidentemente, para além da psique. Ao fazer a conta 2+2, obtenho o resultado 4, que não foi determinado por mim, pois não se trata de algo psicológico, e sim da estrutura do próprio número. Tal como o teorema de Pitágoras: "o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dois catetos". Não se chega a esta conclusão por um motivo psicológico, ela nos é imposta pela estrutura do triângulo retângulo.

Atos lógicos são aqueles que obedecem a uma necessidade que não é impositiva como a necessidade física, mas que é livremente aceita pelo indivíduo, ou seja, não há nada que o force desde dentro ou desde fora, a aderir a uma conclusão lógica.
Não é nem o caso de não se conseguir chegar à uma conclusão lógica, é o caso de aderir a ela. Santo Alberto Magno já dizia que "as pessoas completam o silogismo mas ele não as convence". A partir do momento em que a necessidade lógica é aceita, o sujeito se submete a uma ordem de causas que já não é mais psicológica.

Evidentemente, há um elemento psicológico na raiz da aceitação do comportamento lógico. Mas o comportamento em si mesmo não é mais psicológico, o que está fora de dúvida, ele é intelectual no sentido em que ele capta uma exigência ontológica, algo que está para além do indivíduo, para além de sua psique.

Seguindo o mesmo exemplo acima, esta terceira ordem de causas pode se dar quando o sujeito coloca a mão no bolso e puxa uma nota qualquer e coincide de essa nota ser de valor superior ao valor da tarifa. Isto não tem uma causa física determinada, pois acontece por uma combinatória aleatória de uma infinidade de causas a que chamamos "acaso", pelo fato de não conseguirmos reconstituir toda a cadeia causal. É evidente que para que o sujeito pegasse esta nota e não outra, esta mesma nota tinha de estar em cima das outras, a que era mais fácil de se pegar porque foi para aonde a mão se dirigiu etc.. Alguma causa tem, contudo, há um complexo de causas tão inesgotável que, fazer uma pesquisa a este respeito, tentando remontar toda a cadeia seria um trabalho tão exaustivo com um resultado tão irrelevante, que dizemos ter sido o acaso que determinou este ato.

O acaso não é propriamente aquilo que não tem causa, mas o que tem uma multiplicidade de causas, sendo que algumas podem ser físicas, outras psicológicas, isto é, trata-se de uma constelação irreconstituível de causas.

Assim, vejo que em muitos casos de variação de linhagens e escolas, saindo do processo evolutivo técnico, o processo se dá pela necessidade humana de se estabilizar diante de feitos que lhe tiram o centro. Ou seja, se não sou aceito por este ou aquele mestre, me colocarei à altura dele. Ou muitas vezes, o que é pior, destruirei a sua imagem para que a minha possa florescer. É uma necessidade de reconhecimento e vaidade, ou mesmo pressa, pois sabemos que os caminhos tradicionais são longos, de pessoas que não seguem os procedimentos corretos para alcançar os louros da vitória. Assim, por não serem devidamente qualificados para ensino, técnicas valorosas vão sendo alteradas e se perdem ao longo do tempo.

 

JG – E a respeito dos conceitos tradicionais? Muitos dizem que é uma época de resgate dos conceitos do passado. Outros pensam que cada geração carrega cada vez menos os valores éticos tradicionais que um dia regeram o comportamento de nossos avós e bisavós. O que o senhor acha?

Acredito que o mundo está de certa forma perdido em relação à referencia que possuímos de nossos pais. Este individualismo que vivemos atualmente desperta por outro lado a carência e vontade de voltarmos a viver em tribo. Você vê isso claramente nos jovens, a necessidade de se organizar e se proteger.

Isso nos lembra a frase de Goethe: "A natureza parece ter apostado na individualidade".

Hoje a modernidade parece ter distorcido também os valores dos pais, que cada vez menos acompanham o crescimento e a educação de seus filhos em função de atividades profissionais. Sem um espelho a seguir, certamente haverá a carência de referências, que mais me parece ser dada pela mídia do que por momentos familiares. Basta olhar o que é exibido em novelas e programas televisivos como exemplos comportamentais. Se não houver um modelo religioso para moldar um comportamento social baseado em ética, papel que a Igreja por muito tempo exerceu e ainda exerce, porém com menos força hoje, o jovem aprende a viver segundo a moda e o que lhe convém. A falta de limites pode ser tão prejudicial quanto o excesso. 

Acredito que os que não se encaixam nisso sempre buscarão aquilo a que se adequem de maneira mais fácil e racional. Certos conceitos são difíceis de se modernizar, pois mexem com o lado interior do ser humano. Os conceitos tradicionais vividos dentro do Bugei concretizam o que os antigos acreditavam como certo e errado. É fato quer sob uma ótica racional e normal. Mas muitas vezes supre essa carência de valores que vemos no mundo afora. Caráter e hombridade ainda geram um conforto àqueles que convivem em um ambiente saudável. Permitem que haja confiança e paz entre amigos e colegas, sem necessidade de atritos ou surpresas desagradáveis. Isso é o que atrai quando se busca um caminho munido de seriedade. É ver na prática o que se fala em teoria.

 

JG – E comparado ao Japão? O que tem visto por lá...

É uma pena... O Japão já não é mais o mesmo! O Japão sofreu uma grande influência da civilização ocidental desde a introdução do Cristianismo em 1549 pelo missionário português, São Francisco Xavier.

A era Meiji, que durou de 1868 a 1912, representou um dos períodos mais notáveis da história do Japão, pois se realizou em apenas algumas décadas o que levou séculos para se desenvolver no Ocidente. O imperador Meiji, cujo governo ilustrado e construtivo ajudou a conduzir a nação durante as décadas dinâmicas de transformação, morreu em 1912, antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. No final dessa guerra, na qual o Japão entrou sob as cláusulas da Aliança Anglo-Japonesa de 1902, o país foi reconhecido como uma das grandes potências do mundo.

Eu entendo que, a cada momento, o Japão que amamos em seus aspectos tradicionais está se perdendo. A população atual do Japão ultrapassa os 120 milhões de habitantes. Cerca de 70% dos japoneses vivem nas cidades. Deste total, 58% aglomeram-se nas quatro grandes metrópoles: Tóquio, Nagoya, Oosaka e Kita-Kyuushuu. A maioria sob a influência dos EUA e os aspectos gerais da globalização. É inevitável que se perca conceitos e tradições. O Bugei que se pratica no Brasil, em muitos aspectos, é mais tradicional do que no próprio Japão, pois os praticantes acreditam em Bushido enquanto estão no Dojo, mas fora já não existe mais este conceito. Tornou-se folclore.

 

JG – O senhor nos falou que assistiu o DVD dos melhores momentos da II Mostra Nacional de Koryu realizada pela SBB em junho deste ano. O que lhe passou?

Achei interessante o fato de alunos tão novos executarem técnicas diferenciadas e difíceis em nossa época. Com certeza isso se deve ao fato de uma didática forte e arrojada. Nesta área o Jordan é muito competente. Conhece mesmo! Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. Acredito que as adversidades que passou em seu caminho o fez pensar de uma forma especial.

A realidade histórico-social exerce grande influência sobre a vida e a vontade das pessoas. Assim, o problema da força de vontade não é uma simples questão de qualidade subjetiva, algo inato, dos indivíduos. A vontade é motivada ou bloqueada também pelo meio e as circunstâncias em que vivem as pessoas. Quanto aos alunos, fiquei encantado... E quanto à escola, mais ainda, pois o trabalho de Ogawa sensei continua!

 


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